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700

por Fernando Lopes, 19 Abr 15

refugiados.jpg

 

O número choca não pela enormidade de vidas perdidas mas pelas esperanças que com elas naufragaram. A europa – assim, com letra pequena – do bem-estar e do estado social manifesta-se incapaz de apoiar esta vaga de refugiados de guerra, e é disso que se trata. Nenhum comissário, dirigente, líder europeu, se pode dizer impotente nesta UE que subsidia vacas e se manifesta indiferente perante vidas humanas. Aprendi que neste continente as tragédias são gradadas em função da cor da pele das vítimas. Que 100 mortos loiros valem mais que 1.000 africanos vítimas de ébola ou 700 árabes fugidos.

 

Eu, que pela morenitude da pele, pelo castanho esverdeado dos olhos, certo estou que sangue moiro me corre nas veias, só vejo pessoas. As que fogem da guerra e as outras, sentadas nos seus sofás, comando de TV na mão, indiferentes à morte alheia.

 

Duas ou três linhas nos jornais, nada mais. Enquanto seres humanos, solidários e empáticos, já estamos todos mortos, só ainda não reparamos no funesto evento.

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15 comentários

De G. a 19.04.2015 às 19:42

Ando a lê-lo (último do Rentes de Carvalho) e lembrei-me deste dia, quando li o seu texto. Perdoe-me o abuso, mas transcrevo-o aqui.
«Quarta-feira, 30 de Junho - Kosovo. As atrocidades da guerra e da depuração étnica. Quase na nossa vizinhança -  que são duas horas de voo? - e contudo tão afastado do nosso interesse. Os horrores do genocídio  servidos na televisão entre um desastre na estrada - três feridos - e o aumento espectacular  das cotações da bolsa. Para os próximos quatro dias as previsões meteorológicas são de tempo soalheiro e temperaturas a rondar os vinte e três graus. Jantamos, discutimos, fazemos planos de férias, dormimos o sono dos bem-aventurados. Solidariedade? Claro que sim, sentimos. Durante os minutos que passam no ecrã os rostos dos mortos, dos torturados, dos fugitivos, dos que perderam lar e família. Abanamos a cabeça, descrentes, dizemos que é terrível, não se compreende que no mundo em que vivemos possam acontecer tragédias assim. Infelizmente, o mundo em que vivemos pouco mais longe alcança que a nossa porta. Na melhor das hipóteses a nossa rua.»



Abraço

De Fernando Lopes a 19.04.2015 às 21:29

G.,


Se o fenómeno era compreensível nos séc. XIX ou XX, hoje, na era da informação global, é autismo civilizacional. Recordo com choque os doentes de ébola VIP, transportados em avião, enquanto centenas de pretos morriam abandonados à sua sorte porque eram pretos, num país pobre.


Lateralmente, sou um admirador incondicional de mestre Rentes, com quem já tive o prazer de privar duas ou três vezes. Além de um enorme escritor é um ser humano encantador, de uma cortesia, simplicidade, e despretensiosismo que já não é deste tempo.

De bokeh a 19.04.2015 às 22:37

é tudo verdade o que diz mas quanto mais penso no assunto menos soluções consigo vislumbrar....a falta de humanidade, a corrupção, a riqueza mal distribuída, os ditadores, a fome, as doenças, etc, redundam nestes episódios.
contudo, se fosse ao contrário, acha que teriam piedade de nós?
a verdade é que milhares de anos de civilização não mudaram os nossos instintos animais e o "cada um por si" continuará a ser o lema dos humanos!

De Fernando Lopes a 19.04.2015 às 23:06

É uma tarefa humanitária gigantesca, mas que tem de ser levada a cabo, sob risco de perdermos um bocado da nossa humanidade em cada um dos que se afogam, se é que não a perdemos já. Tu, como fotógrafo, tens uma noção «visual» do drama mais apurada que nós. O que sentes ao ver aquelas imagens? 

De bokeh a 20.04.2015 às 22:20

é impossível ficar indiferente a estes dramas, mesmo sendo bombardeados diariamente com desgraças de semelhante calibre.
sem dúvida que temos de acudir estas crianças, mulheres e homens que estão entre a espada e a parede....ou morrem (à fome ou dizimados pela guerra), no país deles ou, então, arriscam uma perigosíssima travessia marítima mas que, correndo bem, a parede cai e ficam libertos para....viver.
no entanto, do outro lado (ou sabe-se lá de que lado!!) muitos estão a enriquecer às custas deste negócio.
pergunto....
> vamos apenas abrir as portas e fazer serviço humanitário?
> se as medidas que se tentarem tomar para acabar com os traficantes não surtirem efeito, até quando poderemos manter esta situação?
> sabendo os traficantes que nós estamos com barcos no lado das águas do mediterrâneo europeu à espera que os barcos apareçam para resgatar aquelas almas desamparadas, não irão eles ainda multiplicar o negócio?


foi pena que os media e a sociedade civil não se tenham pronunciado quando a missão dos italianos para controlar estes acontecimentos cessou....é o costume, tem de haver mortos para se tomarem medidas e agora faz-se qualquer coisa por mais uns meses e depois volta tudo ao mesmo.


isto só acontece porque "quem está do outro lado" sabe que deste está uma europa sem capacidade de liderança e incapaz de tomar decisões firmes e, involuntariamente, arrasta milhares para esta desgraça.


gostava de ver a europa com outra atitude e que ao mesmo tempo ajudasse a desenvolver aqueles países....isso resolveria em grande medida este tipo de problema.


peço desculpa pela extensão do texto!
p.s.: não sou fotografo...mas gostava de ter sido ;)

De Fernando Lopes a 20.04.2015 às 23:15

É um mundo cão, meu caro. NMHO o problema da ascensão do EI, a coberto de uma guerra religiosa, é também - talvez sobretudo - um guerra pelo controlo do petróleo, a única força capaz de fazer tremer o ocidente. 
A maioria das armas que matam na Síria, Iraque e pelo mundo árabe fora são de origem russa e americana, embora também as haja europeias. Quem lucra com isso? Hoje, pateticamente, um italiano vociferava contra os «engajadores» que faziam milhões de euros. É mais ao menos que culpar o dealer da esquina pelo tráfico de droga. Esses são o fim da cadeia alimentar e os que ganham tostões no meio de biliões. 

De Fernando Lopes a 20.04.2015 às 23:55

Correcção: o sr. que se concentrava nas formigas que são os traficantes e se esquecia de tudo a jusante é um maltês de seu nome Joseph Muscat. 

De Ana A. a 21.04.2015 às 15:58

Pois é! Estamos sempre a ir ter contra a mesma parede: o dinheiro, com todas as sua formas miseráveis de opressão. Há seres menos sensíveis a ele, que só o querem para o estritamente necessário, e depois há os outros para quem o dinheiro é sempre pouco... Dessensibilização ao vil metal, precisa-se!

De Fernando Lopes a 21.04.2015 às 17:35

É da natureza de muitos nunca verem a medida do ter cheia q.b.
Nesta coisas a questão é sempre a mesma. Não estarão os estados a lucrar e posteriormente a ter ataques selectivos de consciência?

De Ana A. a 21.04.2015 às 21:17

Os ataques selectivos de consciência fazem parte da hipocrisia dos poderosos. O mundo cada vez me enoja mais. Antes assim, que não me vai custar deixá-lo.

De Fernando Lopes a 21.04.2015 às 21:28

Por amor de Deus faça o favor de não me roubar o lugar de depressivo de serviço. Os homens e os estados têm uma consciência quase nova porque lhe dão pouco uso. (já não sei quem, escreveu algo semelhante)

De golimix a 22.04.2015 às 17:08

Fernando que podemos nós, uma pequenap poeira nesta imensidão de areia (metáfora em honra do teu deserto) fazer?
Podemos votar com conciência. Podemos fazer algo a quem sofra bem ao  nosso lado. E mais? Contra esta gigantesca maleita o que faremos nós?  

De Fernando Lopes a 22.04.2015 às 19:52

Escolher representantes dignos é certamente um bom passo. Empatizar com os migrantes e ter a noção de que poderíamos ser nós, também é fundamental. 

De pimentaeouro a 22.04.2015 às 22:26

O que separa o Norte de África e o Próximo Oriente da Europa não é o Mediterrâneo, são cem anos de atraso económico e civilizacional.

De Fernando Lopes a 22.04.2015 às 23:26

Questiono-me porque é que civilizações outrora pioneiras estagnaram no tempo. Encontro fraca resposta e mais dúvidas que certezas.

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