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PEC (Processo de Estupidificação em Curso).

por Fernando Lopes, 26 Jun 14

Queria ser capaz de escrever qualquer coisa sensível, inteligente, engraçada. Não consigo, encontro-me completamente exaurido. Com as alterações laborais decorrentes da ofensiva generalizada ao trabalhador, essa espécie maldita, passo nove horas por dia, excepção feita a mini pausas tabágicas, a trabalhar como quando tinha vinte. Regresso ao refúgio abatido, prostro-me no sofá e adormeço passados alguns segundos. Para quem não tem trabalho estas queixas são um bocado mariquinhas, só que com 51 é complicado manter permanentemente este «acelerador a fundo». Chego também a conclusões desanimadoras: esforço, empenho, vontade, carácter, são qualidades nitidamente underrated. Vale mais vender uma imagem, como se de produto de marketing se tratasse, ou ser filho dilecto de quem está no poder.

 

Durante uns meses refugiei-me na leitura, e até Abril tinha lido doze livros, o que me permitia algum alheamento deste penoso dia-a-dia. Estou tão estupidificado que já não tenho vontade de ler. Toda a sociedade está contagiada, nunca vi tantos trabalharem tanto por tão pouco. Salva-nos neste PEC (Processo de Estupidificação em Curso), o futebol, o fado e a nossa Senhora de Fátima. É doloroso ver a alienação globalizada que tomou conta deste país. Mais que o retrocesso de direitos, a mentalidade geral é cada vez mais a do sobrevivente e não a do vivente. E, confesso, preferiria viver a sobreviver. 

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5 comentários

De Ana A. a 26.06.2014 às 20:03

Uns trabalham 9 horas e outros sem trabalho! Claro, é assim que deve ser, para que os que estão na fila à porta, contenham os ímpetos reivindicativos dos outros, senão, a porta da rua é a serventia da casa. E pensarmos que tudo poderia ser tão mais fácil...
Receba um abraço solidário e de esperança num mundo melhor! :)

De Fernando Lopes a 26.06.2014 às 21:05

O problema não são tanto as horas, até porque me pagam isenção de horário, é o ritmo alucinante, que drena a energia para toda e qualquer outra actividade. É transversal a muitas empresas em que o quadro de pessoal diminui e o fluxo de trabalho se mantêm. É por isso que me torço todo quando ouço falar na «baixa produtividade» dos portugueses. Uma mentira, que de tanto repetida, se transformou em verdade assumida por uma enorme massa acrítica.  

De bokeh a 26.06.2014 às 22:07

boas,
talvez não sejam só as alterações laborais. o rácio - numero de pessoas com elevado nível de preparação face aos empregos ou posições hierárquicas superiores disponíveis é muito diferente do que era até há uma dúzia de anos. a competitividade, diria mesmo disputa, nos dias que correm é tão violenta que muitos se vêm forçados, por falta de alternativa ou de coragem para mudar de vida, a dar muito mais de si ao empregador do que aquilo que realmente gostariam de dar.
esta realidade reflete-se e condiciona a forma como estamos a educar e preparar os nossos filhos. criancinhas com quatro ou cinco anos de idade, nestes tempos insanos em que vivemos, são de tal forma pressionadas e estimuladas a adquirir conhecimento que temo que quando chegarem aos trinta já apresentem sinais de senilidade!

De Fernando Lopes a 26.06.2014 às 23:03

O local de trabalho sempre foi de afirmação e luta, mas nunca como agora em que o desemprego está sempre ali ao pé da porta. Nos momentos de crise vem ao de cima o melhor e pior da natureza humana. O «momento sociológico vigente» tende a legitimar tudo, e, meu caro, se colocarmos a ambição ou o interesse pessoal à frente da ética, já perdemos, pelo menos para os da velha escola como eu. Mas fura-vidas sempre os houve. Também sinto essa realidade nos bancos de escola como dizes e confesso que me assusta. Estamos a criar competidores em vez de camaradas.

De pimentaeouro a 27.06.2014 às 00:19

Não querem homens nem mulheres, querem zombies .

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