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Quando o homem deixa de ver no espelho o rapaz.

por Fernando Lopes, 20 Dez 15

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Envelhecer é um processo doloroso, independentemente do sexo. Não creio que o mito perpetuado que o envelhecimento é mais penoso para as mulheres que para os homens seja verdadeiro. Rapazes serão rapazes, mantemos um lado infantil toda a nossa vida, um modo de auto-preservação tão masculino que ouvimos septuagenários comentar: «Faleceu um rapaz da nossa idade».

 

Subitamente, levou este rapaz uma chapada de realidade. Já não é o jovem que via ao espelho. Um processo doloroso mas inevitável, um atropelamento por um comboio que julgávamos estar ainda distante.

 

Todos ouvimos o ditado «galinha velha faz boa canja», nunca ninguém disse «galo velho dá uma cabidela de truz».  

 

Requer tempo, maturidade, e um enorme rombo numa auto-estima já de si frágil, que demorará a calafetar. Mantive estes dias de silêncio porque o rapaz deixou de ser prevalente. Não sei se isso vai afectar o blogue, certo é que para um tagarela é difícil manter-se calado.

 

Uma das narrativas mais dolorosamente sinceras que li sobre a vida e este estádio pré-comatoso que atravesso foi descrita por John Williams no fantástico «Stoner». Como o personagem que dá nome ao livro, mantenho intacta a capacidade de me apaixonar por um momento, uma paisagem, um livro, uma pessoa. Estou vivo, vou andar por aqui, tentar esquecer a cabeleira grisalha e a dezena de quilos a mais, e manter as únicas qualidades que tem o homem por detrás deste blogue: integridade de carácter e absoluta sinceridade.

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38 comentários

De Carlos Carvalho a 23.12.2015 às 11:18

Pois é , eu já á alguns anos descobri que tenho problemas com o espelho . Antigamente eu olhava para o meu reflexo  e fazia caretas , hoje , é ele que me faz caretas . Ainda assim , prefiro morrer velho e doente que, jovem e cheio de saúde .

De Fernando Lopes a 23.12.2015 às 21:03

É esse espírito que nos faz andar para a frente, Carlos. Ignorar as adversidades da vida.

De pimentaeouro a 28.12.2015 às 22:03

Felizmente regressou. Umas brancas e umas rugas não chega a ser velhice.

De Fernando Lopes a 28.12.2015 às 23:55

Obrigado, João. Como bem sabe a velhice é mais mental que física. Às vezes parece que tenho duzentos anos.


Abraço.

De João Gonçalves a 29.12.2015 às 23:44

Há velhos e velhos. Duzentos quilos não é velhice é talvez pessimismo.
No meu caso, infelizmente , a velhice não é psicológica é física Para encurtar prosa , tenho um currículo singular, uma incapacidade de ... 84,4%, leu bem.
A cabeça ainda não naufragou mas quando isso acontecer espero que a consciência me avise.

De Fernando Lopes a 30.12.2015 às 21:48

A cabeça é sempre prisioneira jovem de um corpo que envelhece, contra isso pouco podemos fazer.

De João Gonçalves a 29.12.2015 às 23:51

Há velhos e velhos. Duzentos quilos não é velhice, deve ser pessimismo.
Tenho um currículo singular, uma incapacidade funcional de... 84,4%, leu bem.
A cabeça ainda não naufragou e espero que a consciência me avise.

De Maria Manel a 12.01.2016 às 14:36

(Apesar de só escrever hoje, fiquei muito contente por estares a "bulir" de novo :-)


Como te compreendo! Seja qual for o ângulo, a dita imagem desapareceu (a jovem no espelho)
Enquanto muitos outros se sentem " o cinquentão jovem", eu sou a mãe velhota!
Não é questão de arrependimento - é a triste constatação de que o futuro irá cada vez mais cada vez mais cavar o fosso - quando eu tiver 65 anos a minha filha acabou de fazer 18 - que filme do camandro!
Depois de fazer os 50 - e já no final do mês, vou tentar não pensar sobre isso, mas não vai ser muito fácil. Bj

De Fernando Lopes a 12.01.2016 às 19:43

O que mata é que a cabeça continua a ser de miúdo, e o corpo insiste em lembrar-nos que não. Não te preocupes, 50 é um número como outro qualquer (momento de autoconvencimento). ;)

De Maria Manel a 13.01.2016 às 15:20

Sabes aquela ideia de entrar de costas em casa para disfarçar a hora adiantada e poder dizer que se está a sair cedo?
Quero saber viver a idade que tenho - atualmente todo o ambiente que nos rodeia quer-nos levar  a desprezar a realidade. Vou lutar!

De Fernando Lopes a 13.01.2016 às 19:03

Importa mais o empenho com que lutas que o resultado. Acredita em mim. 

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