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Esquecido por Deus.

por Fernando Lopes, 9 Abr 15

Quem ler as minhas crónicas campestres pensará no pacóvio citadino que vê poesia onde outros vêem escolhos. Gosto da montanha, gosto sobretudo das pessoas, mas sei bem que há mais lágrimas que poemas no dia-a-dia daquela gente que também é a minha, uma forma ancestral de mim. Vêm-me à memória as palavras de Pedro Homem de Mello, popularizadas por Amália no fado Povo Que Lavas no Rio: «Pode haver quem te defenda/ quem compre o teu chão sagrado/ mas a tua vida não.»

 

Lembro-me disso sempre que encaro com o homem minúsculo que vive à minha frente. É pequenino, com umas mãos proporcionalmente disformes, uma espécie de hobbit que trocou os pés gigantescos por mãos enormes. Usa sempre uma pequena boina e está sujo, não um sujo de não tomar banho, antes como se ele e a terra se tivessem fundido e fossem uma e a mesma coisa. A mulher padece de uma doença neurológica, perdeu o tino, mas ele não a abandonou, e em dias como o de hoje vejo-a numa cadeira a repetir uma lengalenga incompreensível.

 

O médico mais próximo está em Arcos a sete quilómetros de distância, hospital só o de Ponte do Lima a mais de vinte. Vale-lhe o apoio do estado social que os liberais pensam desnecessário e gastador. Uma carrinha de apoio domiciliário ajuda-o na higiene da mulher e providencia refeições ocasionais. Não está só, apenas esquecido por Deus.

 

O quadro campestre está pintalgado destes pequenos dramas, vidas que não são de se viver. Não passo de um estranho com quem partilham ocasionais angústias. Lampeja-me na memória a sentença do burguês, antropólogo e poeta: mas a tua vida não.

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6 comentários

De .. a 09.04.2015 às 17:53

Sublime!!! Quantos não serão os esquecidos por Deus por esse país fora? Bem, haja, Fernando. Bom resto de semana.

De Fernando Lopes a 09.04.2015 às 18:52

Querida Fátima, agradeço enternecido, mas aconselho-a a poupar nos adjectivos. É só uma coisa escrita com a lembrança nos que quase todos esquecem.


Abraço.

De .. a 09.04.2015 às 19:43

Começo sinceramente a preocupar-me, ao manifestar(me) quanto ao que sinto e é espontâneo, (não por exagero, graxa, ou outra coisa qualquer) mas porque adorei o texto ao ler! A linda e carinhosa a forma, com que falou desses mesmos que todos esquecem! Mas aceito que me achem exagerada. Vou, moderar-me prometo! Apesar de achar que dizermos o que pensamos e nos tocou num texto, lido, não seja um defeito mas um bem, para quem o escreveu, o mesmo se passa ao manifestarmos, desagrado, é uma opinião. Uma interacção, mas pronto. Por vezes, percebo que  é melhor ficar calado. Boa semana. ImageImage

De Fernando Lopes a 09.04.2015 às 19:56

Fico contente que tenha gostado, não me interprete mal, eu é que não valorizo muito o que escrevo, afinal é só um blogue.

De Inês a 10.04.2015 às 10:43

"Afinal é só um blogue". É certo que sim, mas muito do que escreve demonstra uma beleza, ternura de sentimentos e valores que já raramente se encontram. Estas são algumas das coisas que me fazem voltar aqui todos os dias para ler o que escreveu.
Também gosto dos sarcásticos ou irónicos. Os mais humildes, os que lhe são arrancados da alma. Todos eles são um pouco do Fernando. E é desta honestidade que eu gosto.
Beijinho (pode ser?).

De Fernando Lopes a 10.04.2015 às 12:06

Confissão: Assusta-me quando se colocam expectativas demasiado elevadas, porque isto é sempre escrito sem grande cuidado, em cima do joelho. Além disso, falta-me o engenho e a arte. Mas, e nestas coisas há sempre um mas, o que me interessa é transmitir impressões, sentimentos. Isso, pelo seu comentário, parece que consegui, o que me deixa, muito, muito, feliz. Obrigado, Inês. Mesmo.

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