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106 anos e ainda fazemos festa.

por Fernando Lopes, 29 Jul 16

Hoje de manhã recebi uma mensagem do meu melhor amigo. Estava no Porto e queria que fossemos jantar e beber um caneco. Conheço-o desde a 1ª classe, já lá vão – é fazer as contas. Este meu amigo, também com 53 anos, parece uma boa meia-dúzia de anos mais novo. Partilhamos desde sempre vitórias, angústia, interrogações. É arquitecto, um tipo sensível, bem-disposto, com um dos sentidos de humor mais ácidos que conheço. Tem fama – talvez um bocadinho justificada – de playboy. É acima de tudo uma pessoa que ama a vida e que procura vivê-la com o máximo empenho possível. Gosto destes encontros porque seguem sempre a cartilha do improviso, tanto podemos acabar bêbados como cachos como numa conversa séria sobre livros, arte, religião, o que seja. De qualquer modo, colocamos mais de quarenta anos para trás das costas e voltamos a ser dois ganapos. Com ele, sou apenas eu, o Fernando, voltamos a ser os miúdos que jogavam à bola e se escondiam debaixo dos carros quando a professora saía da escola. Essa ingenuidade reencontrada é a melhor das terapias. Boys will be boys.  

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Meter os pés pelas mãos.

por Fernando Lopes, 2 Jul 16

É uma arte que domino com mestria. Padecendo de uma forma avançada de incontinência verbal, sentido de humor retorcido, cinismo rijo como carapaça, acontece-me com frequência. Ainda ontem fiz uma piadola que deixou o interlocutor ofendido quando não era esse o meu intento. Depois vou atrás, tentando pôr paninhos quentes, explicando que o meu objectivo era – só – uma graça que eventualmente poderia não ter piada nenhuma. Prima donnas ou serei eu uma besta? Analisando bem, um bocadinho de ambos.

 

 

Nota mental: trabalhar para ser politicamente correcto, menos desbocado e impulsivo. É como pedir a um burro que fale, mas pode ser tentado.

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A arte de não se levar a sério.

por Fernando Lopes, 27 Jun 16

Há um blogger que diz «Não Entendo As Mulheres», eu, quanto mais as entendo menos as percebo. Se, como fiz num comentário abaixo, refiro que as mulheres portuguesas são mais retraídas e conservadoras em relação a sexo, logo ficam zangadas. São no entanto as próprias as primeiras a sentirem-se desconfortáveis perante pessoas do sexo feminino com uma escolha de parceiros menos criteriosa. Não sou juiz, estou-me nas tintas para a forma como cada uma das senhoras gere a sua vida sexual. Não é segredo para ninguém que sou estranhamente feminino nesse aspecto, fodendo porque estou apaixonado, não fodendo para me apaixonar. Há milhares de tons de cinzento, cada um de nos transporta consigo a sua mundividência, nada do que escrevo tem importância. São observações, pensamentos falados alto com elevadas probabilidades de estarem errados.

 

Nestes anos muita coisa mudou, há uma atitude mais igualitária em tudo na nossa sociedade, comportamentos sexuais incluídos. Cada um(a) faz o que entende, com quem entende, como entende. Obviamente procuro atitudes, visões, sensibilidades iguais à minha, já dizia o Carlos Tê «não se ama alguém que não ouve a mesma canção».

 

Nada disto implica superioridade moral, nem minha nem de quem como eu pensa e age. Nada, mesmo nada do que aqui escrevo, deve ser tomado como exemplo do pensamento masculino, dada a atipicidade da minha atitude perante estas questões como pelo facto de o padrão ser não existirem padrões.

 

Sinceramente, «who gives a fuck about what Fernando thinks?» Por amor de deus não me levem a sério, que eu também não.

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Ouvir em vez de falar.

por Fernando Lopes, 31 Mai 16

Por razões que ultrapassam o meu entendimento sou amiúde alvo de confissões e desabafos. Recentemente várias pessoas me abriram a alma confessando os seus problemas financeiros, de trabalho, amorosos. É um tempo estranho, em que num momento colocamos a vida no facebook, no outro damos conta que estamos sós sem ninguém que nos oiça. A cultura das redes sociais, do consumo imediato, vem a par com o paradoxo que quanto mais exibimos, para mais pessoas, menos temos a quem mostrar a alma desnuda. Perguntamos se está tudo bem não esperando ouvir mais que a concordância. O outro enquanto ser individual, com alegrias e tristezas, interessa-nos pouco, todos transformados numa espécie de palhaço colectivo que sorri por obrigação, quando o mais que sente é desespero e tristeza. Nada mais tenho que um par de orelhas e coração razoavelmente generoso, a par da percepção que mais importante que falar é ouvir. Por estas e muitas outras razões, eis-me ao vosso dispôr.

 

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Como homem não me recomendo a ninguém.

por Fernando Lopes, 20 Mai 16

Estava a ouvir os meus colegas no fumatório. São rapazes com imensos talentos: sabem cozinhar, ajudam na lida da casa, têm jeito para bricolage, fazem a vontade às mulheres. Rapei o cabelo com um pente 4 e ouvi um a dizer: é mais prático, mas não o faço porque a minha mulher gosta de me ver de cabelo mais comprido. Quero lá eu saber se ela gosta ou não.

 

Quase nunca acedi às vontades da minha cara-metade. Gostava que fosse contido, sou expansivo; queria que bebesse moderadamente, de quando em vez apanho pifos de paralisar os neurónios; ansiava porque não dissesse asneiras, sou capaz de me bater mano-a-mano com uma peixeira do Bolhão.

 

Quando me conheceu já era assim, não mudei um milímetro. Analisando friamente sou um cavalo desgovernado que só faz o que lhe dá na real gana. Um dia destes tenho as malinhas à porta. Merecidamente.

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Sexo ocasional.

por Fernando Lopes, 2 Abr 16

Conversava com um amigo sobre sexo como negócio. Para a minha geração era vulgar a iniciação sexual com prostitutas. Nunca por nunca o fiz, nunca o farei. Afectos, desejos, não são passíveis de permuta por notas. Serei um bocado gaja nesse aspecto, mas não consigo dissociar sexo de intimidade. As pouquíssimas parceiras que tive, conheci-as bem, gostava delas, tínhamos pontos de vista e interesses comuns. Nunca vi numa mulher um ejeculatório, nunca serei capaz de ver o sexo como fruição animal e mecânica. Respeito quem assim pensa, simplesmente não é o meu modo. O meu sexo tem de ser povoado de carícias, beijos, cumplicidades, senão é uma inexistência.

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Quando o homem deixa de ver no espelho o rapaz.

por Fernando Lopes, 20 Dez 15

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Envelhecer é um processo doloroso, independentemente do sexo. Não creio que o mito perpetuado que o envelhecimento é mais penoso para as mulheres que para os homens seja verdadeiro. Rapazes serão rapazes, mantemos um lado infantil toda a nossa vida, um modo de auto-preservação tão masculino que ouvimos septuagenários comentar: «Faleceu um rapaz da nossa idade».

 

Subitamente, levou este rapaz uma chapada de realidade. Já não é o jovem que via ao espelho. Um processo doloroso mas inevitável, um atropelamento por um comboio que julgávamos estar ainda distante.

 

Todos ouvimos o ditado «galinha velha faz boa canja», nunca ninguém disse «galo velho dá uma cabidela de truz».  

 

Requer tempo, maturidade, e um enorme rombo numa auto-estima já de si frágil, que demorará a calafetar. Mantive estes dias de silêncio porque o rapaz deixou de ser prevalente. Não sei se isso vai afectar o blogue, certo é que para um tagarela é difícil manter-se calado.

 

Uma das narrativas mais dolorosamente sinceras que li sobre a vida e este estádio pré-comatoso que atravesso foi descrita por John Williams no fantástico «Stoner». Como o personagem que dá nome ao livro, mantenho intacta a capacidade de me apaixonar por um momento, uma paisagem, um livro, uma pessoa. Estou vivo, vou andar por aqui, tentar esquecer a cabeleira grisalha e a dezena de quilos a mais, e manter as únicas qualidades que tem o homem por detrás deste blogue: integridade de carácter e absoluta sinceridade.

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Romântico pragmático.

por Fernando Lopes, 19 Nov 15

Desde tempos imemoriais que faço de conselheiro sentimental. Nunca entendi o porquê, eu, com um curto historial de paixões, intensas e duradouras é certo, mas sem nada que mereça um átomo de interesse alheio.

 

Talvez uma das razões se prenda com o facto de amiúde me relacionar com gente mais nova. Nunca fui paternalista, talvez isso tranquilize os meus jovens amigos. Amo amar, mas também com desprendimento sou capaz de deixar que o outro voe livre, sem amarras ou convenções.

A felicidade escreve-se sempre a quatro mãos, só precisamos encontrar as duas que nos faltam para escrever a mais bela e simples forma de poesia, o amor.

 

Contava-me esse meu amigo, que por erros seus e má fortuna, se encontra afastado da mulher que ama. Tem ela outra relação que me parece tão sólida como ovo à beira do abismo. Manifestava alguma preocupação, até ligeira obsessão com o que seria o seu futuro e o da por ora inalcançável amada. Brindei-o com filosofia de algibeira que ouvi num filme: «Nunca corras atrás de mulheres ou autocarros, de uma maneira ou outra acabas sempre por ficar para trás».

 

É uma verdade crua, mas quase incontestável. A insistência não é coisa que as mulheres apreciem, têm o seu tempo e os seus mecanismos de decisão próprios, algo que nunca entenderemos. Têm também o sumo poder de dizer sim ou não, e com isso transformar a nossa existência em paraíso ou inferno. Dado esse – e outros – mistérios, é sempre melhor deixar a mulher ser o motor de arranque de uma relação. Disse.

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Acção social em movimento.

por Fernando Lopes, 16 Nov 15

Sábado, final de tarde. Saio para levar a sogra a casa. No cruzamento entre a Avenida de França e a Constituição está o mimo-pintor. Dou-lhe uns trocos e um cigarro, pergunto como vai a vida.

 

- Tenho uma encomenda para um quadro de um bebé, responde com indisfarçada alegria.

 

A sogrinha não comenta mas estranha tanto à-vontade com um homem a pedir num semáforo.

Hoje ao sair do trabalho, tenho o à espera o que me costuma pedir dinheiro para uns canecos.

 

- Estava à sua espera, dótor - Não cheguei a acabar a faculdade, mas um tipo de fato é sempre um dr.  – É para tabaco, só me faltam oitenta cêntimos. Como sempre, dei.

 

É isto que sou, uma espécie de acção social em movimento que já ganhou direito a clientes regulares. Bem me a diz filha que tenho a mania de falar com toda a gente.

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Devo ter um ar muito próspero…

por Fernando Lopes, 14 Nov 15

Adormeci tarde a ver as notícias sobre os atentados em Paris. Um encruzilhada sem solução à vista em que todos perdemos. Vem-me à cabeça as palavras de Gandhi «olho por olho e todos ficaremos cegos». Dilemas demasiado grandes para tão pequeno homem, resolvo sair.

 

Passo numa pequena sapataria de bairro e resolvo entrar. Como muitos homens, tendo pouca preocupação pela aparência, gosto apenas de estar lavado e apresentável. Uso fato e gravata por obrigação profissional, e tendo a negligenciar a compra da «farda». Como tenho imensos sapatos, todos eles já um bocado gastos, é tempo de renovar calçado.

 

Escolho um modelo clássico de preço médio, bolsa e local não são dados a grandes luxos. Olho, escolho, experimento, e passados dois minutos a compra está concretizada e paga.

 

- Se todos os clientes fossem assim a sra. tinha a vida facilitada, comento à laia de brincadeira.

 

- Provavelmente o sr. comprou só por comprar.

 

- Não sou dado a consumismos, só compro porque preciso. Todos os meus sapatos de trabalho estão a ficar velhotes.

 

Saio e fico a pensar. Um tipo normal, de calças de ganga, polo de rugby e botas de montanha não é propriamente um símbolo de prosperidade. O que visto é de boa qualidade, mas não padeço da doença do logo, não há cavalinhos de polo, galgos, crocodilos, Gant ou CH a exibir falsa prosperidade. Porque será que com alguma frequência me atribuem jeitos de burguês que não tenho?

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