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Rosa Bêbada.

por Fernando Lopes, 16 Abr 14

Em tempos muito remotos, entre meados de 60 e finais de 70, os meus pais tinham uma empregada interna. A coisa era relativamente indolor para ambas as partes e funcionava assim: recrutavam numa família conhecida de Entre-os-Rios que tinha várias irmãs. As raparigas ficavam lá em casa, aprendiam as maravilhas da domesticidade, juntavam o seu salário para o «enxoval», arranjavam namorado, casavam e eram substituídas pela irmã mais nova. Foi assim com a Maria, Fernanda e Rosa, todas filhas do mesmo pai e mãe.

 

As duas primeiras nunca criaram problemas, saíram lá de casa como amigas e visitavam-nos com os maridos com alguma frequência. Sempre foram simpáticas, prestáveis, fizeram seu este Porto de acolhimento.

 

A última era uma moça mais problemática, de cara fechada, carácter irascível, hábitos não muito condizentes com os das irmãs. Apesar de nova, gostava da pinga. Só o descobrimos quando o merceeiro apresentou à mãe uma conta calada de cervejas.

 

- Deve estar enganado Sr. António, o meu marido não bebe – argumentou a mãe.

- Mas a Rosa veio cá buscar cerveja, D. Maria José.

 

Após aturadas investigações que fariam ruborescer de amadorismo Sherlock Holmes, foram descobertas dúzias de garrafas debaixo da cama da rapariga, que ficou proibida de beber, especialmente à conta dos meus pais.

 

Nesse tempo o pai trabalhava na Câmara do Comércio Luso-Britânica, e a sua função era facilitar e promover contactos e trocas comercias entre Portugal e  a Grã-Bretanha. Os associados pagavam um fee e tinham apoio técnico e comercial da Câmara que o pai representava. Obviamente que quando os negócios corriam bem recebia presentes de agradecimento, entre eles uma garrafa de vinho do Porto de 1857, ainda com um rótulo feito manualmente. Ganhou um amor especial àquela garrafa, que exibia com cuidado e orgulho.

 

A Rosa, num dia em que a sede falou mais alto, foi à garrafeira, e escolheu a garrafa com aspecto mais «velho», precisamente a tal.

 

Dando pela falta da sua estimada garrafa, apertou com a rapariga que confessou tê-la bebido. Se queriam ver um homem que não bebia desesperado com álcool, ei-lo. Nunca falava mal, mas nesse dia perdeu a compostura.

 

- Esta puta bebeu mais de 20 contos em vinho do Porto. Estava a guardar aquela garrafa para o casamento dos meus filhos!

 

Andava de um lado para o outro, desesperado.

 

- Fala sua bêbada, fala! A minha garrafa favorita!

 

O episódio passou, a Rosa ganhou a alcunha de «Rosa Bêbada», saiu lá de casa uns anos depois, mas a «estória» ainda hoje provoca o riso entre os sobreviventes, tornando-se numa espécie de lenda familiar.

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6 comentários

De O Abominável Careca a 16.04.2014 às 21:22

E porque raio de carga d'água é que te lembras-te deste episódio?!
Bom, mais "estórias" ocorreram com as raparigas da província que vieram para a cidade "servir", mas isso fica para outra ocasião...
Não há dúvida que o cérebro ainda continua a ser um órgão mais que surpreendente!
E parafraseando o antigo presidente do conselho..."O vinho é alimento essencial a dez milhões de portugueses"! Infelizmente passados quarenta anos já nem esse número somos...

De Fernando Lopes a 16.04.2014 às 21:43

Às vezes lembro-me destas estórias antigas. Estarei a ficar velho?

De Alice Alfazema a 16.04.2014 às 21:30

coitado do senhorque desespero...mais de vinte contos pelas goelas abaixo não é para qualquer um.

De Fernando Lopes a 16.04.2014 às 21:41

Alice, mais ao menos naquela altura foi instituído o salário mínimo, 3 contos e 300. O equivalente prái a 2 ou 3 mil euros que a cachopa bebeu. E o valor afectivo não tinha preço. :)

De aurora a 17.04.2014 às 22:46

:):):) Obrigada Fernando! Nem calcula com me fez bem ler o seu testemunho.A moçoila só provou que gostava do que era bom :) Essa cena deve ter sido mesmo hilariante...:):)

De Fernando Lopes a 17.04.2014 às 23:17

A boa da moça era mais do género:
- Branco ou tinto?
- Tanto faz, é para «esgomitar».

Grande abraço.

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