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Ainda o fogo.

por Fernando Lopes, 21 Jan 17

Talvez os meus melhor anos tenham passado, contudo, não os quero de volta. Nada é como dantes, e, no entanto, algo em mim permanece intocado, rude, selvagem, como se de um rapazinho se tratasse. De uma maneira só minha, nunca envelheci. Sou capaz de chorar como um bebé, dançar como um louco, rir como um parvo, apaixonar-me como um adolescente. Deve ser a isso que chamam «estar vivo».

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16 comentários

De soliplass a 23.01.2017 às 23:02

«no entanto, algo em mim permanece intocado, rude, selvagem, como se de um rapazinho se tratasse» ... e daqui a trinta anos tás na mesma.


Por falar nisso, gente rude e selvagem, ofereci há duas semanas ao meu melhor amigo como presente de natal (atrasado), uma bicicleta de corrida novinha em folha. Professor, os corruptos deste país privaram-no de parte considerável do ordenado mensal. Não lo-hão de trazer (no que eu puder evitar) privado de certos brinquedos e especialmente de quem nele reconheça homem honrado e de bem. O meu lado de desobediente... A coisa teve uns laivos de egoísmo. Aquele tipo, que é rijo aos quase 56, é também indivíduo de uma frescura de ideias e de uma elegância de modos irrepreensível. Na primeira corrida a experimentarmos as máquinas, apanhámos velhota que ambos conhecemos e estimamos, na rua da aldeia, fazendo o caminho para casa apoiada no andarilho... ladeámo-la. E a brincadeira começou:
 - Ó ti Maria, olhe a sua sorte! Há quantos anos não tinha assim dois rapazes novos de roda de si? E em "ciroilas"! - a expressão cá do Ribatejo para ceroulas. A pobre mulher desfazia-se em gargalhadas, cobriu-nos de beijos. E jurava a pés juntos que passados (ambos) dos cinquenta somos mais novos que muitos novos.
Um namoro e uma risota que só visto...


Acho que, como tu, eu e aquele só temos piorado no «estar vivos».

De Fernando Lopes a 24.01.2017 às 00:29

Passados 53 anos seria de esperar que o tempo me tornasse indiferente - ou pelo menos mais resistente - à injustiça, maldade, falta de carácter, oportunismo. Assim não é, pelo contrário, todas as pequenas, e não tão pequenas faltas, tomam aos meus olhos, importância desmedida. É quixotismo, bem sei, mas é a minha natureza. Também a tua. Continuamos a surpreender-nos e revoltar-nos como se 15 anos tivéssemos. Importante é rodear-se de gente boa, boas pessoas, porque são um bem cada vez mais escasso. Ser bom ser humano, ter à nossa volta gente de bem, é a minha forma de resistir. Parece pouco, mas no mundo que vivemos, é já uma raridade. 

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