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Tipo de família.

por Fernando Lopes, 11 Nov 14

Encontramo-nos no bar do costume, pouca luz, copos vários, conversas livres, onde o fumo sobe azul e livre como num feitiço de xamã. O primeiro que te vi foram os cabelos, longos, loiros, lisos, enquanto cumprimentavas o Manel sentado a meu lado.

 

O acaso colocou-nos frente a frente. Olhos azuis translúcidos como pedras preciosas, sorriso franco, pele clara sem ser branca, dentes pequeninos e certinhos, um batom rosa a dar-te um ar delicado e infantil. E falámos. Falámos dos teus projectos de escultura orgânica, dos lugares que visitamos e gostávamos de conhecer, do Stonehenge, de bares e música, relações falhadas, tudo de forma quase pueril.

 

Estávamos só nós, o resto tinha deixado de existir, sequer de fazer sentido.

 

Colocaste a tua mão, os dedos longos e finos sobre os meus e disseste:

 

- Gosto de ti.

 

Não foi um gosto de ti qualquer, havia nele promessas futuras.

 

Expliquei que o teu interesse, carinho, me deixou, como deixaria qualquer outro homem, nas nuvens. Mais que tudo sentia-me lisonjeado pelo interesse de uma mulher tão jovem, tão bonita, que via o rapaz escondido atrás dos cabelos brancos.

 

- Sabes, podia apaixonar-me por ti com facilidade, pela tua frescura, frontalidade. Talvez o devesse fazer. Mas sou um tipo de família, ladro muito mais que o que mordo e não seria justo para ti, para mim e para os outros.

 

Beijei-a na testa, um beijo longo, que não era paternal, antes ternura em estado puro e saí para a rua.

 

As andorinhas estavam a terminar o seu festim de fim de tarde, sabia que era tempo de voltar a casa.

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4 comentários

De Ana A. a 11.11.2014 às 16:36

Aqui está um ser equilibrado, racional, que sabe o que quer...
Ficção ou não, esta atitude na vida evita muitos dissabores, pois se olharmos em volta não falta gente bonita, por dentro e por fora, com quem poderíamos ser felizes.

De Fernando Lopes a 11.11.2014 às 18:57

Ocorreu-se-me isto hoje às 03:00 da manhã, numa insónia. Prefiro chamar-lhes «estórias», a ficção é coisa séria. :)

De .. a 16.11.2014 às 02:44

Simplesmente... Fantástico! Deixa-me sem palavras, repleta de tudo e mais alguma coisa. Quantas vezes se diz "podia, ser... Até podia apaixonar-me por ti e..." Ou mesmo já um bocado "apanhados" se tem esse carácter necessário de seguir! Ser fiel a quem somos e aos outros com quem estamos. Isso é o que divide uns dos outros,. sem que nenhuns percam o seu valor, cada um age e decide a seu modo, mas esta posição "disciplinada" sobre o que é bom! Deve ser e nos interessa. Nos deixa em paz sobre todas as "coisas" que poderiam ser.... Sei, lá! Não tenho palavras para explicar. No fundo há tanta gente bonita, interessante, cativante que num momento nos faz por tudo em causa e "abanar" nas estruturas, sem no entanto se deixar se ser quem somos! E se fossemos a "ceder" sempre que essa situação ocorre. Acho que falei, falei e não expliquei bem o que quero dizer! Resumidamente foi esse "...sou um tipo de família, ladro muito mais que o que mordo e não seria justo para ti, para mim e para os outros." Fantástico. Admirável. Que bom seria se existissem mais pessoas assim! Evitar-se-ia tanta confusão. Sofrimento. Desilusão. Mágoa! Desculpe ser tão extensa a comentar. Um excelente domingo e depois virei ler mais amanhã ou depois. Tudo de bom!!!

De Fernando Lopes a 16.11.2014 às 13:52

Agradeço os elogios, são estimulantes, mas não passa de uma das minhas «historietas».


Abraço.

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