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Até à ilusão.

por Fernando Lopes, 15 Mar 17

A propósito do post aqui debaixo, e de um outro, podemos reflectir no que somos, o que queremos ser, na capacidade de nos reinventarmos, da forma como resistimos às rotinas, como nos focamos no instinto mais básico de nós, a sobrevivência. Cada um, mesmo os mais frágeis, somos resistentes. Durante uns segundos pense-se em todas as voltas e reviravoltas que a vida, a nossa vida, deu. Quantas vezes estivemos perto do tragédia, da morte. De como sobrevivemos aos que nos antecederam, e às vezes. de modo particularmente cruel, aos que nos sucederam. Não te morreu um amigo? Um outro não ficou desempregado, passou dificuldades? Não soubeste daquele colega de escola que acabou agarrado à branca? Não traíste ou foste traído, não te desiludiste com uma paixão que julgavas para sempre? Sobrevive-se sempre a algo ou a alguém, daí que prefira ser «vivente» a «sobrevivente». Inevitavelmente seremos todos mais sobreviventes que viventes. É uma questão de tempo. O que seremos nós afinal? Correndo o risco de uma simplificação absoluta, e consequentemente pateta, posso sintetizar o que hoje sou da seguinte forma: Sou o que resta dos meus sonhos subtraídos das minhas desilusões. Se, como eu, nesta operação, o balanço dos sonhos resistir ao das desilusões, ainda vale a pena estar vivo, porque continuamos a ter a maior capacidade de todas: acreditar no outro. Até à ilusão.

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Não quero mudar-te.

por Fernando Lopes, 12 Mar 17

Estas três palavras seriam a maior declaração de amor que poderia alguma vez ouvir. Não creio que tal tenha acontecido. Aceito-te como és, depressivo, com alterações de humor súbitas, borderliner, preguiçoso, teimoso, desastrado no bricolage, incapaz de cozinhar algo mais que tostas mistas ou pizza, flatulento, irascível, obstinado, asneirento, maníaco. Não quero mudar-te porque em ti vejo algo maior que os teus defeitos: a tua honestidade, integridade, frontalidade, humor. Ouvi algo semelhante num filme, mas já se sabe que tão pungentes afirmações de amor só existem nos filmes. Provavelmente porque nos filmes não existe um cancro chamado dia-a-dia.

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Homens de Vénus e Mulheres de Marte.

por Fernando Lopes, 7 Mar 17

Nunca li «Os Homens são de Marte, As Mulheres de Vénus» de John Gray, e os livros que procuram tipificar, compartimentar, comportamentos humanos, não são algo que me interesse. Logo aí fujo ao estereotipo e coloco-me como macho de características venusianas. Marte, deus da guerra, Vénus ou a sua versão grega Afrodite, a deusa do amor. O título do livro transformou-me numa espécie de aforismo, como se as diferenças entre géneros não fossem ténues e casuísticas. Associam-se aos homens o belicismo, agressividade, uma tendência para a racionalização em detrimento do sentimento, para as mulheres o mundo é mais de emoções e menos de razão, mais de amor menos de guerra. Numa qualquer resenha, tipifica-se que os homens são mais reservados, as mulheres confessionais. Devo ser hermafrodita. Não nego ocasionalmente existiam em mim comportamentos agressivos, mas de uma forma geral considero mais meus o modo de ver e sentir associados às mulheres. Também conheço mulheres que terão padrões e atitudes predominantemente considerados masculinos sem que com isso percam um pingo de feminilidade. Vénus e Marte, Marte e Vénus, temos a cosmologia completamente baralhada. Felizmente.

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Como um boneca havaiana.

por Fernando Lopes, 2 Mar 17

boneca_havaiana_carro.jpg

 

Antes do advento do tunning, em que uns certos marmelos colocam luz negra debaixo do carro, aparelhagem de discoteca, bufadeiras que fazem tremendo cagaçal, jante 21” num carro que deveria ter 17”, cavalos extra para o motor partir mais depressa , etc. etc., o povo tinha uma personalização de viaturas bastante mais minimal. Lembrar-se-ão os mais velhos do rosário no retrovisor, o cão de peluche na parte de trás do veículo a abanar a cabeça, do separador da bagageira coberto de alcatifa de pêlo longo, da santinha, das bonecas sevilhana e havaiana. Eram tempos em que para se ser piroso não era preciso gastar uma fortuna, bastava colocar no coche umas almofadas de crochet feitas pela sra. lá da casa.

 

Como já sabem sou um tipo tremendamente preguiçoso, não ligo muito para roupa – basta ser preta – e detesto ir às compras. A minha mulher e filha iam a um centro comercial, numa das suas excursões em que se podem perder durante um dia inteiro.

 

- Terezinha, se não fosse maçada podias trazer-me uns boxers. Daqueles baratuchos, das lojas espanholas. Um pack de três, por favor.

- OK. Queres alguma cor especial? E que tamanho?

- Cor pode ser qualquer uma, tamanho XL.

 

Ora esqueci-me que emagreci doze quilos, e que XL podia ser excessivo. Um destes dias peguei nos meus boxers novos, acabadinhos de lavar e colocados na respectiva gaveta. Devem ser ligeiramente maiores que o habitual. Olhei ao espelho e parecia uma das bonecas havaianas que colocavam nos carros com excesso de pano por todo o lado. Dançava e a roupa íntima caía-me rabo abaixo. Desatei a rir da triste figura, um trengo é mesmo o que sou.

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Apenas um pouco só.

por Fernando Lopes, 1 Mar 17

Talvez por ter sido criado como se de filho único se tratasse, habituei-me a estar só. Não desgosto do facto, mais por circunstâncias que por personalidade, estar só, passou a ser o meu normal. Muitos acham-me extrovertido, bem disposto, alegre até. Talvez o seja porque em mim existe a necessidade de ser amado pelos outros, de ter quem goste de mim, quebrando assim esse ciclo de ensimesmamento. Depois encerro-me na gaiola dos meus pensamentos, desejos, sonhos. Vivo num mundo real de que me desligo sempre que posso. Para onde fujo? Para os livros, filmes, estórias, para as ruas desta cidade que me falam como se de gente se tratasse. Não sou solitário, estou apenas um pouco só.

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Luz.

por Fernando Lopes, 27 Fev 17

cao.JPG O meu amigo a pedir a benção. 

Saberá a freguesia mais regular e atenta que, de quando em vez, refugio-me na minha casa da aldeia. O meio tem as suas idiossincrasias, como o facto de o alcoolismo ainda ser considerado «normal», ou coexistirem cerimónias ancestrais como a desmancha do porco ao som de música pimba vinda de uma coluna bluetooth. De minha casa ao café do Cunha, o único restaurante e centro de convívio, serão mais de mil metros a subir e descer.

 

Tomo o pequeno-almoço e logo à saída de casa me convidam para uma febra e um copo de vinho. Abdico da febra e como um naco de broa e um copo de verde branco. Na terra, quando o vinho é para consumo próprio ninguém lhe junta sulfitos, o que faz com que o vinho branco em contacto com o ar rapidamente oxide, e ganhe uma cor escura. Dez minutos de conversa sobre as agruras da cidade, como fugir das patroas, figuras que inspiram temores profundos e parecem ter sido criadas para nos atazanar a cabeça. Nisso, a cidade e o campo são mais semelhantes que o que se pensa.

 

No percurso, travei-me de amizades com um cãozito arruivado e a dona. Viúva, sexagenária e sozinha, aproveita a oportunidade para por a conversa em dia. O raio do cão, ainda mais carente de mimos que eu, sente-me o cheiro a mais de duzentos metros e desata a ladrar com entusiasmo.

 

Não sei porquê, mas a escassa iluminação pública é desligada à meia-noite. Como vou ter a eternidade para ficar no escuro, ligo um trio de lâmpadas de baixo consumo que transformam a casa no único local iluminado num raio de quilómetros.

 

- Já sabia que estava cá, o sr. deixa sempre as luzes ligadas.

 

- São lâmpadas que gastam pouco, e como acordo a meio da noite para fumar um cigarrito, gosto de ter luz, justifico-me.

 

As nossas casas distarão quatrocentos metros em linha recta, e, por estranho que pareça, a sra. pareceu sentir-se reconfortada por ver alguma luz no escuro da noite. Coisas aparentemente sem valor como deixar luzes de presença acesas, pode de estranho modo, dar a alguém a sensação de que está menos só.

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Olhos & Olhares.

por Fernando Lopes, 14 Fev 17

Quando falam comigo sobre algo sério ou pessoal, tendo a concentrar-me no interlocutor e no que me é dito. A forma como o faço, é, aparentemente, incómoda para muitos. Quando mais concentração a coisa exige, mais fixo os olhos do outro. Já se calaram de repente, afastaram-se incomodados, perguntaram-me se estava a tentar hipnotizá-los. Não vejo desconforto nisso, não me importo que me olhem nos olhos, nem entendo muito bem o factor que causa tal reacção. Para não ser deselegante, habituei-me a vaguear com os olhos. Hoje, quando me contavam algo de pessoal, aconteceu de novo. Acharão que lhes consigo ver a alma?

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Passado resolvido.

por Fernando Lopes, 9 Fev 17

 

Quatro homens a falar de mulheres, eu mais a ouvir que a participar. Para maduros já todos há muito passados dos quarenta, há muito ressentimento no ar. Um porque a mulher o deixou, outro porque foi traído – embora o não diga todos o sabemos, outro ainda porque vive com a mulher que o quis, não a que ele queria. As gajas isto e aquilo, o azedume escorre, dor e frustração de par em par. Aquele não é certamente o meu filme, conservo memórias doces de todas as relações intensas que tive. Com uma namorei mais de um ano, outra nove, a minha mulher atura-me há quase vinte e quatro. Se tivesse de fazer um balanço, se isso fosse importante, só poderia dizer bem das «mulheres da minha vida». Amaram-me, amei-as o melhor que pude e fui capaz, fizeram de mim este tipo sem amarguras afectivas, quase tudo memórias arquivadas na pasta «ternura». Penso como deve ser triste, já entradote, conservar ressentimento, pensar que não gostavam verdadeiramente de nós, estar constantemente assaltado pelo medo e dúvida. Pode-se pensar que tive sorte, mas nisto dos amores, tens tanta sorte quanto és capaz de dar, no momento certo, à pessoa certa.

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Herança.

por Fernando Lopes, 8 Fev 17

 

– Talvez seja o nosso estado natural – disse Falcón. – Sermos originados por seres humanos complicados que não é possível conhecer. Somos sempre os portadores do não-resolvido, que depois acrescentamos com as nossas próprias questões irresolúveis, e que, por nosso turno, passamos à descendência.

 

Robert Wilson in «O Cego De Sevilha»

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Linguagem gestual? Nã, é só musical.ly.

por Fernando Lopes, 6 Fev 17

Quem tiver uma filha a esgadanhar a adolescência, provavelmente já se questionou se a miúda anda a aprender linguagem  língua gestual. Ah que bonito, a cria a respeitar a diferença, etc e tal. Nada disso. Aquela coisa que a tua filha e as amigas andam a fazer com as mãos, a cantarolar e fazer boquinhas, é, por assim dizer, uma espécie de «dobragem» com uma app chamada musical.ly. As crianças e pré-adolescentes usam-na para exibrir dotes coreográficos e de dobragem de voz. Se vires a tua filha a fazer momices como as aqui em cima, não dês demasiada importância, a criança não ficou maluca nem foi acometida por um sentimento solidário para com os surdos. É só musical.ly.

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