Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

E o culpado sou eu?

por Fernando Lopes, 1 Jul 14

Sem querer fazer concorrência ao pai de todos os pais, aquele que tem quatro filhos, que debita prosa de feição liberal no «Público» e no entretanto discorre sobre os benefícios da palmada, eu que não vivi acima das minhas possibilidades e modestamente apenas reproduzi uma vez embora tenha executado inúmeros ensaios, também sou pai, e sei o embarrancados que ficamos quando queremos exercer pedagogia sem para isso termos a preparação científica, ou melhor ainda, saber de experiência feito.

 

Rotunda da Boavista, festividades São Joaninas. Como prometido levo a Matilde à feira. Fazemos aquelas coisas patetas que pais e filhas fazem como jogar matrecos (matraquilhos é lisboetagem), andar nos carrosséis, tentar ganhar peluches com umas gadanhas que nunca agarram a ponta de um corno, enfardar farturas e por aí fora.

 

No regresso a casa um sem-abrigo dormita na soleira de uma porta. Aproveito o momento para exercer pedagogia de esquerda e falar sobre as desigualdades, a sorte que temos em ter uma casa, comida e dinheiro para as nossas brincadeiras. O estafermo da criança, que certamente derivará numa terrível esquerdista, desata a chorar e a gritar que não tem culpa. Tentei explicar-lhe que a culpa é de todos e de ninguém, e a haver um culpado certamente terá um nome que termina em Espírito Santo. Bem feito para não me armar em defensor dos pobres e oprimidos, coisa completamente fora de moda nos dias que correm. Não têm pão, que comam brioches.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

2 comentários

De Ana A. a 01.07.2014 às 20:03

Muito difícil mesmo fazer pedagogia sobre as desigualdades.
Lembrei-me de uma "discussão" que tive com o meu ex-companheiro e pai da minha filha, quando ela andava na primária. E, a propósito de algumas crianças não terem dinheiro para irem a um passeio ou coisa do género, ele não queria deixá-la ir também, em solidariedade com essas crianças... Começámos a enumerar todas as desigualdades, entre uns e outros, e eu acabei a dizer: "Olha, se achas que ela não deve ir por causa de quem não pode, então não a leves também ao médico nem a vacines, para ela ser solidária com as crianças de África."
Conversa de doidos, bem sei. Mas na ânsia de queremos formar almas sensíveis e justas, ficamos sem saber muito bem explicar a nossa vida em função da "sorte"!

De Fernando Lopes a 01.07.2014 às 20:21

Sei bem que não podemos resolver as desigualdades do mundo nem as devemos carregar às costas. Tentava fazer ver o quão afortunados somos, mas não espera aquela reacção. Aprendi que a crueza do mundo é mal tolerada pela «baixinha». Menos mal, sei que não é egoísta ou insensível. 

Comentar post

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

  • JOSÉ RONALDO CASSIANO DE CASTRO

    O Pretinho do Japão é citado, como profeta, em Ram...

  • Anónimo

    Quando a sorte é maniversa nada vale ao desinfeliz...

  • M Manel

    Só agora vi a mensagem anterior - note-se que quem...

  • M Manel

    Uma ajuda... Arranja aí uma base para eu poder de...