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Recordações.

por Fernando Lopes, 13 Jan 16

Recordo não querer sair da barriga da minha mãe, lutar sete horas para não vir ao mundo, nascer com a cara queimada pelo meu vómito. Recordo agarra-me às cortinas e pontapear violentamente quem se aproximasse quando o pai, meia-dúzia de anos passados, me quis de volta para casa como se fosse um bibelot humano pronto a limpar consciências sujas. Recordo-me do primeiro dia de escola, levado pela mão e do esforço que fiz para não me mijar de medo. Recordo a primeira vez que fiz amor, o misto de espanto alegria, medo, o sangue, a excitação partilhada. Recordo o primeiro dia de trabalho, os modems, colegas, chefes. Recordo ter morrido várias vezes, uma de morte tentada, outras de morte sonhada. Recordo pessoas que só vi uma vez e esqueço as que comigo se cruzam todos os dias. Recordo o bebé albino em S. Tomé, carregando consigo maldição eterna. Recordo a minha filha a nascer, o anestesista a empurrar-lhe os pés, a cabeça a emergir por entre o golpe. Recordo amigos e inimigos, os que vivem e os que morrem, os que sonham e os que vegetam. Recordo-me de tudo, uma espécie de castigo permanente, praga que me acompanha há tempo demais.

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17 comentários

De Inês a 13.01.2016 às 19:32

Muito bom!

De Fernando Lopes a 13.01.2016 às 20:20

Sou um tipo cheio de medos, ressentimentos, angústias. Acho que é isso que me põe a memória em modo non-stop. Pudera eu, trocava-a pela dos parvos, estão muito mais próximo da felicidade.

De pimentaeouro a 13.01.2016 às 19:56

Felicito-o pela excelente memória que possui e que é visível nos post.
Ter falta de memória é bem pior, posso garantir-lhe.

De Fernando Lopes a 13.01.2016 às 20:26

São duas faces da mesma moeda maldita. Tão mau é recordar tudo, como esquecer o que não se quer. 

De Ana A. a 13.01.2016 às 19:57

"Recordo-me de tudo, uma espécie de castigo permanente, praga que me acompanha há tempo demais."

Sem recordações o que seria o Homem?
:)

De Fernando Lopes a 13.01.2016 às 20:36

O excesso de recordações é como ter um engarrafamento, com toda a gente a buzinar, permanentemente dentro da cabeça. Acredite que não é fácil.

De Anónimo a 14.01.2016 às 11:54

O facto de teres excesso de recordações significa que tiveste uma vida cheia, por isso organiza-as e vive feliz. Infeliz é quem as não tem.
bj
MM 

De Fernando Lopes a 14.01.2016 às 19:05

Gostava que me ensinassem um modo de organizar o caos. Eu sei, eu sei, o caos é em si mesmo uma forma de organização e blá-blá-blá...

De redonda a 14.01.2016 às 19:54

Não pensava que a minha memória fosse má, mas não consigo recuar até antes de nascer! As minhas recordações mais antigas serão de quando tinha três anos, de nos terem dado, a mim e a uma das minhas irmãs um chupa-chupa com cara de gato e de estarmos a brincar no quarto da minha avó.

De Fernando Lopes a 14.01.2016 às 20:13

Também não me recordo, «relembro» o que me contaram. A minha primeira memória remonta aos dois, três anos, ao colo da avó na Praça da República, a admirar os carros. 

De Anónimo a 15.01.2016 às 11:45

A memória é um vírus que veio do espaço como disse não sei quem...
Filipe tipo coiso... 

De Fernando Lopes a 15.01.2016 às 19:26

Apesar de já termos discutido isto face a face, e de o autor de «Language is a Virus» ser William S. Burroughs, não resisto e este presentinho...

De Anónimo a 16.01.2016 às 11:41

Much obliged, dear sir...
Filipe das coisas

De Maria Manel a 15.01.2016 às 13:48

Desde que te conheço - e já vai um tempito - tentas resolver (e responder também) no teu interior, a todos os conflitos e dúvidas, quaisquer eventuais problemas ou até viver as alegrias.
Sempre sózinho, vais servindo de alicerce ao teu próprio edifício, o que é visivelmente uma redundância dolorosa.

Digo-te, que sendo portador de uma consciência tão bem formada, os teus primeiros nove meses de vida não foram passados em solidão, mas bem acompanhado por quem
nos forma a todos moralmente, desde o primeiro dia.
E mais não acrescento, este campo de ideias é inexistente para ti...
Bj

De Fernando Lopes a 15.01.2016 às 19:29

Manel, é precisamente um problema de alicerces. O meu edifício é a minha torre de Pisa privada e não vejo jeitos de o pôr direito. ;)


Beijo

De Margarida a 01.02.2016 às 17:53

Sendo que vive tão caleidescopicamente parece-me insano querer viver no não-caos...
Recordações e partilhas, intensidade e complexidade trazem-lhe felicidade. Aceita-lo será uma questão de autenticidade e de auto-conhecimento, por mais barulho que possam fazer, por mais alarido e prurido que nos possam provocar! 
Permita-me que lhe envie um abraço. 

De Fernando Lopes a 01.02.2016 às 19:03

Talvez tenha razão Margarida, mas este caleidoscópio tem tantas cambiantes que provoca enjoo. É verdade que as minha recordações são de uma modo estranho o meu cimento.


Quanto ao abraço, retribuo em dobro.

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