Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Ocasionalmente, este coração empedernido, comove-se. Não com histórias de amor grandiosas, daquelas que dão livro e filme, carregadas de erotismo, corpos perfeitos e libidos insaciáveis. Vidas como a do Joaquim e Maria, pacatas, de gente humilde, simples, mas em quem arde inextinguível o fogo da paixão.

 

Foram namorados de infância e juventude em tempos em que o amor, como o conhecemos, era fruto proibido. Joaquim era carpinteiro, exuberante e um bocado boémio. Os pais de Maria não viam nele um futuro para a filha. Quando este foi prestar serviço militar para a Guiné, logo a convenceram de que não retornaria vivo, ou, no caso improvável de tal acontecer, regressaria ainda mais pobre do que tinha abalado.

 

No intervalo da separação forçada, começou a ser visita de casa o Manuel Costa, empregado no Banco Fonsecas & Burnay, moço com alguns estudos, de fino trato e ambições a gerente. A distância corrói a paixão como o metal é consumido pelo ácido. Maria cedeu e acabou casada na Igreja do Bonfim.

 

O ex-militar passou tempos como cão sem dono, gastando aqui, embebedando-se acolá, sendo salvo da sua solidão por Maria da Fé, viúva de peito generoso, pensão certa e tendência para acolher desvalidos. Viveram juntos por décadas, sempre sobre a sua asa prudente e piedosa.

 

Maria enviuvou, Joaquim viu-se também sem a companheira protectora. Encontraram-se por acaso, numa loja modesta da baixa, e logo ali retomaram conversa como se não a intervalasse três décadas de separação. Contra conselhos de filhos e netos, resolveu a mulher do ex-bancário viver com Joaquim. A pensão de viuvez e as modestas poupanças do carpinteiro eram suficientes para uma vida digna.

 

Contam a história como se o seu reencontro fosse uma inevitabilidade, mão na mão, olhos tranquilos, sorriso doce e cúmplice. Há sempre uma segunda vida para o verdadeiro amor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

14 comentários

De Carla a 04.10.2014 às 15:12

Que história tão bonita!
Que os esperem mais 30 anos, para compensar aqueles que perderam.

De Fernando Lopes a 04.10.2014 às 17:25

Contada pela própria, com um sorriso plácido a acompanhar. O homem olhava para ela com um olhar de deleite difícil de descrever.

De O Abominável Careca a 04.10.2014 às 20:16

Independentemente das circunstâncias e eventuais idiossincrasias dos intervenientes trinta anos parece-me no mínimo uma eternidade. Isto do amor é um bocado como no jogo, ou seja, apostas e sai-te o prémio final ou então esperar por uma segunda oportunidade será quase sempre como um tiro na escuridão! No entanto congratulo-me com o "Happy Ending" da estória em causa por mais improvável e inverossímil que a mesma seja para a maior parte de nós!!!

De Fernando Lopes a 05.10.2014 às 12:48

O improvável também faz parte das nossas vidas, não achas? Caso contrário para que é que jogavas ao euromilhões?

De Luís B. Coelho a 04.10.2014 às 21:37

Que delícia! Ainda bem que o Fernando nos vai enchendo a alma com estes episódios.
A vida pode ser mesmo surpreendente, hein?

De Fernando Lopes a 05.10.2014 às 12:49

Talvez menos épica, mas tão poética como nos filmes.

De Cenourita a 04.10.2014 às 22:44


O amor não se explica nem se entende, ou existe mesmo ou é apego ou ilusão! 
Inevitavelmente, também me comovi... :)

De Fernando Lopes a 05.10.2014 às 12:50

Somos uns corações de manteiga. ;)

De redonda a 06.10.2014 às 00:15

Uma história bonita.
...depois comecei a pensar no Manuel. Se o amor dele era ela, não poderia também ser verdadeiro amor ou se perdeu o amor verdadeiro dele porque casou com ela quando ela gostava do Joaquim. Estas histórias dos amores são mesmo complicadas e também por isso ainda bem que a Maria e o Joaquim se reencontraram e estão felizes um com o outro.

De Fernando Lopes a 06.10.2014 às 00:51

Muitas vezes mais que o amor encontra-se companheiro(a). Ambos traíram o amor sonhado pelo pragmatismo da vida. Pode-se culpá-los?

De redonda a 06.10.2014 às 01:00

Acho que não, mas quando escrevi o meu comentário estava a pensar na perspectiva do Manuel que poderia estar verdadeiramente apaixonado pela Maria e aí seria triste do lado dele, estar casado com quem amava outro..

De Fernando Lopes a 06.10.2014 às 01:05

Compreendo a perspectiva, mas alguém, em algum momento, poderá garantir a total reciprocidade da paixão? Eu não.

De golimix a 07.10.2014 às 17:04

Há aqui uma história meia parecida. Com a diferença que a rapariga em questão ficou grávida, os pais do moço, não o deixaram casar-se ameaçando-o de lhe cortarem o dinheiro para os estudos, e blá...blá..blá. E a moça nunca se casou. Ela emigrou, ele ficou por cá e casou-se, enviuvou, e anos mais tarde também no reencontro perceberam que o amor sempre existiu e casaram-se. Image

Meu caro o que se costuma dizer é que o amor move montanhas!
Ah! Já viste as outras Amalinas? Vai lá a paginita do FaceCoisinho! Image

De Fernando Lopes a 07.10.2014 às 19:31

A realidade é um tudo nada mais perfeita que a ficção. :)

Comentar post

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

  • JOSÉ RONALDO CASSIANO DE CASTRO

    O Pretinho do Japão é citado, como profeta, em Ram...

  • Anónimo

    Quando a sorte é maniversa nada vale ao desinfeliz...

  • M Manel

    Só agora vi a mensagem anterior - note-se que quem...

  • M Manel

    Uma ajuda... Arranja aí uma base para eu poder de...