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Notas para uma filha.

por Fernando Lopes, 15 Set 15

Começas a ameaçar entrar na adolescência. Ora, tu não compreendes bem isto, mas um dos momentos que um pai mais teme é quando a sua filha começar a olhar para outros homens, ainda por cima com ideias libidinosas. Mesmo sabendo, o pai fica contristado quando dizes que o Luís Miguel da telenovela é mais giro que eu, mas só um bocadinho…

O moço até é bem-apessoado, não te posso acusar de mau-gosto, mas um pai nunca está preparado para o momento em que deixa de ser o centro das atenções da sua menina.

 

Temo o tempo já não muito longínquo em que apareças com o «Tó Zé» cá em casa, e o teu amado seja daqueles com a pala do boné para trás e calças à caga-na-saquinha. Para um pai, a sua menina nunca cresce, pelo menos não o suficiente para deixar de ser a sua menina. Criado num mundo de homens, em que o calduço era a forma de saudação mais suave, se bebiam gasosas de golada para ver quem dava o maior arroto, um dos desportos favoritos era pôr-se em cima de um muro e ver quem fazia chichi mais longe, se compravam cigarros avulso desde o ciclo, e se gamava no supermercado, o pai sempre viu as meninas como algo etéreo, a proteger, coisas frágeis e preciosas. Sei hoje que não é assim, que a maioria das mulheres são bem mais resistentes à adversidade, mais duronas que nós homens. Mas agora, ou daqui a cem anos, serás sempre a minha menina, o bebé que adormecia em cima da minha pança com Placebo aos berros.

 

Por isso peço-te humildemente que demores a entrar na adolescência o mais tempo possível. O mundo pode esperar por ti, eu nem por isso.

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14 comentários

De Fatia Mor a 15.09.2015 às 23:11

Esperemos que demore, sim... Acho que é apanágio dos pais esperarem que as suas filhas cresçam mais devagar, violando as leis impostas pelos ponteiros do relógio!

De Fernando Lopes a 16.09.2015 às 00:51

Os ponteiros do relógio são apenas uma inconveniência para um pai babado. :)

De marrocoseodestino a 15.09.2015 às 23:13

Houve alturas em que pedia para a minha filha crescer rápido e deixar de me dar aquelas noites terríveis, depois para não crescer para não se interessar por namoricos e agora ando na fase de pedir para me ver "livre" dela. Sim nesta altura com 24 anos ver-me livre dela é sinonimo de ter a vida orientada. O que não quer dizer que as preocupações diminuam.
Vida de pais é difícil! 

De Fernando Lopes a 16.09.2015 às 00:55

Essa é uma preocupação que para os nossos pais foi simplificada. Bastava estudar. Hoje o simples facto de arranjar trabalho é a maior preocupação dos pais, a transição para a vida adulta faz-se mais tarde, a adolescência prolonga-se. Sinais dos tempos.

De pimentaeouro a 16.09.2015 às 00:10

Não adianta lutar contra as hormonas, ela, como as outras, irá crescer contra a vontade dos papás...

De Fernando Lopes a 16.09.2015 às 00:55

Irá crescer, ser mulher, mas será sempre a minha menina.

De Genny a 16.09.2015 às 10:16

É adorável presenciar este amor paterno.
Um abraço, Fernando!

De Fernando Lopes a 16.09.2015 às 10:59

É a mulher da minha vida, Genny. :)

De Paulo Vasco Pereira a 16.09.2015 às 23:43

É curioso constatar esta postura doce e terna que nada vai ao encontro de uma das zonas onde trabalho. Lá, desde bem cedo, as raparigas são aceleradas no seu processo de sexualidade. É normal, num 5.º ano, na sala de aula, deparar-me com miúdas maquilhadas e com os cabelos "esticados" (penso ser assim que se diz. Refiro-me a uma maniqueta que os alisa). Seja em matemática ou em ciências naturais, perante as minhas observações, com base científica, de que não devem usar base dado, no nosso país, não se venderem produtos adequados à sua idade e muito menos usar a tal maniqueta, que irá danificar o cabelo, podendo provocar queda precoce... ainda sou capaz de ter alguma mamã a reclamar. E o que dizer acerca das fotos no facebook? Sim, até agora todas vestidas mas, atendendo às posições em que se apresentam...

De Fernando Lopes a 17.09.2015 às 00:18

Por opção, e consciente dos prós e contras, tenho a miúda num colégio. É um ambiente protegido, em que há extremo respeito dos professores ao pessoal auxiliar. As crianças de dez anos, são isso mesmo, crianças, sem a «sexualização» que refere. Há paixonetas infantis e as coisas da idade, sendo no entanto impensável alguém usar maquilhagem que não a das caixas de brinquedos infantis de que as meninas tanto gostam e apenas no recreio. Para que não pense que o mundo é cor-de-rosa, todos vivemos bem e passamos férias perfeitas, percorre comigo o Porto, das avenidas às tascas, da Foz a Miragaia. Para já consigo que se mova com o mesmo à-vontade no ambiente pequeno-burguês e nos meios mais populares. Pessoas são definidas pelo carácter e generosidade, não pelo dinheiro. A experiência que vive enquanto docente, é para mim enquanto pai, impensável, e acima de tudo aterrorizadora. Somos também nós pais que os ajudamos a definir enquanto jovens. 

De Paulo Vasco Pereira a 17.09.2015 às 01:43

Concordo plenamente com o que refere. Destaco sobretudo a última frase. 
Numa das minhas direções de turma, já tive um caso em que vigiava todas as fotos publicadas pela aluna. Esta era um pouco mais velha que os pares. Creio que com 12 ou 13 no 5.º e 13 ou 14 no 6.º ano. Ainda que vestida (muitas vezes pouco), as posições e expressão facial tornavam as fotos algo...Playboy. Felizmente, tive a mãe do meu lado. Isto porque, uma outra colega, com uma aluna do 9.º ano, tendo-lhe a mãe pedido para fazer este tipo de "vigilância", com se os profs fossem pais, ao criticar por escrito a discente, teve um processo disciplinar por parte da mamã, com o avalo da direção, que nada fez para proteger a sua professora que desempenhava funções para além das que lhe estavam destinadas, como impedir rapto, violação, etc. Esta é a realidade. Pode parecer dura mas basta ver o face de algumas crianças, sobretudo meninas. Claro que, depende das regiões.
Apenas estive em 6 escolas. Seriam 4, caso não fosse o cancro dos meus pais. Apenas numa delas a relação entre funcionários e alguns professores era controversa. Isto porque eram eles que garantiam a vitória do executivo. Refiro-me ao início da década de 2000. De resto, felizmente, não constato conflitos. Atualmente, até nos nossos horários aparece "vigilância dos alunos nos intervalos". A mim não me choca muito, admito, desde que não obrigado a determinada hora, pois gosto de observar - estar com as minhas turmas em momentos específicos. Por exemplo, almoço com eles, por forma a melhor os conhecer, detetar carências,... Lá fora também é bom conversar pois, por vezes, existem aqueles que têm maior dificuldade em se integrar ou ... são excluídos. A verdade é que, não obstante a existência de técnicos, defendo algo que fiz durante anos em Trancoso, paralelamente ao trabalho de ed especial: uma escola deve ter um prof. referência. Aquele em quem os alunos confiem, com quem desabafem, ouçam conselhos e... raspanetes tbm :)
Abraço.

De Fernando Lopes a 17.09.2015 às 22:35

Respeito e admito isso. É o que os ingleses definem como «mentor» um educador e interlocutor ao mesmo tempo. Faz cá falta. 

De mz a 17.09.2015 às 21:45

Ohhh  é  lindo, mas vá tomando consciência de que vai sofrer tanto... mas tanto!
:)

De Fernando Lopes a 17.09.2015 às 22:34

Bem sei, estou mais ao menos preparado. :)

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