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Para ti, avó.

por Fernando Lopes, 21 Dez 15

Não sou, não vou, não posso, não quero, ser hipócrita. As pessoas têm graus de importância na minha vida. Amor total e absolutamente incondicional senti-o duas ou três vezes. Fazes-me falta sempre, mais ainda no Natal, porque tu eras o Natal, particular, só meu, que me acontecia todos os dias. Mais uma vez – já lá vão dez anos – vou estar à mesa sem os teus olhos luminosamente azuis, sem o teu jeito rude de matriarca atarefada, sem o teu amor, o teu bacalhau, os teus ralhetes a fingir pelo excesso de Alvarinho. Nada é como quando estavas, minha cuidadora, minha bimãe. Deixa-me dizer-te um segredo: quando dizias que ninguém cozinhava como tu e te desmentia, era apenas para ser pacificador, nunca, ninguém, consegui como tu escrever amor sob a forma de comida. Para te sossegar, digo-te que, estranhamente ou talvez não, estás lá, como se de forma mágica ainda supervisionasses tudo. De modo diferente é certo, estarás sempre connosco, comigo. Bom Natal, Vó.

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Parabéns, avó.

por Fernando Lopes, 6 Mar 14

Olá, avó. Se fosses viva celebraríamos hoje os teus 104 anos, estaria a admirar o azul muito vivo dos teus olhos, a rir-me com as tuas saídas inesperadas. Foste minha mãe até aos 30, cuidaste-me com carinho desmesurado, eras o meu porto de abrigo. Não eras dada à manifestação de sentimentos, antes punhas o teu amor em prática, por isso não te vou falar de modo piegas, sei que não irias gostar, nunca foste de festas, os teus carinhos eram pequenos tabefes complacentes.

 

Prefiro recordar-me como exigiste que fosse almoçar sempre a casa até aos teus 90 anos, “não quero que comas porcarias lá fora”, como subias Álvares Cabral com volumes de SG Ventil para mim e dizias “devem pensar – o raio da velha fuma como gente grande.” Sabes, tenho no armário aquele casaco de couro caríssimo que me ofereceste sem o avô saber, não me consigo desfazer dele, como se estivesse a apagar atua memória.

 

Foste a pessoa que quando achou que não estava auto-suficiente, foi pelo seu pé escolher um lar. Disseste-me “às vezes esqueço-me do disco do fogão aceso, tenho medo de cair ao subir para a banheira, fui inscrever-me num «hotel para velhos».

 

Recordo-me quando te ia buscar ao sábado e passeávamos em Cedofeita dizias “é uma alegria ver que não existe só gente velha no mundo”, do teu embaraço quando te levava as cueca-fralda “deve ser do lar, não há aqui um único velho que vede”.

 

É assim que me recordo de ti, a rir-se de si mesma, sólida como a mais dura das rochas, e no entanto capaz de qualquer sacrifício pelos que amavas. A bisneta que quiseste ver antes de morrer cresceu, e já anda na terceira classe; mais um ano e apanha-te.

 

Não sei se estás a olhar para mim, se estou a olhar-te, mas quero dizer-te um segredo: todos os dias sinto a tua presença. Parabéns, avó.

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