Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A prostituta que dizia adeus.

por Fernando Lopes, 7 Jul 14

Passou quase uma década. Trabalhava na baixa, deixava o carro no parque dos Poveiros, descia Passou Manuel bem cedinho. Ao fim da tarde repetia o percurso no sentido inverso. Entre as 18:30 e as 19:30 entrava no carro, gozando o fim do dia e o regresso ao meu castelo. À saída do parque, do lado esquerdo, existem uma série de tascas de mal-ajambradas, frequentadas por bêbados crónicos, operários a deixar o fígado destilar a sua dose diária de esquecimento, empurrando o vinho com pataniscas oleosas. Poiso de esquecidos pela sorte que se unem como se ouvissem o apelo de uma longínqua trompa de Rolando. Numa das últimas portas, prostitutas encostadas à porta, vendendo amor para consumar numa pensão manhosa estrategicamente colocada em cima do tasco.

 

Uma rapariga chamava a atenção, crioula com cheiro a ilha longínqua, alta, pernas compridas, elegante, olhos rasgados e lábios pequenos, uma mescla racial bela e exótica como as moças de Cabo Verde ou S. Tomé. Um dia, sorriu e disse-me adeus. Dentro do carro, levantei ligeiramente a mão do volante num cumprimento tímido. Como cliente, um engravatado era uma impossibilidade tão grande como a Disneylândia ser ali ao fundo do jardim de S. Lázaro. Durante meses, diariamente, ela sorriu e cumprimentou, eu disse um tímido «Boa Tarde».

 

Hoje, ao passar pelo local, recordei-me dela. Da teia de cumplicidades que se estabelece entre seres humanos que nunca trocaram mais de uma palavra, do seu ar de trópicos, da pele escura e dentes brancos, sorriso entre o matreiro e infantil. Onde quer que estejas, morena, desejo-te a maior sorte do mundo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

4 comentários

De Efeminúsculo a 07.07.2014 às 16:19

Olá, Fernando! Adorei o seu "relato." Acontecem-nos, tantas situações parecidas, que marcam momentos e nem se sabe, se pelo caricato, pelo "especial," se tornam dentro do inusitado, (que nos arrasta para um imaginário paralelo) que no fundo se torna hábito e nos agrada e nunca esquece. 
A sério! Sem fazer muita ideia, onde ficará mesmo esse local, revi-me (não dentro do carro, ou ao lado dela) mas de parte, a ver-vos, como uma espectadora encantada e enternecida. E mesmo sem a conhecer (ou a si, pessoalmente) envio-lhe também votos de sorte e um beijo. Ela merece! E obrigado por este bocadinho de magia. Para si boa semana e também para todos os seus!

De Fernando Lopes a 07.07.2014 às 18:19

Guardamos afectos improváveis, não é?

De golimix a 07.07.2014 às 19:51

Prostitutas nas ruas do Porto era habitual. Triste e frequente. Julgo que assim  continuará. E é com pena que digo que a sorte às vezes lhes passa ao lado...

De Fernando Lopes a 07.07.2014 às 20:37

Verdade, mas esta «estória» é singular, até ternurenta, sobre laços invisíveis e improváveis que se estabelecem entre seres humanos, independentemente de tudo o que os rodeia. 

Comentar post

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback