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O «achismo» de João Miguel Tavares.

por Fernando Lopes, 2 Dez 14

O cronista do DN, Ferreira Fernandes, foi pouco agradável para o colega de profissão JMT, chamando-lhe «pedaço de asno». Antes assim, uma boa polémica em vez das tradicionais meias-tintas portuguesas. Os jornalistas são das classes sócio-profissionais mais corporativas que conheço, agrada-me que esqueçam os tradicionais punhos de renda, e, por uma vez sem exemplo, se escreva o que se diz em surdina.

 

Longe de subscrever o encantamento socrático de Ferreira Fernandes também sou incapaz de o ver como a personificação do mal que tanto move as áreas da direita liberal. Sócrates teve bons e maus momentos de governação, iniciativas louváveis, outras simplesmente desprezíveis e despesistas. Qualquer mente sem ideias pré-concebidas verá como positiva no longo prazo a aposta na simplificação da administração pública através do Simplex ou nas energias renováveis agora retomada pelo mini-ministro do ambiente Jorge Moreira da Silva, de quem recordo vagamente o início de carreira política como colador de cartazes na secção do PSD do Pinheiro Manso. Também podia falar de Manuel Pizzaro ex-secretário de estado da saúde, actual vice-presidente da Câmara do Porto, ex-controleiro do PCP no Rodrigues de Freitas, reconvertido à mansidão social-democrata. Mas isso agora não interessa nada.

 

Não tenho responsabilidades políticas ou jornalísticas, posso dar-me à vulgaridade da conversa de café. JMT não. E no entanto, no último programa do «Governo Sombra», face ao mutismo dos companheiros de painel sobre a questão da culpabilidade socrática, distribuiu a cicuta e descobriu uma nova forma de jornalismo, «o achismo». JMT «acha» que Sócrates é culpado mesmo antes de deduzida a acusação. Que «ache» numa conversa entre amigos é perfeitamente legítimo, que o faça perante milhares de espectadores, transforma o comentário político num sucedâneo ranhoso da conversa de café.

 

JMT é um profissional, as suas opiniões têm impacto público, é de alguma forma validado pelos media. Deve falar ou escrever fundamentadamente, não «achando». Caso contrário, um zé-ninguém como eu sente-se do direito de «achar» que alguma razão subjaz às palavras de Ferreira Fernandes.

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22 comentários

De Ana A. a 02.12.2014 às 20:11

Eu como já estou farta do políticamente correcto, "acho" que os comentadores também podem "achar" o que muito bem entenderem. Afinal, quando se desencadeia uma investigação a alguém, seja ele, um anónimo ou uma figura pública, é porque o investigador o "acha" um presumível culpado! E só para o resto do mundo é que é um presumível inocente ?!

De Fernando Lopes a 02.12.2014 às 20:29

O jornalismo baseia-se em factos, não em suposições. JMT está a tomar como boas fugas selectivas de informação, que não estamos certos serem sequer verdadeiras. Se começamos a «achar» estamos a subverter os princípios do estado de direito. Eu ou a Ana não temos visibilidade pública, do nosso «achismo» não vem grande mal ao mundo. Um jornalista tem uma responsabilidade diferente, não se pode limitar a «achar» conforme as suas preferências políticas. E a Ana, a mais antiga amiga do purgatório, deve recordar-se que me fartei de malhar no Sócas. 

De Ana A. a 02.12.2014 às 20:55

Claro que me recordo!
E cá para nós: E o caso dos submarinos que só tem corruptores e não corrompidos!
Eu acho uma grande hipocrisia a presunção de inocência nestes casos. E prefiro ver os comentadores e políticos a assumirem a sua veia facciosa, do que ver um P.M. com uma desculpa esfarrapada ( a querer levar para o plano ideológico), quando quis subverter o que tinha afirmado que "os políticos não são todos iguais". Isso sim é que me mete asco!

De Fernando Lopes a 02.12.2014 às 21:07

A partir do momento em a denúncias anónimas podem ser aceites, está tudo subvertido. A delação passa a coisa comum, o que muito me incomoda. E não é por ser ser figura política ou mediática que passa a «presumível culpado» em vez de «presumível inocente». 


O aproveitamento político faz parte do jogo. Lamentável, mas um facto. 

De Luís B. Coelho a 02.12.2014 às 20:16


Boa malha, Fernando. O "achismo" descoberto por JMT terá certamente fundamentos científicos, embora não lembre ao diabo que "n" suspeitas façam uma culpa. Como nunca votei Sócrates, sinto-me à vontade para aplicar este "achismo" ao próprio autor:
Se "n" portugueses "acharem" que JMT é um pedaço de asno, ele será culpado, logo um pedaço de asno. Se os "achantes" forem "N elevado a N", serão vários pedaços de asno numa só cabeça, logo uma burrice pegada... o que é obra.
Também registei o deplorável mutismo dos seus colegas do "Governo Sombra": quem cala, consente.

De Fernando Lopes a 02.12.2014 às 21:02

Desejo que tanto ele como todos os arguidos tenham um julgamento imparcial, não contaminado pelo que se pensa politicamente do homem, justo. Se for culpado, cadeia com ele. O mesmo se aplica a BPN , BES e todos estes casos. De qualquer modo a minha natureza desconfiada não deixa de notar a coincidência de tantos casos «grandes» surgirem em simultâneo. A justiça acordou da letargia ou apressa-se a fazer prova de vida após o coma prolongado do CITIUS? 

De golimix a 04.12.2014 às 12:25

Ó Fernando,  também já ti ha comentado este acordar.....
Parece que estamos é habituados a que ele não funcione!

De Fernando Lopes a 04.12.2014 às 12:52

Custa-me a crer em coincidências.

De Carla a 02.12.2014 às 22:30

Discordo contigo num ponto: JMT não está a escrever uma peça jornalística, JMT está a escrever uma crónica e uma crónica valida as posições de quem a escreve.
Da mesma forma que Inês Pedrosa criticou, mal a meu ver, a entrega do Nobel a Alice Munro, o JMT tem direito aos achismos que quiser. Quem tem de se preocupar com a verdade dos factos são os jornalistas não-cronistas.
O que o JMT acha, achamos muitos. Já cansa de tantas virgens ofendidas.

De Fernando Lopes a 02.12.2014 às 22:46

Carlinha, JMT «achou» num programa televisivo de comentário político, o «Governo Sombra». Obviamente que uma crónica reflecte a opinião do autor e dessas partiram as trocas de mimos entre FF e JMT. É todo um outro território, completamente acordo. E para que conste, já perdi a virgindade há uns anitos e não me ofendo com facilidade. ;)

De Carla a 02.12.2014 às 22:53

Eu ouvi o GS e o molde é o mesmo: comentário=opinião.
Gabo-lhe a coragem de assumir o que pensa, nesta e noutras situações, ainda que nem sempre eu mesma concorde. Neste caso particular, o FF foi excessivo. Partir para o insulto é mau sinal.

De Fernando Lopes a 02.12.2014 às 22:59

Permitir-me-ás não decapitar o Sócas antes dele ser condenado em tribunal. Posso ter uma opinião, não é favorável, mas sem hard evidence - não sei como é que se diz isto em português - presumo a sua inocência. E não escrevo mais sobre o homem, já vi que desperta a fera que há em ti. :)

De Carla a 02.12.2014 às 23:31

Não é nada disso.
Por princípio, todos os políticos, para mim, são culpados, porque nunca lhes vi a inocência provada. O que me descabela é ler pessoas a defendê-los como se fossem santos homens, irrepreensíveis, modestos e sóbrios, e ficarem furiosos se alguém ousa achar o contrário.
Para mim, é pura hipocrisia e essa, sim, deixa-me fera.

De Gaffe a 03.12.2014 às 09:38

Mas o "Governo Sombra" não se transformou já numa espécie televisiva de uma tertúlia de café onde são trocadas piadolas e piadinhas muitas vezes só compreendidas pelos participantes, onde RAP perde o brilho que revela nos textos e onde PM vai sobrevivendo?!  

Só de pensar na opinião que tenho acerca de JMT fico irritada.  

De Fernando Lopes a 03.12.2014 às 10:02

A menina é telepata? É que partilho integralmente a sua opinião. :)

De Chichisbéu a 03.12.2014 às 10:36

Eu "acho" que o Sócrates fez muito mais pelo ramo imobiliário do que pela política. Graças a ele sei o preço de um apartamento luxo no centro de Paris e que também existe uma cadeia especial em Évora.

De Fernando Lopes a 03.12.2014 às 11:20

Desde que não o condene sem julgamento, está tudo bem.

De Inês a 03.12.2014 às 11:49

Antes de mais, quero esclarecer que não venho defender ninguém, mas somente dar a minha opinião ou, dizer o que eu acho (se é que isso interessa!).Eu não consigo ver qualquer tipo de problema no facto de um jornalista dar a sua opinião. Seja ele JMT, FF ou outro qualquer. Muito do que escrevem são opiniões. Caso diferente será uma peça jornalistica de investigação e aí devem ficar-se pelos factos, o que raramente acontece.
Quanto ao Sócrates, aos olhos do público, o julgamento já está feito e não é só por causa das fugas de informação, mas por causa de opiniões de jornalistas e/ou comentadores. Se ele vai ter um julgamento justo? No tribunal acho que sim. Cá fora, não. Se ele é culpado? Não tenho dúvidas que sim. Se não de tudo, de uma grande parte. O problema vai ser provar isso em tribunal. Não acho que um jornalista, quando fala de política, ambiente, gastronomia, veterinária, ou qualquer outra coisa, consiga fazê-lo com absoluta imparcialidade, limitando-se a narrar factos. Dá sempre a sua opinião, o seu ponto de vista. E eu acho que é isso que torna o jornalismo interessante. A diferença para uma conversa de café é que, normalmente, estão melhor informados e conseguem colocar em palavras aquilo que sabem e/ou pensam.

De Fernando Lopes a 03.12.2014 às 19:06

A análise política implica frieza e distanciamento, caso contrário é um debate. JMT , como muito boa gente, olha para Sócrates visceralmente. Essa paixão-ódio, tolda.
E a sua opinião interessa, pelo menos a mim.

De LCSP a 03.12.2014 às 15:50

Concordo consigo quando diz que um comentador, nas circunstâncias citadas, não pode partir para achismos ". São efectivamente as circunstâncias que devem ditar o comportamento...


No entanto, também concordo com aqueles que dizem que o comentário político (como outra coisa qualquer) nunca é completamente imparcial. Estamos sempre condicionados (nem que seja inconscientemente) pelas nossas experiências pessoais, preferências e vida.


O que deve ser feito por quem assume esse dever de imparcialidade é a consciencialização do comportamento. Ou seja, torna-lo consciente e assim perceber que o que está a dizer ou fazer está influenciado por "X" opinião pessoal ou percepção , mesmo que "a posteriori." Resumindo: uma autocrítica comportamental.

Coisa que jamais é feita na nossa televisão....

De LCSP a 03.12.2014 às 15:51

Peço desculpa pelo "bold".... Seguiu assim sem querer

De Fernando Lopes a 03.12.2014 às 19:13

Não pretendo que o comentário político seja asséptico, mas tolero mal o engajamento. Todos sabemos o que pensa, em quem votou JMT . É livre, não tem nenhum direito limitado. Mas gosto de saber que preside à análise preconceito mínimo e honestidade intelectual. 


Autocrítica, como bem diz, é coisa longínqua da maioria dos analistas. 

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