Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A pergunta.

por Fernando Lopes, 23 Fev 15

 

Chegara àquela idade em que lhe ocorria, com crescente intensidade, uma pergunta de uma simplicidade tão avassaladora que não tinha como a enfrentar. Dava por si a perguntar-se se a sua vida valeria a pena, se alguma vez valera a pena. Era uma pergunta, desconfiava ele, que assolava todos os homens a dada altura; perguntou-se se os assolaria com uma força tão impessoal como o assolava a ele. A pergunta acarretava uma tristeza, mas era uma tristeza geral que (pensava ele) pouco tinha que ver consigo ou com o seu destino em particular. Nem sequer tinha a certeza se a pergunta surgia das causas mais imediatas e óbvias, daquilo que a sua própria vida se tornara. Provinha, julgava ele, do acumular dos anos, da densidade de acidentes e circunstâncias, e do que aprendera sobre eles. Tirava um prazer cruel e irónico da possibilidade de o pouco que aprendera o ter levado a essa certeza: que, a longo prazo, todas as coisas, incluindo a aprendizagem que lhe permitia chegar aquela conclusão, eram fúteis e vazias, e por fim reduziam-se a um nada que não conseguiam alterar.

  

John Williams, «Stoner»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

10 comentários

De golimix a 23.02.2015 às 21:38

Profundo...

De Fernando Lopes a 23.02.2015 às 22:09

Não gosto muito de falar sobre os livros que leio porque não sou crítico literário, mas é um romance sobre um obscuro professor universitário e a sua vida, igual à de tantos nós, triste, monótona, cheia de enormes obstáculos e pequenas vitórias. Escrito com melancolia profunda e uma simplicidade que roça a perfeição. 

De golimix a 23.02.2015 às 22:22

Ah! Esqueci de te dizer que dei fim à minha noveleta Image

De Fernando Lopes a 24.02.2015 às 00:08

Eu sei! Tenho acompanhado. :)

De golimix a 24.02.2015 às 08:29

Image

De Anónimo a 23.02.2015 às 23:40

De Fernando Lopes a 24.02.2015 às 00:13

O meu professor de lógica, o professor Sardo, um sobredotado, sintetizava este percurso de autoconhecimento com o seu humor peculiar: «Estudei numa das melhores universidades do mundo (Sorbornne ), tive alguns dos melhores mestres do mundo, estudei toda a vida. Não me serviu para NADA, não sei NADA, não sou NADA!». 

De bloga-mos a 24.02.2015 às 09:43

Um poeta a quem faço o favor de ser meu amigo contemplando a paisagem Duriense disse " penso logo xisto"... 

De Fernando Lopes a 24.02.2015 às 11:56

Um pensamento sólido, diria ... 

De bloga-mos a 24.02.2015 às 15:32

Laminoso tal como as geniais coisas que o moço escrevinha...

Comentar post

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

  • JOSÉ RONALDO CASSIANO DE CASTRO

    O Pretinho do Japão é citado, como profeta, em Ram...

  • Anónimo

    Quando a sorte é maniversa nada vale ao desinfeliz...

  • M Manel

    Só agora vi a mensagem anterior - note-se que quem...

  • M Manel

    Uma ajuda... Arranja aí uma base para eu poder de...