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Passado resolvido.

por Fernando Lopes, 9 Fev 17

 

Quatro homens a falar de mulheres, eu mais a ouvir que a participar. Para maduros já todos há muito passados dos quarenta, há muito ressentimento no ar. Um porque a mulher o deixou, outro porque foi traído – embora o não diga todos o sabemos, outro ainda porque vive com a mulher que o quis, não a que ele queria. As gajas isto e aquilo, o azedume escorre, dor e frustração de par em par. Aquele não é certamente o meu filme, conservo memórias doces de todas as relações intensas que tive. Com uma namorei mais de um ano, outra nove, a minha mulher atura-me há quase vinte e quatro. Se tivesse de fazer um balanço, se isso fosse importante, só poderia dizer bem das «mulheres da minha vida». Amaram-me, amei-as o melhor que pude e fui capaz, fizeram de mim este tipo sem amarguras afectivas, quase tudo memórias arquivadas na pasta «ternura». Penso como deve ser triste, já entradote, conservar ressentimento, pensar que não gostavam verdadeiramente de nós, estar constantemente assaltado pelo medo e dúvida. Pode-se pensar que tive sorte, mas nisto dos amores, tens tanta sorte quanto és capaz de dar, no momento certo, à pessoa certa.

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Ainda o fogo.

por Fernando Lopes, 21 Jan 17

Talvez os meus melhor anos tenham passado, contudo, não os quero de volta. Nada é como dantes, e, no entanto, algo em mim permanece intocado, rude, selvagem, como se de um rapazinho se tratasse. De uma maneira só minha, nunca envelheci. Sou capaz de chorar como um bebé, dançar como um louco, rir como um parvo, apaixonar-me como um adolescente. Deve ser a isso que chamam «estar vivo».

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Uma puta como as outras.

por Fernando Lopes, 28 Dez 16

musico_cedofeita.jpg O homem, a guitarra, a liberdade. Ainda e sempre em Cedofeita.

 

Sais de casa no eu primeiro dia de férias de ano novo. No cruzamento de Oliveira Monteiro com Nossa Senhora de Fátima, na esplanada da velha confeitaria, um homem toca clarinete para ninguém, só pelo prazer de tocar. Em Cedofeita páras para conversar com outro músico de rua já teu velho conhecido. Na rua da Fábrica um asiático tira sons melodiosos de uma espécie de xilofone. Invejas-lhes a liberdade. Depois reflectes e vês como te tornaste prisioneiro do teu modo de vida: salário confortável, apartamento em zona nobre da cidade, casa de campo, férias em destinos «exóticos», popó de quase 200 cavalos. Não escolheste este ou outro caminho, o destino simplesmente empurrou-te. És uma puta, uma puta como as outras, talvez mais venal. Essas só transaccionam o corpo, tu, meu merdas, vendes diariamente a tua liberdade. Consolas-te com o fraco pensamento que a tua cabeça é inexpugnável, nela reside o teu espaço último de independência.

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Formigueiro.

por Fernando Lopes, 17 Out 16

Há uma espécie de morte em vida no facto de se cumprirem sempre as mesmas obrigações, tarefas, percursos. A monotonia mata-me a vontade. Seguem-se dias iguais, uns atrás dos outros, sem que neles descubra encantamento. Tudo me parece mover-se sem sentido aparente, como quando fazemos parte de um imenso formigueiro e seguimos as outras. Obreiras apenas, fazendo tão-somente aquilo que esperam de nós.

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Os homens não se querem bonitos.

por Fernando Lopes, 13 Set 16

Se perguntados, a maioria dos homens dirão que não se importam de não ser bonitos. Não é que não nos importemos, habituamo-nos a conviver com a escassa beleza que nos calhou em sorte, mas no fundo, no fundo, todos gostaríamos de ser um Brad Pitt. Uma carinha laroca é meio caminho andado para o sucesso no amor, até mesmo profissional. Somos levados a cultivar outras características que se tornem interessantes para as mulheres: humor, inteligência, cultura, cavalheirismo. Charme, carisma, são coisas que se podem tentar aprender, mas que essencialmente, ou temos ou não. Hoje de manhã olhei para o espelho e disse para comigo: estás melhor que a grande maioria dos da tua idade. Não sei porquê, senti-me reconfortado. Esta necessidade de ser fisicamente apelativo esmorece com o tempo, mas não desaparece nunca, queremos sempre estar no nosso melhor, pelo menos no melhor possível. Achei que o sacrifício que tenho feito estes meses com a dieta me rejuvenesceram um pouco. Ou como disse a minha Directora-Geral, uma senhora muita queque: está dez anos mais novo! É bom estarmos mais ao menos bem na nossa pele, recuperar lentamente o amor-próprio.

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E agora, algo completamente diferente.

por Fernando Lopes, 7 Set 16

Em Fevereiro pesava 82,4 quilos. A última dava 73,6. Não foi fácil, há meses que como o mínimo de hidratos de carbono que me é possível, trinco tantos verdes quanto uma vaca açoriana. Tudo isto sem medicamentos, apenas cortando à boca e caminhando o mais que posso. Nos últimos tempos não tenho conseguido manter a progressiva descida de peso. Passeio-me entre os 74 e 73, sem nunca ter conseguido, nem sequer por um dia, ter baixado para os 72 ou menos. 

 

Um problema adicional é que sinto que perdi alguma força de braços. Dado o meu passado desportista, apesar do peso elevado sempre tive imensa força de braços. Badocha, conseguia fazer vinte flexões sem esforço de maior. Hoje para fazer quinze é o cabo dos trabalhos. Dizem-me que além do peso perdi massa muscular. Deve ser verdade. A solução é ir para um ginásio e tentar recuperar a força perdida. Tenho um aqui ao pé de casa, vou fazer uma consulta, pedir que me tracem um plano de treino. Dada a idade e o facto de não querer deixar de fumar, estou seguro que não vai ser fácil, mas tentar não custa. Não quero um six pack nem aparecer na capa da Men´s Health, apenas voltar a ganhar a força muscular para voltar a fazer trinta ou quarenta flexões sem largar flatulência de esforço e ficar vermelho como um pimento.

 

A ver vamos, como diria o cego.

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Amor-próprio.

por Fernando Lopes, 2 Ago 16

Não sendo um prodígio de auto-estima, fazem-me confusão os homens que por um rabo-de-saia deixam de ser quem são. Vejo-os por aí, a seguir a fêmea desejada com se de um rafeiro se tratasse, sem personalidade, vergando-se a caprichos, sendo joguete nas mãos de quem assim o quiser. Se há coisa que não fiz, por muito apaixonado que estivesse, foi deixar de ser quem sou, manter um lampejo de racionalidade nos afectos. Não me vergo aos desejos de uma qualquer ninfa mesmo que tenha grande vontade de o fazer. Manter-me no meu lugar, ter personalidade, carácter, o meu modo de fazer as coisas, é algo de que não abdico. Dir-me-ão que nunca estive verdadeiramente apaixonado. Ao ponto de perder a identidade, de facto, nunca. As pouquíssimas mulheres que me amaram verdadeiramente nunca pediram que me transformasse em algo que não sou, nunca quiseram ter um «escravo do amor», antes um homem inteiro, íntegro, pleno de altos e baixos, seguro das suas inseguranças, mas mantendo sempre, sempre, a cabeça erguida. Sei que o que escrevo é polémico, passível de críticas, que me dirão que nunca vivi a loucura do amor. Se existem pessoas que deixam de ser quem são pelo facto de estarem num momento de grande envolvência amorosa, não eu. Assim sempre fui e assim vou permanecer.

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Coisas que nos sobrevivem.

por Fernando Lopes, 27 Jul 16

Uma simples garrafa de água de plástico pode resistir durante cinco séculos aos elementos. Pode parecer estranho, mas existem objectos, plantas, que me fazem sentir profundamente desconfortável. Em casa do pai dividiam-se as casas de banho entre homens e mulheres. Uma para cada género. Sendo a família de três machos e uma fêmea, entendeu-se – e bem – preservar o feminino. Mais por hábito que por racionalidade, quando vou a casa da mãe uso sempre a «casa de banho dos homens». Procurava creme para as mãos quando me deparo com o pente do pai. Um pente normal, nada sofisticado, daqueles de osso que quase vinte anos passados ali permanece, coisa inútil e cínica a lembrar a efemeridade humana. Irritou-me tanto que quase chorei. Hoje, já noite dentro, lembro-me da orquídea que a tia Manela ofereceu. Um presente para a Teresa quando a Matilde nasceu, uma flor num vaso de terra. Está dentro de casa, num local quase sempre banhado por luz e sol. Fui pôr-lhe água, coisa que faço meia-dúzia de vezes por ano. Depois reflecti. Onze anos. A tia morreu, a flor negligenciada persiste em sobreviver. Não sei se desespero pela perecibilidade humana, se me espanto por uma flor e um pente nos poderem resistir, escarnecedores.

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Fast Car. (*)

por Fernando Lopes, 10 Jul 16

Gosto de conduzir, de sentir a força do motor debaixo do meu pé direito. Sendo um familiar, o meu carro tem 185 cavalos, mais que suficiente para me fazer andar acima dos 200 km/h sempre que me apetece e é possível. Nessas minhas cavalgadas tive a sorte de nunca levar com uma multa por excesso de velocidade. Pode aparecer estranho, mas há um momento de concentração em que estás só tu, o carro e a estrada. Tornámo-nos peça única, apenas com um objectivo: andar depressa.

 

Andar depressa como se assim conseguisse deixar para trás todos os problemas, angústias, inquietudes.

 

(*) - https://youtu.be/uTIB10eQnA0

 

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Erro não forçado.

por Fernando Lopes, 16 Jun 16

No ténis, o erro não forçado é aquele apenas pode ser atribuído ao mau julgamento do jogador. Se estás junto a um precipício, te aproximas demasiado da berma e escorregas, cais ao mar sem saber nadar, pões o braço fora do barco num rio pejado de piranhas, pisas um cocó de cão no passeio, te apaixonas por alguém que não te quer, isso é um erro não forçado. É comum dizer-se que aprendes mais com erros que com os sucessos. Não estou tão certo disso. Sei que os erros são necessários, uma espécie de confrontação com a incapacidade em fazeres tudo bem. A vitória estimula-te, o erro crava-se-te na pele como algo que não desejas repetir. E, no entanto, tal é inevitável. Cais, levantas-te, tornas a cair. A beleza não está em não cair, mas na dignidade com que te levantas depois de queda aparatosa.

 

 

(*) De uma ideia surgida numa conversa com o Filipe

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  • Fernando Lopes

    Esta não é totalmente surda, ouve muito mal mas re...

  • alexandra g.

    Uma bela albina, poderia ser gémea da gata da minh...

  • Fernando Lopes

    Tu és de pouco alimento, a despesa suporta-se bem....

  • Anónimo

    Com a poupança que tens tido nos almoços comigo e ...