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Pessoas descartáveis.

por Fernando Lopes, 22 Abr 14

«A vida das pessoas não está melhor, a do país está muito melhor» disse o grande filósofo Luís Montenegro. Ao contrário do que alguns bem intencionados argumentaram, não se trata de uma gaffe, mas de uma peculiar mundividência actualmente dominante. As pessoas interessam muito pouco, nada mesmo. A vida resume-me a modelos macroeconómicos, a uma gigantesca folha de Excel onde a variável «ser humano» toma com facilidade o valor zero.

 

Aponto três casos com que lidei esta semana: pessoas entre os 30 e 48, todos licenciados. Um, ao fim de seis anos de estagnação vai para África, outro, desempregado, tenta a sua sorte na Europa, outra ainda foi despedida após o período puerpério.

 

Três pessoas experientes, demasiado caras para o mercado actual que se alimenta de estagiários low cost. A desvalorização de trabalhadores qualificados e experientes é má para todos; os mais novos entram num mercado guiado pelo mínimo denominador comum, quem está entre os 30 e 45 é demasiado caro e consequentemente desinteressante, quem tem mais de 50 é velho e dispensável. Ao contrário do que querem fazer crer não existe guerra geracional, todos, do mais novo ao mais experiente, estão depreciados.

 

As pessoas, essa abstracção, tornaram-se demasiado incómodas nesta guerra contra o trabalho, em que este é visto não como um direito mas um tesouro a conservar seja por que meio for. Não surpreende pois que o desemprego desça, quem pode foge, quem não pode sujeita-se a trabalhar por pouco mais que uma côdea.

Poder-se-á argumentar que estou a partir da experiência particular para o geral, mas não é o todo a soma destas pequenas partes com que vamos lidando dia-a-dia?  

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2 comentários

De O Abominável Careca a 23.04.2014 às 20:17

Boas,

Infelizmente a cada dia que passa a triste realidade de alguém conhecido que se vê forçado a emigrar por ter perdido ou ter sido extinto o posto de trabalho é um dado mais do que adquirido! Hoje são "eles" e amanhã poderemos ser "nós". E sem necessidade de acrescentar o quer que seja ao texto, despeço-me sem grandes esperanças, expectativas ou votos para um futuro melhor que desesperadamente se espera NEGRO.
O que mais me choca é a passividade e a apatia generalizada e se calhar o medo que se instalou!

De Fernando Lopes a 23.04.2014 às 21:47

Acho que o factor primordial é o medo. As pessoas têm medo de falar, de se comportar com normalidade; então nos locais de trabalho é melhor nem falar.

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