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Pelo direito à blasfémia.

por Fernando Lopes, 18 Jan 15

pope.jpgImagem: Cristina "Krydy" Guggeri

 

Todas as religiões são intolerantes em relação a quem não acredite na sua verdade. Ponto. Todas têm como objectivo converter; é essa a sua natureza, o que assegura a sua sobrevivência enquanto comunidade, o rendimento para manter a sua estrutura hierárquica e de fiéis. Sem dinheirinho não há templos, padre, imã, sacerdote, rabino, monge. Todas dão uma solução para o único problema insolúvel, a morte. Seja através do céu, virgens, reencarnação, prometem alguma forma de prolongamento da nossa precária existência.

 

Depois há os outros, os ateus, que acreditam que são um acaso da natureza e que um dia esse acaso termina. Inexoravelmente. Definitivamente. Para toda a eternidade, seja lá ela o que for.

 

É por isso que o caso do Charlie Hebdo gera tantos «ai não sei», «não sou Charlie», «há coisas com que não se brinca». É por isso que fugiu o pé para a intolerância ao bom do Papa Francisco, com o pensamento lapidar «Se o meu bom amigo Dr. Gasparri ofender a minha mãe, deve preparar-se para levar um soco. É normal, é normal. Não se pode provocar.»

 

Numa sociedade livre e civilizada, excepto a vida, nada é sagrado. Como nós ateus não estamos à porta da igreja a bater nos fiéis, impedindo-os de entrar, qualquer crente de qualquer religião, pode não gostar, mas tem de aceitar o direito à blasfémia. Sem agredir quem seja cáustico com as suas crenças. É essa capacidade de tolerar, até defender o que não gostamos, que é defesa da liberdade. Que deveria ser a suprema mostra de fé de todos os crentes de todas as religiões. Aceitar, mesmo o que lhes é estranho ou hostil. Tudo o resto são meias-tintas.

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7 comentários

De pimentaeouro a 20.01.2015 às 20:31

Um acto de fé numa religião ou em qualquer outra coisa, é, por natureza, subjectivo, não é racional. Acredito em algo, mas pode não acontecer.
Não creio ter defendido que a resposta à ofensa seja relevá-la. Defendi, e sublinho, que não há liberdades ilimitadas.

De Fernando Lopes a 20.01.2015 às 21:24

Respondo com uma fraca tradução de Salman Rushdie, publicada no blogue https://vidabreve.wordpress.com/
«A religião, uma forma medieval de irracionalidade, quando combinada com armamento moderno, transforma-se numa ameaça real às nossas liberdades. Esse totalitarismo religioso causou uma mutação mortal no coração do Islão com as consequências trágicas que vimos hoje em Paris. Estou com Charlie Hebdo, como devemos estar todos, para defender a arte da sátira, que sempre foi uma força pela liberdade e contra a tirania, desonestidade e estupidez. "Respeito pela religião, transformou-se num código que significa "medo da religião". As religiões, como todas as ideias, merecem crítica, sátira, e sim, o nosso desrespeito destemido» 

De pimentaeouro a 20.01.2015 às 23:03

Caro amigo,
Assino por baixo. A democracia não se constrói com metralhadoras e bombas.

De Henrique felix a 22.01.2015 às 20:03

Devo discordar pimentaeouro, o que há de "amar pai e mãe" por exemplo?
Ou por exemplo o que há de irracional em amar o próximo indiscrime do que ele faça ou professe?
Essa é uma análise muito simplista da fé, acreditar que ela consista em uma espiritualidade dissociada da vida cotidiana.
De fato existem pontos onde entra a fé naquilo que não se vê ou naquilo que se espera, e nesse mérito não entrarei porque há necessidade de conhecimento prévio, mas não implica que na religião não há o uso da razão.
Entendo a defesa da liberdade ilimitada, mas ela é inconcebível numa sociedade, tendo em vista que haverão conflitos de direitos, aquilo que me agrada fazer pode ofender o outro. E nesse sentido, não seria tolhir a liberdade dos religiosos que reagiram de acordo com o que eles chamam de liberdade?

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