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Borderline.

por Fernando Lopes, 8 Nov 14

Há muitos anos foi-me diagnosticado um distúrbio de personalidade vulgarmente conhecido como bordeline. Caracteriza-se pela impulsividade, tendências agressivas, baixa auto-estima, oscilação entre a euforia e depressão, tendências suicidas, sensação de permanente vazio. As razões deste distúrbio foram assacadas a uma infância atribulada, uma sensação permanente de abandono por ter sido «desprezado» pelos pais e criado pelos avós. Se é verdade que esta negligência grosseira ainda hoje dói, certo é que tive uma infância sem grandes sobressaltos, o que me leva a especular se esta perturbação não será de algum modo inata.

 

Os comportamentos associados manifestam-se a espaços, sendo o mais comum a oscilação entre euforia e depressão. Ontem tive a felicidade de jantar com quatro mulheres fundamentais na minha vida: filha, mulher, e duas amigas que me são tão queridas que as visto como uma segunda pele. Comi, bebi, ri, disse disparates, discuti ideias, praguejei como uma peixeira do Bolhão. Estava eufórico, a explodir de alegria por estar ali com aquelas pessoas que tanto amo.

 

Hoje, quando acordei, a depressão. Senti que, uma vez mais, tinha sido excessivo, verborreico, despropositado. Tranquiliza-me que os amigos aceitem este excesso como parte de mim, vendo-o com bonomia, mas de algum modo sinto-me limitado na minha vida social. Quando estou com pessoas de quem gosto muito surge inevitavelmente esta torrente, que como uma catarse, me purifica. Sem mais, o que me vai na alma: obrigado por gostarem de mim, mesmo sendo este estranho tipo que vos atazanou a cabeça.

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22 comentários

De Mafalda M. a 08.11.2014 às 20:30

FINALMENTE ENCONTRO ALGUÉM COMO EU TAMBÉM!
É bom saber que não sou única no mundo que também tem essa doença. Sou acompanhada por um psicólogo, e já tive imensos pensamentos depressivos. Eu tendo ser mais depressiva e explosiva como uma granada que normalmente viver a minha vida e ser feliz. Atormenta-me muito o passado, porque já namorei, já sofri por amor, já vinguei, mas tudo deu para o torto e fui culpada de muita coisa. Felizmente nunca fui abandonada, apenas convivi uns anos com a minha avó para estar mais perto da escola...
O meu problema de infância era o facto de não ser aceite pelos meus colegas de escola, não sabia brincar como eles, e eles não sabiam aceitar as minhas brincadeiras. Chegou ao ponto de a própria professora "desprezar-me" por completo, e de dizer aos meninos para não brincarem comigo, e por vezes ela mentia e negava as agressões que ela tinha para comigo aos meus pais (sim, a minha professora batia-me!) Isso traumatizou-me até hoje, e por vezes procuro vingar-me de outras formas, culpado outras pessoas que não têm culpa de nada.
Como eu disse ao meu médico psicólogo: a minha cabeça tomou conta do meu corpo...

De Fernando Lopes a 08.11.2014 às 22:13

Impressionante é como a infância nos marca, mesmo em coisas aparentemente insignificantes. Durante muitos anos tendi a culpar os pais, não tenho dúvidas que tal me marcou. Essencialmente oscilo entre euforia e depressão, sendo extraordinariamente - diria irracionalmente - impulsivo. Neste momento tenho dúvidas se estas características não serão inatas.

De Ana A. a 08.11.2014 às 21:22

"Quando estou com pessoas de quem gosto muito surge inevitavelmente esta torrente, que como uma catarse, me purifica."

Que bom!  O Amor no sentido mais lato! :-)

De Fernando Lopes a 08.11.2014 às 22:23

Ana, os sentimentos e principalmente os afectos também devem de algum modo ser controlados. Exprimo o carinho e ódio de um modo extremo, a roçar o infantil, o que não é, de todo, próprio de um homem de 50 anos.

De golimix a 09.11.2014 às 10:44

Fernando, não gosto de rótulos. Boderline ou Bipolar, não são mais que rótulos. Sim, parece quem tens alguma dificuldade em lidar com tudo o que te sai da alma. Mas acredito que podes aprender a fazê-lo, podes precisar é que ajuda para essa aprendizagem, e aí é que a "porca torce o rabo"! É muito difícil encontrar um psicólogo, psiquiatra, que deveriam ser os profissionais mais dotados para isso, para essa ajuda. Mas não é necessário que sejam eles, podes encontrar essa ajuda de onde menos esperas. O difícil, como te digo, é teres sorte de a encontrar. Senão, terás mesmo é que não ligar ao rótulo que tens, porque ele em si já é uma prisão e, vamos ver se me faço entender... ele em si pode ser uma "desculpa", inconsciente", para os teus actos, para a tua inabilidade em lidar com as emoções que saem de ti. Tudo se aprende e a idade não é o limite. Por isso, não te desculpes com ela!

E sim, a infância pode ser uma treta nestas coisas, e pode deixar-nos marcas. A mim também deixou. Muitas! Perseguiram-me anos. Tentava mudar mas sem a ajuda que precisava não conseguia. Encontrei essa ajuda e felizmente mudei o rumo dos meus pensamentos e atitudes. Claro que não há milagres, mas há pelo menos esperança no meio de tudo.

E agora com o pai demente a meu cargo, embora no lar, faço por ir lá dia sim dia não, trata-me como se eu fosse a mãe dele. A minha mãe, apesar do feitio impossível, está mais velha e a necessitar de ajuda. Tenho que esquecer e aceitar algumas coisas. Perdoar? É difícil para algumas coisas... mas aceitar é a palavra de ordem. E parar com a culpa que me auto infligi durante anos por coisas que me aconteceram e que não estavam  nas minhas mãos...

Enfim... homem! Parece que estamos aqui nestes comentários a realizar uma catarse dos nossos próprios sentimentos! Mas como podes constatar ninguém é "normal" e afinal o que é isso? Quem traçou essa linha?

Ama como só tu sabes fazer!
Quem disse que isso é errado?
Quem ditou os comportamentos que um homem de 50 anos deve ter?

Claro que se isso te faz sofrer precisas de ajuda. Encontra-a. Procura-a. Lê. Lê muito, pois ajuda. E aprende a mudar.

Pois... já me disseram que eu devia ter ido para psicologia... mas só gosto da parte do saber sem a aplicação à clínica.

Beijos grandes que mereces, e tu sabes que sim! Image

De Fernando Lopes a 09.11.2014 às 11:54

Obrigado pelas tuas palavras e acima de tudo por partilhares a tua experiência. Lidar com emoções é para mim complicado pois saem-me estas manifestações extremas de alegria ou raiva. Felizmente são momentos cada vez mais esporádicos. Aprendi a controlar a ira, o passo seguinte será moderar a euforia que toma conta de mim quando estou com pessoas de quem gosto muito.


Beijo, e muito, muito, obrigado.

De golimix a 10.11.2014 às 08:42

Mas ouve lá, elas queixaram-se?
Então não te sintas mal!

De Fernando Lopes a 10.11.2014 às 12:34

A minha mulher queixa-se, mas também é quem mais me atura. Os amigos(as) já se habituram, têm uma e enorme tolerância aos meus disparates.:)

De Anónimo a 10.11.2014 às 19:15

Ouve lá, não me chames tolerante que é coisa que abomino!<br />Eu não sou tolerante contigo, eu sou genuinamente tua amiga porque gosto da pessoa que és, com todas as características que tens, entendidos? Isso dos defeitos e das qualidades depende apenas do contexto em que essas características (se quiseres chama-lhe idiossincrasias que dá outro ar à coisa) se manifestam. E se os amigos não são o contexto em que estamos despidos de convenções para sermos tudo aquilo que somos, exacerbarmos emoções, então não sei o que raio são amigos.<br />Disse!<br />Bj, Xana

De Fernando Lopes a 10.11.2014 às 19:25

E disse muito bem. Por isso é que gosto de ti de forma quase incondicional. A amizade, essa forma paralela de amor, aceita-nos como somos, mesmo que não sejamos lá muito bonitos. :)


Beijo.

De Fernando Lopes a 09.11.2014 às 18:38

«Pela Estrada Fora» é um título que me é querido. A posta também.
Image

De redonda a 10.11.2014 às 01:31

Não diagnosticada, revi-me um pouco neste post (um dia talvez fosse boa ideia ir a um psicólogo ou a um psiquiatra, mas será também inato porque nada de muito extraordinário me aconteceu na infância)

De Fernando Lopes a 10.11.2014 às 12:30

Provavelmente o conceito de borderline alterou-se de há 20 anos para cá. Consideremo-nos pois "pessoas com hipersensibilidade".

De redonda a 11.11.2014 às 20:04

Gosto mais da ideia das "pessoas com hipersensibilidade" :)

De S. White a 10.11.2014 às 11:04

Obrigada por este post. Como já disseram em comentários anteriores, é bom saber que não estamos sozinhos. Fui diagnosticada com o mesmo distúrbio há uns seis meses, quando comecei a fazer terapia para tratar uma depressão e a psicóloga estranhou que com apenas 22 anos eu já tivesse tido duas depressões e um distúrbio alimentar (coisa que também é típica de quem é borderline). Há uma componente genética, claro. Eu tive uma infância feliz, sem problema absolutamente nenhum. No meu caso, não houve nada que pudesse estar por trás do distúrbio. Mas ele está cá.. e nunca vai desaparecer. Quando fui diagnosticada fiquei muito angustiada: alguém me estava a dizer que havia algo de errado, patológico mesmo, com a minha forma de ser. Não era um órgão a funcionar menos bem, não era nada químico, era a minha personalidade. Nem percebi bem o estava a acontecer porque eu sempre tinha sido assim, não me lembrava de ter sido de outra forma.

Penso que é uma questão de aprender a viver comigo própria. Ainda tenho dificuldade em lidar com… bem, com tudo: a raiva (muitas coisas partidas), a depressão, a euforia… os excessos. A diferença é que começo a aprender a reconhecer as emoções.

Há coisas piores. Tenho que ver para além disto tudo. E isto de ser borderline até é bastante interessante e literário, eheheh!

De Fernando Lopes a 10.11.2014 às 19:07

Posso garantir que a idade ajuda de alguma forma a minorar os danos e comportamentos agressivos. E como vê pelos comentários ninguém nos pode chamar choné. Somos tantos! :)

De bloga-mos a 10.11.2014 às 15:35

Para não destoar de parte dos comentários anteriores expresso a minha gratidão por finalmente ter ficado a saber a razão de ser tão cata-ventoso. Obrigado sr. doutor, se houver próxima consulta trazer-lhe-ei um queijito de Azeitão...

De Fernando Lopes a 10.11.2014 às 15:46

Além do queijo, trazer uma galinha preta, velas para um pentagrama e uma faca romba. Ou se faz bem ou não vale a pena.

De bloga-mos a 10.11.2014 às 15:59

E uma haitiana experiente...

De .. a 10.11.2014 às 16:08

Engrosso o caudal se for permitido! Nada de especial na infância! Nem nunca me foi diagnosticado nada, nesse sentido, ou outro, mas sinto que tudo o que descreve se "me enquadra." Acho que é mesmo defeito de fabrico no meu caso! Devem (os meus progenitores, com a pressa do acto) ter-se esquecido de me acrescentar alguma coisa, ou exageraram na dose, do que não deviam! Lido e gosto de pensar, que sou a minha própria domadora! Às vezes a fera escapa-se-me, do controle. Leva tudo na frente e a sensação de exagero, vontade me enfiar num buraco como que descreveu é vulgar, mas paciência. Há os outros dias melhores e cada um é, devemos aceitar isso. No fundo será uma "particularidade" com a qual tem de se viver, como outros terão outras (diagnosticadas, menos boas, ou melhores) Normalmente quem me conhece gosta de mim. Atura-me, bem. Aliás... Exageram. Chegam ao ponto de dizer que antes se querem comigo que com outros. Se há coisa que acho "bom" nisto é ser-se completamente límpido nas emoções, sejam elas exageradas ou não. Verdadeiros. De mais, talvez! O que não é conveniente e só magoa. No fundo quem sofre com tudo, é o próprio, embora ao redor também por vezes nos façam um reparo. Comigo acontece com as minhas miúdas (já adultas). Brincam com o facto de ainda por cima ter um ascendente gémeos. Tenho uma amiga verdadeira, que se ri! Diz-me que comigo é um "fartote!"  Eu invento e reinvento ao minuto, quando estou feliz e rodeada de quem gosto. Conhecemo-nos desde sempre, é quase irmã! Daquelas que nos dizem o bom e o mau, mesmo que não seja tão simples de ouvir. Enfim!. Vou remeter-me à minha insignificância e desculpe ter comentado. Se calhar ter invadido o seu sítio e dito tanta parvoeira. Obrigado por mais um excelente post Fernando. Uma boa semana!

De Fernando Lopes a 10.11.2014 às 19:13

As pessoas vêem uma coisa positiva: não há «faz de conta», comportamentos dissimulados. Como dizem os bifes «what you see is what you get». Num mundo de comportamentos estudados, a genuinidade dos «malucos» acaba por ser apreciada.


Abraço.

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