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Comida para pássaros.

por Fernando Lopes, 22 Nov 17

Periquitos_xl.jpg

 

Virou moda comer sementes, vai daí somos bombardeados com os benefícios de tudo quanto é semente ou baga. Linhaça, aveia, girassol, ou com nomes mais exóticos como quinoa e goji. Os supermercados têm agora secções saudáveis cheias de painço. Ora tipos como eu só comiam tremoços e amendoins para acompanhar a cerveja. Havia também o arroz, semente de tradição milenar na alimentação humana. Agora comem-se quaisquer tipo de sementes. Dizem os nutricionistas para não ingerimos sementes à toa pois estas têm contra-indicações como flatulência ou oclusão intestinal. Mulherada e hipsters, cuidado, não me apetece levar com o vosso flato. Recordo-me de num vegetariano ter comido almôndegas de lentilhas com a triste consequência de ter largado mais ventosidades que uma vaca argentina. Tá tudo muito bem, mas para este velho do Restelo que vos escreve, sementes ainda são comida para psitacídeos.

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Sonhos e desilusões.

por Fernando Lopes, 21 Nov 17

Será que somos o resultado da soma dos nossos sonhos subtraídos das nossas desilusões? Uma operação aritmética como balanço de vida parece-me muito redutor. Sendo um ser que raramente se contenta, recuso-me a fazer estas contas. Provavelmente aprendi mais com as desilusões, mas o que me faz caminhar em frente são os objectivos alcançados. Venci e perdi número suficiente de combates para saber que o que mais importa é a garra com que se luta, a convicção na justeza da nossa causa. Venho a descobrir que, muitas vezes, dar é mais importante que receber. Quando damos – um carinho, ajuda financeira, uma boa palavra, pouco importa – viaja para o universo um bocadinho de nós. Faço diariamente um esforço para ser honrado, justo, digno, generoso. Não em nome de uma qualquer recompensa monetária ou divina, mas por pensar que é assim que deve ser. Estar consciente desta obrigação de dar o melhor de mim é o que me faz correr. Com a certeza de que raramente serei a pessoa que ambiciono, continuarei a tentar.

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Um macho só.

por Fernando Lopes, 20 Nov 17

gata2.jpgBranca Maria e seu negro dono.


A Branca Maria apareceu na loja da minha mulher (publicidade descarada http://lyskin.com). Andava por lá desde Agosto, desaparecendo de quando em vez para, suponho, sessões de galderice. Sou um homem de cães, nunca tive um gato na minha vida, mas quando a minha mulher me apareceu toda chorosa que a Branca tinha desaparecido, achei por bem adopta-la, tornado-a uma gata séria. Somos agora o lar de acolhimento da Branca. Compramos uma sanita fechada que corresponde a um banho completo, ração da boa, brinquedos e escovas. Na primeira noite miou como uma desalmada. Entendi que queria farra, gatos, copos. Nada disso minha menina, enquanto estiveres cá por casa comportas-te como uma gata de família, as noites loucas acabaram. Parece que se habitou. Sou o único macho da casa, até o estafermo do gato é gata. Tudo bem, também existem vantagens, sou o menino cá do sítio.

 

É uma experiência radical, e se a bichana não tivesse nome chamava-lhe «Fantasma» pois esconde-se nos locais mais improváveis, entre as prateleiras e os livros, debaixo da secretária, entre a cama e o edredão, sei lá eu. Anda este vosso amigo em bicos de pés e a olhar duas vezes onde coloca o rabo para não esmagar o seu animal de estimação.

 

Gatos, eu? Jamé. Nunca digas nunca, seu parvalhão.

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Preços que fazem sorrir a estranja.

por Fernando Lopes, 3 Nov 17

Depois de almoço, quando ia tomar um café e fumar um cigarro, deparei com o Pedro numa lufa-lufa. Uma série de forasteiros de um hotel das proximidades tinham resolvido pedir cappuccino. Sabemos bem que a preparação da bebida demora o seu tempo e não se coaduna com a pressa de quem tem de servir dezenas de cafés em poucos minutos. Tinha tempo, fiquei a vê-lo fazer a espuma naquela meia-de-leite aperaltada. Quando perguntaram o preço o Pedro respondeu: três euros. O homem sorriu, fez o gesto de não com a mão, e esticou indicador e o médio a justificar que eram dois. Sim, sim, dois, três euros. O homem abriu um sorriso como quem diz: 1,5 euros por um cappuccino é pouco mais que de borla. Conversamos depois um bocadinho e contou-me que é frequente a dúvida em todos os produtos de cafetaria. Perguntam-me sempre duas vezes se o croissant custa mesmo 80 cêntimos. Para alguém vindo da Europa do norte, o custo da nossa restauração e cafetaria deve ser perto de ridículo. Bem dizia o bife num outro dia ao balcão do «Rádio» depois de ter pedido uma cerveja: One euro? Are you sure?

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Cedofeita street, adoro-te

por Fernando Lopes, 31 Out 17

grafitti.jpgNo canto inferior esquerdo «Cedofeita Street, adoro-te»

 

Um miúdo alto e muito magrinho resolveu alterar ciclicamente duas enorme paredes de Cedofeita. A da foto é a parede lateral de um prédio, o muro da antiga esquadra também tem um grafitti diferente a cada dois ou três meses. Para ele, que como eu, ama Cedofeita, o meu abraço.

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Tenaz de amor.

por Fernando Lopes, 25 Out 17

Um velho amigo, aquando da juventude, tinha um fetiche por raparigas do campo. Embora criado na cidade, podia chegar a uma zona rural andando 15 minutos de carro. A sua paixão por aquele tipo específico de raparigas tinha explicações absolutamente únicas. Não imaginas o que é fazer amor debaixo de uma árvore ou em cima de uma meda de feno, é algo muito mais natural, dizia. Obviamente todos gozávamos com ele e com a sua paixão por moças campestres e roliças, que nós dizíamos serem possuidoras de «coxa agrícola». Vocês não entendem nada, quando as penetras elas apertam-te entre as coxas. Nem te consegues mexer, é como se estivesses preso numa tenaz de amor. Hoje, não sei porquê, lembrei-me dele e da sua «tenaz de amor».

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juiz.png

 

«O adultério do homem é um gravíssimo atentado à honra e dignidade da mulher. Sociedades existem em que o homem adulto é alvo de castração até à morte. Na Bíblia podem ler que o homem adúltero deve ser punido com a morte.

 

Ainda não foi há muito tempo que a Lei Penal (Código Penal de 1886, artigo 372º ) punia com pena pouco mais que simbólica a mulher que, achando seu marido em adultério nesse acto o matasse.

 

Com estar referências pretende-se, apenas, acentuar que o adultério do homem é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são os homens honestos os primeiros a estigmatizar os adúlteros) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pela mulher traída, vexada e humilhada pelo marido.».

 

Basta trocar o género a que se refere este pedaço de merda a que chamam acórdão para se ver bem quão ridículo é. A legitimação da violência por um juiz devia na melhor das hipóteses, inibi-lo da profissão, na pior, leva-lo à cadeia por cumplicidade.

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Quando se passa de marido a parente.

por Fernando Lopes, 22 Out 17

A confissão foi de uma médica, casada há trinta e cinco anos: Sabes, não sei se como homem compreendes isso, mas quando se está casado há tantos anos como eu, já não se olha para o marido apenas como homem, passa já para a categoria de parente.

 

À época pareceu-me uma confissão de desistência, como se não houvesse lugar para amor, sexo, luxúria, quando se está casado há décadas, e tudo se resumisse a uma vida em comum, uma construção conjunta de dois companheiros. Hoje tenho a ideia que as mulheres são tão ou mais vorazes que os homens no que à variedade de parceiros concerne. É satisfação suficiente que a nossa companheira de décadas nos deseje sexualmente, não estou certo que o inverso seja verdade.

 

Se me parece mais ao menos consensual que uma relação se vai tornando mais de companheirismo e menos de desejo pelos terríveis mecanismos da idade, tenho para mim que se as prioridades femininas não fossem tão diferentes das nossas seríamos descartados a um ritmo de fazer Zsa Zsa Gabor parecer uma noviça.

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Da ausência de empatia ao paternalismo.

por Fernando Lopes, 19 Out 17

marcelo.png

 

Marcelo sabe interpretar como ninguém o sentimento do povo. Talvez não do povo todo, mas do taxista, da vendedeira do Bolhão, do homem do talho. Não é desprimor para estas classes profissionais, são apenas um exemplo de um certo sentir geral. Costa e Constança manifestaram uma frieza perante a tragédia só explicável porque os citadinos vêem o campo como algo de distante, que já lhes não pertence, uma realidade paralela. Não é de perdoar.



O governo foi inábil? Certamente. Teimoso? Acho que sim. O que povo e a CMTV querem é gente chorosa a lambuzar o presidente. Não omitindo a gravidade de cem mortes – cem, um número que assusta – preocupa-me igualmente que o presidente sinta a necessidade de fisicamente ir oferecer um ombro amigo a quem necessite de depositar a sua tragédia nas espaldas do mais alto magistrado da nação. A postura de Marcelo, ditada também pelos media, de Jesus Cristo enfatiotado, a dar longos abraços e beijinhos, encerra mais que empatia, paternalismo. Esteve tão mal quanto o governo pelas razões opostas.

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Follow the money.

por Fernando Lopes, 16 Out 17

Este é um ano dramático em termos de incêndios, não tanto pela área ardida mas pela perda de vidas humanas. Ao leigo que vos escreve saltam dois factores à vista: o ano excepcionalmente quente e seco que potencia estas ocorrências – em 54 anos de vida não me recordo de 34º em meados de Outubro –, e a sua gravidade. Aquecimento global, incúria, crime, falta de ordenamento florestal são tudo razões que terão o seu peso. O tempo quente e os ventos do furacão Ofélia terão feito o resto.

 

Mas nos anos recentes criou-se a indústria do fogo. Quem ganha com ela?

 

- Quem vende equipamentos com ela relacionados (carros de combate, materiais, equipamentos, etc). É preciso que haja fogo para que se comprem novos equipamentos e carros, para que existam materiais cada vez mais sofisticados e caros, uma indústria que se alimenta da tragédia. Sem fogos, vende-se menos, negoceia-se melhor, compram-se equipamentos sem ser sob pressão. Recordo-me de ver uma notícia recente em que o governo tinha compra 20 e tal pick-ups sofisticadas para o ataque a fogos na sua fase inicial. Não deve ter saído barato, mas ficou bem nos telejornais, deu ideia que se estava a fazer alguma coisa.

 

- A industria do meios aéreos de combate ao fogo (privatizada, tornou-se um filão apetecível que é tão mais rentável quantos fogos houver. Não estou a imaginar quem lucra com o fogo a rezar para que ele não aconteça.

 

- Para a construção e algumas autarquias é economicamente interessante a construção de heliportos e similares.

 

- Muitos PDMs serão eventualmente reavaliados pelo que fogos junto de vilas e cidades – como ontem em Braga, só para falar da maior cidade – parecem-me corresponder a interesses imobiliários.

 

Sou radicalmente contra a privatização de meios de combate a incêndios e, curiosa coincidência, desde que tal aconteceu têm aumentado os fogos de ano para ano. Além das condições naturais que propiciam os fogos, cada vez que há lume também há bolsos mais cheios. Pensem nisso.

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