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O direito a desistir.

por Fernando Lopes, 2 Fev 14

Correram a bom correr dois vídeos que me deixaram a pensar. Um, o da mãe do Rui Pedro – e já drama q.b. quando alguém abdica da sua identidade para ser mãe de – e o de Manuel Forjaz. Nada tenho contra estas pessoas, respeito-lhe o drama. Há no entanto uma glorificação da resistência com que discordo profundamente. Filomena Teixeira – a mãe – e Manuel Forjaz, são dados como um exemplo de tenacidade, capacidade de luta, resiliência. Sê-lo-ão certamente. O que me encanita é que esta apologia da persistência é feita por mimetismo do american way of life, em que só existem duas classes, os vencedores (winners)  e os vencidos (losers).

 

A atitude destes dois respeitabilíssimos seres humanos é apenas uma das possíveis. Encontraram o seu caminho, a sua esperança, seguem-na com toda a legitimidade. Há tempo de resistir e de abdicar da luta. No lugar deles não teria a tenacidade de dia após dia tentar vencer uma doença terrível; já teria deixado de procurar um filho desaparecido há 16 anos. Isso faz de mim talvez um ser mais vulgar, menos mediático, certamente não menos digno.

 

P.S. – Já depois de publicado, não resisto a uma adenda a este post. Os media fazem destes casos particulares o exemplo a seguir. Não são, são pessoas fora do comum. Que o endeusamento do extraordinário seja um fardo demasiado pesado para o homem normal é a minha preocupação.

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9 comentários

De aurora a 02.02.2014 às 16:13

Caro Fernando
Penso que também não conseguiria resistir tanto.No entanto, em situações extremas ou tão dolorosas, o ser humano pode revelar forças que provavelmente julgava não possuir. Filomena Teixeira, apesar de ter uma filha,direcionou a sua vida numa procura incessante do filho.Os media, nestes e noutros casos, servem-se das tragédias de cada um para subirem audiências, com a "cumplicidade" consciente, ou não, dos envolvidos, naturalmente.
Tento alhear-me do muito que se ouve e vê por aí porque me constrange, me confunde e me revolta.
Abraço

De Fernando Lopes a 02.02.2014 às 16:42

Os media precisam de heróis, nada contra, a heroicidade vende. Inquieta-me que os que não têm estas qualidades se sintam diminuídos. Estes comportamentos tendem a tornar-se «modelo» por via do impacto mediático, quando de facto o não são. E obrigado pela correcção, tinha trocado o nome de Filomena Teixeira com o da actriz Ana Padrão.

Abraço.

De aurora a 02.02.2014 às 19:45

Acabo de ver um programa na TVI 24 Manuel Forjaz. A dada altura reconhece que a sua atitude perante a doença poderá causar incómodo a muitas das pessoas que dela sofrem.
Acho que funciona um pouco como os livros de autoajuda. Comigo, o empolgamento inicial dava lugar ao desespero e à frustração por não conseguir atingir o tão desejado bem estar emocional e espiritual. Lixo!:)
Forjaz diz -se crente em Deus e na vida para além da morte.Talvez seja uma mais valia. De qualquer forma, e não querendo fazer juízos de valor, Forjaz não estará a iludir-se a si próprio?

De Fernando Lopes a 02.02.2014 às 21:00

Nas situações limite, qualquer coisa a que as pessoas se possam agarrar é positivo. Obviamente haverá muito de «Conferências TED», mas não desvalorizo nem atribuo mérito excessivo. É apenas um caminho, uma forma de encarar a(s) adversidade(s).

De alexandra a 03.02.2014 às 19:00

Revejo-me um bom pedaço no que dizes e no que comenta Aurora. Apenas posso conceber toda a fragilidade que subjaz ao comum dos mortais perante a desdita em qualquer das suas formas. Também acho que os media fazem o seu uso das tragédias...ao vender heroicidades vulneram a mais fundamental das realidades, invisibilizar a verdadeira condição humana: insensibilizam sobre o que mais nos assemelha à hora da tragédia.

De Fernando Lopes a 03.02.2014 às 19:19

É talvez um modo de tornar a dura realidade em algo mais asséptico. Mas nisto, como em muitas outras coisas, a minha opinião não é definitiva, não quero ser juiz.

De Carlos Azevedo a 03.02.2014 às 19:30

Fernando e demais comentadores, não me parece que o Manuel Forjaz tenha que se preocupar com o que os outros pensam da sua forma de lidar com a doença. Ele luta com a doença assim, e eu confesso que me tocou, como me tocam os casos de quem desiste ou não luta da mesma forma. Não me interessa nem um pouco saber se ele se está a auto-iludir, até porque na sociedade de consumo em que vivemos quase todos, de um modo ou de outro, se auto-iludem.

Fernando, o «endeusamento do extraordinário», como lhe chamas, existe sempre que se atribui uma medalha ou uma condecoração, sempre que se homenageia alguém, vivo ou morto, ou até quando se atribui uma bolsa de estudos por mérito. Para o homem normal tudo isso poderá ser um fardo. A solução? Preocupar-se em ter uma vida boa (não uma boa vida, coisa diferente) e, caso o queira, lutar por ser cada dia melhor do que já é, sem se preocupar com a comparação com o seu semelhante (coisa extremamente difícil na sociedade em que vivemos).

Abraço.

De Fernando Lopes a 03.02.2014 às 19:41

Forjaz não tem de facto de se preocupar com outros. Como disse num comentário anterior encontrou o seu caminho, ponto final. Agora, uma condecoração, uma medalha, uma bolsa são momentos de celebração, não de drama, o peso e a circunstância são completamente diferentes. É da morte e da perda extrema que estamos a falar Carlos, inevitavelmente, pessoas em situações idênticas terão tendência a fazer de Manuel Forjaz a bitola. É bom, é mau? Não sei.

Abraço.

De Carlos Azevedo a 04.02.2014 às 02:06

Fernando, falavas do endeusamento do extraordinário e do peso que isso pode acarretar para o homem normal. Eu dei-te exemplos de situações menos extremas, mas o princípio é o mesmo. Por exemplo, no plano das homenagens e das condecorações, tu podes homenagear postumamente alguém que deu a vida para salvar outras pessoas. Quantos o fazem? Poucos; a maioria não tem essa coragem. Neste caso, dever-se-ia ignorar a coragem, ou seja, a excepção, só porque isso mostra a falta de coragem, ou seja, a normalidade dos outros? Era esse o meu ponto.

Abraço.

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