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Luta de classes.

por Fernando Lopes, 16 Ago 15

Gosto de escutar conversas, é muito mais educativo do que se pensa. Por isso alegro-me sempre que encontro ao pequeno-almoço duas mulheres de meia-idade, redondas e pequeninas, a conversar animadamente. Tomo café ao balcão e admiro a sua pose de patroas. Fartas de servir, estão ali para serem servidas. Sentam-se numa minúscula mesa e não mexem uma palha para ir buscar o que quer que seja ao balcão. Anda a proprietária para lá e para cá já que as Exas. além de pedirem com maus modos não se querem deslocar.

 

Pela conversa apercebo-me que se trata de duas ex-operárias que perderam o emprego e que «graças a Deus estão muito melhor agora». Falam com um ódio ao patronato que nunca vislumbrei em intervenção do camarada Jerónimo. Se ser comunista não fosse pecado certamente estrariam no comité central.

 

Ambas fazem a velha jigajoga de receberem a dois carrinhos, pelos «patrões» e pelo subsídio de desemprego.  Uma faz limpezas em duas casas, a outra cuida de um idoso. A segunda é particularmente acintosa e reivindicativa. Disse à patroa que todos os dias saia mais tarde, que não estava satisfeita e que o drama era ter-se afeiçoado ao velhinho que cuida e leva a passear. «Disse-lhe tudo, até me deu os cinquenta euros, agora são setecentos e cinquenta, mais o subsídio, que agora, como já passaram não sei quanto anos é poucachinho, só cento e tal».  

 

Há muitos casos assim, e neste admirável mundo velho, a crise não é igual para todos. Estas mulheres venceram à sua maneira, tendo como inimigo não o poder mas as casas e impostos de classe média que as sustentam. Por muito está tudo bem desde que não tenha megeras deste calibre a limpar-me o rabo se chegar a idade para tal.

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Englizing.

por Fernando Lopes, 15 Mai 15

O inglês transformou-se em língua franca dos negócios até ao absurdo. CEO, CFO, term sheet, briefing, headcount, stock split, managment buyout  e muitos outros termos que facilmente teriam tradução em português têm de ser ditos em inglês sob pena de o interlocutor fazer de conta que não entende o que se pretende. Acresce a isto o paradoxo de os nossos quadros superiores serem dotados de baixas skills na língua de Shakespeare. Dir-se-ia que falam um shitty english. Não tinha a noção que este cancro já se tinha propagado ao mundo da saúde. Um documento que me passou pelas mãos fala não na depilação de um doente, mas em shaving. Apetece-me mandá-los ass taking.

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Tocá’ndar.

por Fernando Lopes, 8 Mai 15

Habitualmente tomo o pequeno-almoço numa tasquinha bafienta que serve essencialmente os funcionários de uma companhia de seguros localizada no mesmo edifício. Não sei se por gerar pouco negócio ou outras razões, o diminuto estabelecimento foi alvo de vários trespasses.

 

A proprietária é agora uma senhora na casa dos 50 e muitos. Simpática, mas leeeenta. Nestes locais, os frequentadores querem é engolir rapidamente qualquer coisa e pôr-se a andar. A senhora faz uma coisa de cada vez. Tira um café e fica a olhar, abre um pão e pára, mete queijo dentro de um croissant com uma calma que enerva. Sou stressado, quero é comer quase sem mastigar e ir trabalhar. A meu lado uma jovem ruiva, mignon e muito bonitinha, uma boneca humana, desesperava. A sua meia torrada demorou uns bons dez minutos a sair. Eu, já bufava como uma chaleira.

 

As pessoas que tomam conta de um negócio deviam ter noção do ritmo que é necessário imprimir para que funcione a contento dos clientes. Este vive muito da celeridade do atendimento. Será que quem se mete nestes empreendimentos não é capaz de uma auto-crítica rigorosa antes de embarcar em coisas para as quais, definitivamente, não têm vocação?

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Breve tipificação do utilizador do MB.

por Fernando Lopes, 30 Abr 15

Já todos nos deparamos em algum momento com um utilizador de MB que nos transporta para o seu mundo de manias. Embora existam muitos mais, tipifico apenas os casos mais frequentes:

 

- O desconfiado: é o sujeito(a) que não confia no anãozinho que dentro do MB distribui as notas. Segue uma coreografia programada; primeiro tira um talão com o saldo, depois faz um levantamento, e finalmente tira um novo comprovativo com os movimentos. É desconfiado, acha que até as máquinas o querem enganar.

 

- O atrasado: é o homem de aspecto irritante, que se coloca à frente do terminal com 10 contas para pagar. O cliente que se segue pode esperar. Paga a água, talão, paga a luz, talão, paga a TV por cabo, talão. Cioso do seu direito de usucapião ainda olha zangado se perguntamos se a coisa está demorada.

 

- O esperançoso: sabe que está teso como um carapau, mas tem esperança no jackpot. Mete o cartão do Millennium e nada, o do Montepio e nada, o do Santander e nada. Vai embora triste e deixando o boneco extenuado de tanto levantar os braços a dizer «Saldo Insuficiente>». Desloca-se a outro local, e como jogador viciado continua a tentar a sorte.

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Nunca serás meu.

por Fernando Lopes, 29 Abr 15

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O único adereço que um homem pode usar sem amaricar é um bom relógio, talvez uns botões de punho. Obrigado ao fatinho e gravata numa base diária, associo os botões à minha gaiola dourada. Tenho apenas dois pares, de aço, simples e acessíveis. Adoro relógios, mas não tenho um verdadeiramente bom. Namorei o da foto acima, exposto numa ourivesaria em Júlio Dinis. Quando o fui apreçar mais de 4.000 euros nos separavam. A senhora era convincente, que podia levar e pagar 200 euros por mês, sem juros, que não precisava de contrato de crédito e o diabo a quatro. Tentei-me, mas racionalizei. Não tenho bolsa para uma peça de tal valor. Quer dizer, ter tenho, mas seria uma cagonice sem fim e como sabem sou um simplório. Ficou-me ligeiro travo amargo por não ser dono daquele objecto. Hoje, vi-o à venda por mais de 8.000 euros. Ficou-me a certeza que nunca irá ser meu.

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Um dos sons

por Fernando Lopes, 20 Abr 15

malas com rodas.jpg

 

que enche a minha cidade é aquele tron tron tron das rodas das malas na calçada. Enquanto não virarmos atracção circense como Veneza, enquanto convivermos lado a lado com os turistas sem por eles sermos esmagados, será um som bem-vindo.Uma homenagem especial a Bernard D. Sadow, que inventou em 1970 e patenteou em 1972 as malas com rodas. Uma ideia tão brilhante e tão simples que não se entende como demorou séculos a surgir.

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700

por Fernando Lopes, 19 Abr 15

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O número choca não pela enormidade de vidas perdidas mas pelas esperanças que com elas naufragaram. A europa – assim, com letra pequena – do bem-estar e do estado social manifesta-se incapaz de apoiar esta vaga de refugiados de guerra, e é disso que se trata. Nenhum comissário, dirigente, líder europeu, se pode dizer impotente nesta UE que subsidia vacas e se manifesta indiferente perante vidas humanas. Aprendi que neste continente as tragédias são gradadas em função da cor da pele das vítimas. Que 100 mortos loiros valem mais que 1.000 africanos vítimas de ébola ou 700 árabes fugidos.

 

Eu, que pela morenitude da pele, pelo castanho esverdeado dos olhos, certo estou que sangue moiro me corre nas veias, só vejo pessoas. As que fogem da guerra e as outras, sentadas nos seus sofás, comando de TV na mão, indiferentes à morte alheia.

 

Duas ou três linhas nos jornais, nada mais. Enquanto seres humanos, solidários e empáticos, já estamos todos mortos, só ainda não reparamos no funesto evento.

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Falso, qual quê?

por Fernando Lopes, 25 Mar 15

Anda esta taberna com escassa vontade de tratar temas sérios, o dia-a-dia já é pesado e tristonho quanto baste. Regressam à memória episódios pitorescos que por razão nenhuma me apetece partilhar.

 

Na lua-de-mel, há quase vinte e três anos, fui parar ao Brasil. Andei pelos locais turísticos, passeei brevemente por uma favela, banhei-me em Angra e Búzios, fui à feira nos subúrbios, um local ermo que se chamava Duque de Caxias. 

 

Numa das múltiplas feiras um vendedor aliciava os clientes com roupa de uma única marca de prestígio.

 

- Quanto custam essas t-shirts e camisas?

 

- O vendedor deu um preço que andaria à volta dos dez dólares a peça.

 

- E achas que vou pagar dez dólares por roupa falsificada?

 

- Fausificada, quau quê? Ais péça foi róbada onte à noite de um caminhão.

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Embebedar-se é preciso, fumar não é preciso.

por Fernando Lopes, 22 Fev 15

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Fui agora mesmo à bomba de gasolina comprar cigarros. À frente do balcão, mesmo junto ao caixa e MB ,uma promoção: duas garrafas de Porta da Ravessa por 3,25€. Dando de barato o paradoxo que é uma estação de abastecimento vender bebidas alcoólicas, o meu maço de Pall Mall custou-me 4€, mais 0,75 que duas litradas de vinho. Um país estranho onde o alcoolismo é socialmente aceite e promovido e os fumadores se tornaram na teta de sucessivos governos.

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Namorar no Séc. XXI.

por Fernando Lopes, 31 Jan 15

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Enquanto observo o jovem casal à minha frente entendo o namoro do Séc. XXI. O rapaz exibe uma postura corporal que tenta ser sedutora, a jovem sorri, troca duas palavras, e mergulha no telemóvel. O facebook, WhatsApp, o messaging instantâneo, tornaram-se rivais de peso para aquele miúdo nos seus vinte e poucos. Nenhum homem com dois dedos de testa quer ser segundo, menos ainda sabendo que a primeira escolha é um telemóvel. Por isso, jovens senhoras que me lêem, se optaram por sair com um rapaz deixem ficar o mundo virtual na carteira. Conversem, troquem ideias, experiências, e parem de teclar a toda a hora como se o que não existe fosse mais importante que o ser humano à vossa frente. Estas palavras são obviamente extensíveis aos geeks que acham o 4G e o processador Dual Core uma extensão da sua masculinidade.

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  • Anónimo

    Mas olhar directamente pode ser muito intimidante ...

  • Fernando Lopes

    Agradeço o abraço e retribuo ainda com mais vigor....

  • Linda Blue

    Eu nunca consegui ir ao cemitério "ver" o meu pai....

  • Fernando Lopes

    Temos modos comuns de lidar com a ausência, não é ...

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