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Não há amor na cidade.

por Fernando Lopes, 22 Ago 15

Se coisas maravilhosas me acontecem é porque provavelmente mereço. Fim de tarde. Meto-me ao caminho para um dos habituais passeios por Cedofeita. Cioso das minhas rotinas, paro na esplanada mesmo em frente à Rua do Mirante, uma pausa ao quilómetro 3 para café e água mineral. Habituée, aproveito para trocar conversa sobre futebol com o empregado que também é filho do proprietário.

 

Quase a chegar a Carlos Alberto, um homem com perto de setenta anos, magro, cabelo e bigode branco, pede-me um cigarro com um gesto. De altura média, vestido humildemente mas muito limpo. Aproximo-me.

 

- E falar, nada?

 

- Era um cigarro se faz favor.

 

- Com todo o gosto. Quer lume?

 

Dá-me um toque paternal na cara e depois abraça-me. Retribuo com palmadas gentis nas costas.

 

- Eh pá, não é preciso tanto, não lhe dei o euromilhões.

 

- Muito, muito, obrigado. Afasta-se.

 

Associações tentam suprir a falta de alimentos, roupas, tecto. Trabalhamos pouco a parte dos afectos. Mais do que um cigarro, queria sentir-se amado, respeitado. Um simples abraço pode extravasar o significado convencional. Obrigado meu caro, eu é que lhe agradeço.

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14 comentários

De Henedina a 22.08.2015 às 23:47

Quando estiver a necessitar de um abraço...vou a rua de cedofeita e peço um cigarro.

De Fernando Lopes a 22.08.2015 às 23:59

Não é preciso estragar os pulmões, dou um abraço bem apertado com todo o gosto. :)

De Henedina a 23.08.2015 às 00:04

Fumar estraga os pulmões??!...;)
Obrigada. 


De redonda a 23.08.2015 às 19:13

O texto felizmente contraria o seu título - não sei se será amor ou cumplicidade, ternura ou solidariedade, mas situações assim que às vezes encontro na nossa cidade, são algo que me faz gostar muito do Porto.

De Fernando Lopes a 23.08.2015 às 20:02

Deve ser um bocadinho de tudo, Gábi. Num meio pequeno como o nosso é fácil travar conhecimento com pessoas a quem a sorte maltratou, e um abraço é o mínimo que podemos dar, não achas?

De redonda a 24.08.2015 às 00:02

Acho que seria sim, mas eu ando muito no mundo da lua e sou tímida para quase nunca ser capaz de actos assim.

De mz a 23.08.2015 às 19:20

Esses afectos físicos são gratuitos e no entanto ninguém os doa, porque não se podem guardar num saco de plástico junto de um par de botas e de uma camisa lavada e deixados numa instituição de solidariedade social. Ou vêm do coração, ou são roubados como esse que lhe aconteceu. É na espontaneidade das circunstancias de rua, que a vida nos vai surpreendendo.
Um testemunho muito emotivo, Fernando.
Abç

De Fernando Lopes a 23.08.2015 às 20:06

Obrigado pelas tuas palavras. Tenho os meus momentos, sou capaz de grande ternura e de fúria quase cega. Não pretendo ser perfeito ou exemplar, sou só mais uma alma que vagueia por aí.

De bloga-mos a 23.08.2015 às 19:45

Estou com pouco tabaco para oferecer embora o faça mas quanto a abraços tenho uma carrada deles para espalhar por aí tivesse eu energia para tal.

De Fernando Lopes a 23.08.2015 às 20:10

Não levas um abraço meu, completamente gratuito e acompanhado de lúpulos e destilados vários porque não queres. Aguardo email para nos etilizarmos e darmos vivas à vida, mesmo sendo a boa merda que é.  

De G. a 24.08.2015 às 12:47

(o bloga bem precisa :))

De Fernando Lopes a 24.08.2015 às 13:07

Vou dar-lhe o tratamento «à peru», sem a parte do assassinato. Embebedo-o, e pelo menos durante umas horas passa tudo. :)

De Genny a 23.08.2015 às 22:23

Nada como um café, um cigarro e um abraço para me fazer ganhar o dia.

De Fernando Lopes a 23.08.2015 às 23:10

A felicidade está, as mais das vezes, em coisas simples. Considera-te cafézada, cigarrada e abraçada. :)

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