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Dava o mundo por um olhar assim.

por Fernando Lopes, 7 Set 17

Quando almoço mais rapidamente – afinal são só couves e carne ou peixe – dou um pequeno passeio a pé. Junto à churrasqueira da rotunda da Boavista está sempre um sem-abrigo e os seus cães. Talvez os cães sejam o seu diploma de humanidade, a sua companhia, um modo de comover os transeuntes. Não sei, nem interessa. Importa o carinho com que os trata – uma mantinha no chão, dois ou três brinquedos para a bicharada. Contrariamente ao habitual, desta vez foquei-me nos bichos. Olhavam para o homem, e os seus olhos transmitiam amor. Não era só amor, era um amor incondicional, inquestionável, quase asfixiante. Nunca senti sobre mim, de bicho ou humano, um olhar igual. É estúpido, bem sei, mas tive inveja daquele homem. Dava o mundo por um olhar assim, para que alguém me transmitisse tal enlevo nem que por um segundo fosse.

 

P.S. - Não, não desejo que alguém olhe para mim caninamente, apenas que exprimisse com os olhos amor de tal modo puro e sem filtro como o faziam os bichos.

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26 comentários

De Anónimo a 10.09.2017 às 19:13

Acho que também procurei isso muito tempo, sobretudo por parte de outro ser humano e por motivos muito semelhantes aos seus. E creio que o tive mas não soube guardá-lo, prolongá-lo. Hoje, curiosamente não procuro isso e creio mesmo que se o tivesse o sentiria como um peso, uma amarra, uma responsabilidade. Não quero que alguém me ame com adoração, apenas qb, se me amar com conta, peso e medida, eu serei mais livre, ele será mais livre. E isso agora é o que me é essencial.
~CC~

De Fernando Lopes a 10.09.2017 às 20:21

Entendo-a, mas o conceito de amar com «conta, peso e medida», dá-lhe uma racionalidade que o amor não tem. Terá a ver com uma fase da vida em que de algum modo aprendemos a domesticar os sentimentos. Quero sempre tudo, por uma eternidade, nem que essa eternidade dure um segundo. É pueril bem sei, mas é uma parte de mim que nunca amadureceu.

De alexandra g. a 12.09.2017 às 23:09

"Entendo-a, mas o conceito de amar com «conta, peso e medida», dá-lhe uma racionalidade que o amor não tem. Terá a ver com uma fase da vida em que de algum modo aprendemos a domesticar os sentimentos. Quero sempre tudo, por uma eternidade, nem que essa eternidade dure um segundo. É pueril bem sei, mas é uma parte de mim que nunca amadureceu."


Não exactamente, Fernando, o amor não é uma domesticação de sentimentos. É o amor, por exemplo, que leva uma mãe ou uma amante (allow me, às vezes gosto disto de falar como pessoa) ou um pai ou um amante a colocar-se na estrada e a empurrar para diante quem ama e fica ali, na estrada, em panado.


Todos, em algum momento achámos que queremos tudo, mas tem que existir um dia para perceber que isso é uma impossibilidade (cada um de nós está dividido por vários e cada um de nós já é vários...).


Quanto à eternidade, bom, creio que, essa sim, existe, enquanto alguém se lembrar de nós, mas nós já durámos mais do que um segundo...........................

De Fernando Lopes a 13.09.2017 às 19:28

Quando falava em amor pensava não no maternal, paternal ou filial, mas no outro. E sim, é verdade, às vezes preferimos « colocar-se na estrada e a empurrar para diante quem ama e fica ali, na estrada, em panado.» Isso é, sem dúvida, amor.

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