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Marmitas.

por Fernando Lopes, 30 Dez 15

Habituei-me a ver marmitas desde criança. Eram usadas sobretudo pelos operários da construção civil que vinham de terras tão distantes como Lousada, Penafiel, Amarante, trabalhar para as obras no Porto. Porque a paga era escassa e os restaurantes abertos à hora de almoço também não abundavam, trazia-se o almoço de casa. Às vezes, no caminho da escola para casa, ficava do outro lado da rua a observar os homens regressarem temporariamente à cozinha da aldeia. Havia sistemas simples e outros mais complexos. Normalmente apenas um tacho, embrulhado num pano, mais largo no fundo e com um laçarote na pega do testo. Esse pano era precedido de um embrulho prévio em jornais, várias camadas, para manter o conduto quente. As mais das vezes aquela gente simples comia apenas com garfo ou uma colher. Comer de faca e garfo era requinte de citadinos, pouco prático dadas as circunstâncias. Existiam também uma espécie de pilhas mágicas em que sobre um tacho maior encaixavam outros menores. Umas vezes dois, outras três. Tinham ganchos laterais e o fundo do menor servia de testo do que se lhe sobrepunha. Uma torre de tachos afunilando para o infinito. Eram mais finos e a comida aquecida sobre brasas improvisadas. O pequeno tinha a sopa, o maior o almoço propriamente dito. Mandavam piadas uns aos outros sobre as qualidades culinárias das mulheres e um piropo à jeitosa do outro lado da rua. Lembrei-me disto ao ver um anúncio qualquer às novas marmitas. Hoje é algo in, sinal de frugalidade. Naquele tempo significava apenas dificuldade.

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24 comentários

De Inês a 30.12.2015 às 22:04

Lembro-me bem desses tempos. Ontem ou anteontem, falavamos sobre tempos mais antigos e o meu marido recordou os tempos em que, catraio de 6 ou 7 anos, ia à fábrica levar o almoço ao pai (numa marmita pois claro).
Beijinhos e que 2016 lhe traga tudo o que deseja (se não puder ser tudo, pelo menos uma boa parte).
Feliz Ano Novo.
Inês

De Fernando Lopes a 30.12.2015 às 22:17

Naquele tempo um miúdo na primária levava o almoço ao pai, hoje o pai quase que leva o miúdo ao colo para a escola. A liberdade e autonomia que tínhamos é hoje uma miragem. 


Um enorme abraço e um 2016 recheado de momentos felizes. 

De henedina a 31.12.2015 às 09:16

Eu ia escrever que "eu sou trolha" levo marmita para o emprego mas, afinal, sou "in".
Vim desejar-lhe um excelente 2016 e a sua família 

De Fernando Lopes a 31.12.2015 às 11:10

Quando se opta pela marmita por questões práticas como falta de restaurantes perto, tempo escasso, comer mais saudável, é uma coisa. Quando é por dificuldades económicas tem um peso diferente. Abundam restaurantes acessíveis, e dado o seu trabalho não creio que seja por falta de dinheiro, é apenas uma opção. 


Um beijo enorme e um bom 2016.

De Anónimo a 31.12.2015 às 09:23

Ola  Fernando
Voltaste e em força. Fico contente de te ler novamente.
Do fundo do coração desejo-te um feliz 2016.
Bjs MM

De Fernando Lopes a 31.12.2015 às 11:13

É enternecedor e reconfortante saber-te desse lado.


Um beijo do tamanho do mundo e que os ventos da fortuna te soprem de feição neste novo ano. 

De redonda a 31.12.2015 às 18:42

Conheço algumas pessoas que o começaram a fazer por razões económicas.
Este texto lembrou-me o filme The Lunchbox, no qual se refere o serviço de entrega de marmitas de Mumbai que foi estudado em Harvard, apesar de ser executado por analfabetos a possibilidade de erro é de uma em um milhão. No filme também mostravam como a marmita pode ser um "luxo" e parte dos trabalhadores almoçavam apenas uma ou duas peças de fruta.
E agora passei também a correr para desejar um Bom 2016, com tudo de bom.
um beijinho
Gábi 

De Fernando Lopes a 31.12.2015 às 18:53

Confesso desconhecer o filme e o conceito. No que se refere à economia duvido que a Índia seja um bom exemplo.


Um beijo e um ano novo cheio de coisas boas.

De redonda a 31.12.2015 às 18:57

Gostei do filme, é diferente e especial.
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-220884/#

http://oglobo.globo.com/cultura/o-menos-indiano-dos-filmes-indianos-12274727

De Fernando Lopes a 31.12.2015 às 19:08

Já vi o «trailer» e achei muito interessante, ainda para mais para um tonto que adora comédias românticas. :)

De redonda a 31.12.2015 às 19:13

Também adoro :)

De pimentaeouro a 31.12.2015 às 21:54

Fez-me regressar aos anos 40. Belo texto servido por melhor memória.
Um Bom Ano.

De Fernando Lopes a 31.12.2015 às 22:35

Dos anos 40 aos 70 da minha infância, pouco mudou. 


Feliz 2016

De Anónimo a 02.01.2016 às 14:33

Para as minhas bandas a marmita tinha o nome de "cona" e mais não digo...

De Fernando Lopes a 03.01.2016 às 00:38

Tive de confirmar. Fontes fidedignas asseguram-me que o nome era vulgarmente utilizado. Curvo-me humildemente perante a tua infinita sabedoria, Filipe.

De Anónimo a 02.01.2016 às 14:34

Fui eu o Filipe desastrado coiso na coisa anterior...

De Pseudo a 02.01.2016 às 18:22

Ou seja, segundo o Mano coiso, para os lados dele, um "deixa-me comer da tua marmita" era aceitável. :P

Bom ano, Fernando e Mano tolo :)

De Fernando Lopes a 03.01.2016 às 00:40

This is a video response to Pseudo.


https://youtu.be/Gs-DM-d2xDY



Algo não aceitável nos dias de hoje, mas também já sou um bocado antigo.


Abraço e Bom Ano.

De Pseudo a 04.01.2016 às 17:55

Fernando, é aceitável, é: nas queimas e ambientes estudantis de festa maluca. Tanta vez a cantei e ouvi cantar. :)
E aqui em Braga o Quim ainda aparece em Maio; duvido que não traga o bacalhau da Maria. :)

De Fernando Lopes a 04.01.2016 às 19:16

Não sei se sabes, mas sou minhoto por opção. tenho uma casa a 7 km de Arcos, bem no meio do monte. Em Agosto, aquando do regresso dos emigrantes, a associação da freguesia põe uns megafones a tocar vira minhoto horas a fio. Depois de ouvir aquele «esganiçanso», o Quim Barreiros até parece ópera. 

De Maria Alfacinha a 04.01.2016 às 09:39

Considerar a marmita "in" é o equivalente a garantir que a crise é uma época de oportunidades. Há quem use a marmita porque não consegue despender 5 euros numa refeição (e sim, em plena Avenida da Liberdade consegue-se uma refeição completa por 5 euros) e há quem com a crise não tenha tido que cortar nas férias, nas saídas à noite ou na roupa (os "luxos" que muitos se orgulham de ter prescindido) mas simplesmente fazer das tripas coração para pagar coisas tão básicas como a água ou o passe dos transportes públicos.
Devo ser muito esquisita mas ver alguém comer de uma caixa de plástico - por muito xpto que seja - em cima da secretária (quando não em cima dos joelhos) é algo muito deprimente :-)
Um excelente 2016. Beijo grande, grande

De Fernando Lopes a 04.01.2016 às 19:06

Concordo contigo, mas como sabes há quem o faça para evitar os fritos de restaurante ou porque simplesmente está de dieta. Verdade será que na maior parte dos casos é tão só perda de poder económico.


Retribuo esses beijos em dobro! 

De Genny a 05.01.2016 às 14:48

Eu trago marmita. Por questões económicas, tenho electrodomésticos e espaço no serviço para almoçar e como sou eu a fazer a comida opto por algo mais saudável. 

De Fernando Lopes a 05.01.2016 às 20:34

Compreendo perfeitamente as tuas razões, muita gente o faz. O que faz falta nas empresas são cantinas e/ou copas onde se possa ter alguma tranquilidade e qualidade.
 

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