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Quando se perdeu tudo, até o amor-próprio.

por Fernando Lopes, 24 Fev 18

Cada vez que passeio pela cidade continuo a cruzar-me os despojos dos que nada têm. Colchões e cobertores arrumados debaixo de uma qualquer entrada à espera que chegue o frio, e que debaixo dos andrajos alguém encontre algum calor e conforto. Na rotunda da Boavista um desses homens impressiona. Prostra-se como se de um muçulmano virado para Meca se tratasse. Esconde a cara entre os braços e coloca as mãos velhas e sujas por cima da cabeça, gemendo e implorando esmola. O receptáculo das moedas é um copo de Pepsi, ironia das ironias, a humilhação de um ser humano encimada por um copo de uma multinacional. Teatralização à parte, um homem assim, prostrado, gemendo e escondendo a face já perdeu tudo, até o amor-próprio. Situações assim deixam-me triste e envergonhado por pertencer a uma sociedade que tal permite.

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Suspiro.

por Fernando Lopes, 26 Abr 17

Passeava pela cidade, bem no centro onde me perguntaram pela «livraria do Harry Poter», e juro que a ouvi suspirar. Não sei se o suspiro que a cidade exalou era de cansaço ou enfado. Ela, como os seus habitantes, ocasionalmente, cansam-se da falta de privacidade, dos pequenos locais que eram nossos e agora estão sempre cheios. Não é que não gostemos de receber, adoramos, mas cansa-nos estar sempre sorridentes, amáveis, prestativos, até ao turista 1.000.000. Como um casal, queríamos um bocadinho de intimidade. Só nós e as nossas pequenas manias. A esplanada da escada dos Guindais sem estar cheia, sem gente de mapa ou Google Maps em punho. Gostávamos de petiscar no «Museu da Avó» tranquilamente, sem grandes filas de franceses. Questionei porquê franceses, porquê ali, disseram-me que era aconselhado por um qualquer «guide touristique». A cidade, como qualquer organismo vivo, também precisa de descanso. Palavra de honra que a ouvi suspirar. Suspirei com ela.

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Patchwork ou dignidade na simplicidade.

por Fernando Lopes, 25 Mar 17

Sempre que possível, desço da Boavista ao meu útero urbano, Cedofeita. Álvares Cabral abaixo – onde vivi os trinta primeiros anos da minha vida – observo do outro lado da rua uma idosa e o seu cão. Sempre me enterneceram estas duplas velho-cão. O binómio – com sói dizer-se na cinotecnia – tem uma dinâmica própria. Ou os cães são, também eles, velhinhos, ou adoptam uma postura cuidadosa com os gerontes, não puxando, fazendo suas dores e maleitas do dono. Existirão poucos fenómenos mais empáticos que um cão e o seu dono velhinho. O que sobe castanho com pêlos brancos, acompanha a dona com enlevo. É colorido. Traz um casaquinho de cão, que mais não é que um conjunto de pegas de tacho, daquelas que as nossas avós tricotavam, unidas num trabalho de patchwork. Não há dinheiro para comprar roupa de cão, tricote-se. Há dignidade e carinho na indumentária colorida do bicho.

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Desodorizante, não.

por Fernando Lopes, 8 Nov 16

Hora de almoço. Sobem nas escadas rolantes mesmo à minha frente dois indivíduos para quem o banho deve ser um luxo. O que fala tem o blazer particularmente sebento, o que lhe dá um lindo ar lustroso, parecendo quase desses fatos da moda, cinzentos e brilhantes, em que um tipo neles enfiado parece uma sardinha ou pescada consoante o tamanho do utilizador. Nos ombros do que fala há caspa suficiente para conseguir o efeito neve numa árvore de natal. Eu, que devido ao tabaco nem tenho o olfacto apurado, noto que os senhores exalam um desagradável cheiro a cebola. Nisto um deles vira-se e diz:

 

- Não pá, desodorizante não, que provoca cancro.

 

Está tudo explicado, há que manter a luta pela saúde.

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Sr. Marques, um cabinda.

por Fernando Lopes, 3 Jul 16

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O Sr. Marques não é português, apesar de aqui ter vivido a maior parte da sua vida. Menos ainda angolano, é um cabinda. Diz com indisfarçável orgulho que existem um rio e uma terra a separá-lo de Angola, a história do enclave e da feitoria, o facto de Cabinda estar entalada entre dois Congos e o mar.

 

Conta com brilho nos olhos as traquinices da mocidade em que partia de Cabinda para o Congo a vender feijão, e de como o apuro era logo ali gasto em farra, discotecas e copos. Fala da beleza da floresta do Maiombe como se lá estivesse.

 

De como foi tratado pelo Serviço Nacional de Saúde a um problema grave:

 

- Os meus compatriotas dizem mal dos tugas, eu só posso dizer bem, fui tratado como um príncipe.  

 

Da sua alegria em ver a cidade cheia de turistas, como gosta dos rostos surpresos a descobrir o que se lhe tornou familiar, da angústia em não falar inglês e consequentemente não conseguir transmitir o seu encantamento.

 

A cidade está cheia destas personagens plenas de afectos e «estórias», assim soubermos ouvi-las, e na modéstia das nossas limitações, partilhá-las.

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Todos pelo nome.

por Fernando Lopes, 29 Jun 16

D. Vera, Sr. Lopes, os meus colegas, Andreia, Márcio, Sr. David, Thaís, Pedro, Liliana, Guiomar, novamente Sr. Lopes, Marta. Estas são as pessoas com quem me relaciono todos os dias de trabalho. São empregados de café, donos de tabacaria, restaurante, outro café, novamente tabacaria – sou um tipo estranho, compro um maço de cigarros de manhã e outro ao fim da tarde para não gastar 8,20 euros de uma só vez. Conheço-os a todos pelo nome. Uma das mais novinhas, Thaís, está grávida. Vai ser um menino. Fiquei feliz.

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Mais triste que vivê-la.

por Fernando Lopes, 19 Jun 16

Às vezes, nos meus passeios pelas ruas da infância, encontro velho conhecidos. A C. é uma delas. Trabalhava numa pizzaria afamada da cidade. Sempre com o ar melancólico e discreto que a acompanha desde a juventude, quando éramos colegas de liceu. Tinha-a visto pela última vez no inverno passado. Tomava conta da mãe, um AVC que a deixou paralisada. Nunca casou, nem sequer lhe conheci namorados. Quando a vi e perguntei pela mãe desatou a chorar. Desempregada, o tempo a fugir, tomando conta de uma entrevada, sem amor regular. A mãe vinga-se do mundo, da sorte, maltratando quem dela cuida. Disse-lhe que era normal que expurgasse a raiva para que lhe estava mais próximo. Palavras sem sentido, conforto que não vale.  Perguntei se a podia abraçar, dei-lhe um beijo na testa. Quando nos separamos, uma pequena lágrima teimosa escorreu-me pela face. Há vidas tão tristes, que mais triste que vivê-las é contá-las.

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Cordeiro em pele de lobo.

por Fernando Lopes, 7 Mar 16

Ali para os lados de Gonçalo Sampaio, entre o BCP e a AXA existe uma má rês, odiado e temido por todos, de moradores a comerciantes, passando pelos trabalhadores – devia dizer colaboradores – da zona. Muito alto, extremamente magro, dizem que rouba, vandaliza carros, que esteve preso. Não duvido que seja tudo verdade, o homem tem consigo aquele brilho do diabo, nunca se sabe bem o que dali pode surgir. Chama-se Fernando como eu e se a sorte me tivesse sido puta podia ser eu. Numa charla dei com ele a tentar vigarizar-me com o pedido habitual para comida. - Não me foda, detesto mentira. É para o álcool, não lhe minto. Com mais de 1,90, vinte centímetros acima de mim, é um cordeiro disfarçado de lobo. Temos respeito mútuo. Trata-me por senhor Lopes, trato-o sempre por você. Não há nada mais triste que os que senhores de alguma mediania financeira desatam a tratar por tu os que lhe estão abaixo na cadeia alimentar. Hoje, enquanto me cravava mais 50 cêntimos para um copito, vi as coleguinhas com os seus vestidinhos Zara e carteiras Louis Vuitton de fancaria a olharem para mim com ar horrorizado, como se o sol que banha aquele pobre diabo fosse diferente do que me alumia a ti e a mim. Gosto mais de marginais que de bancários, pelo menos sempre se sabe com o que se conta.

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Momentos filiais.

por Fernando Lopes, 23 Fev 16

Passar dos cinquenta tem os seus aspectos divertidos. Raparigas jovens, entre os vinte e trinta e cinco passam a vida a dar-me conselhos. Olhando e vendo uma figura paternal e bem-disposta abrem o livro da boa palavra e conduzem-me caminho mais seguro. É vulgar, do café ao restaurante, recomendarem algo que «não faz mal», que «devia ter cuidado» com isto ou aquilo. Sorrio, agradeço o conselho. Nenhuma é tão divertida quanto a da tabacaria. Quando não estão mais clientes no estabelecimento adverte-me sempre para a urgência de deixar de fumar. Alertei-a para o paradoxo. É idêntico a um talhante que recomende redução do consumo de carne, um dealer que me alerte que a droga faz mal, uma prostitua que diga que a abstinência fará maravilhas pela minha saúde.

 

- Compreendo-a, mas pense que quanto mais cigarros vender melhor será para si.

- Não digo isto a todos os clientes, e o facto de vender tabaco não me inibe de discordar com a comercialização.

 

Toma lá, que é para aprenderes. 

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Wish you were here.

por Fernando Lopes, 2 Fev 16

Nos meus passeios por Cedofeita, páro na esplanada em frente à Rua do Mirante. Anda por ali um cantor vadio, senta-se no chão, coloca uma caixa de sapatos à sua frente e toca. Com uma voz rouca, abraça-se à velha guitarra como se fosse uma bela mulher, e toca. Nirvana, Pink Floyd, está naquele enamoramento como se só existissem ele, a guitarra e a música. Gosto de o ouvir na esplanada, ao longe. Depois passo, dou-lhe uma moeda, um toque amistoso no ombro, um polegar para cima. Andei todo o dia a cantarolar o «Wish You Were Here».

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  • Fernando Lopes

    Henedina, antes de mais as minhas desculpas pelo t...

  • Henedina

    E não é lisonja

  • Henedina

    Olá Fernando, passei por aqui para lhe desejar um ...

  • Fernando Lopes

    Obrigado, as amizades são assim mesmo, acham graça...