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Instantâneo.

por Fernando Lopes, 1 Jan 14

Rotunda da Boavista, hora de almoço. Um velho sem-abrigo, gorro sobredimensionado, ar franzino e longas barbas, dentes amarelecidos pela puta da vida. Está sujo de miséria, desleixo, má sorte. Todos os males lhe abraçaram os ossos, e no entanto, sorri. Um sorriso quase alegre, quase infantil. A seu lado um velho carrinho de bebé, dois pequenos sacos de plástico, tudo o que suponho serem os seus pertences. Dispôs no chão uma manta amarela onde brincam dois cães de pequeno porte. Enquanto os canitos se mordiscam numa brincadeira inconsequente, fala-lhes com ternura, afaga-os. Paro dois ou três segundos e meto a mão ao bolso para tirar o telemóvel e fotografar. Vistos de costas, são um postal ao afecto. Impossível violar este momento só deles. Em vez disso escrevi este instantâneo para arquivar no álbum da memória.

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6 comentários

De henedina a 01.01.2014 às 15:38

Subiu da Galiza a rotunda da Boavista? Que must. Exercício logo no 1º dia do ano.
Assim a sua mulher pode ficar só com a parte boa, ser querida ;) eheheheh

De Fernando Lopes a 01.01.2014 às 19:47

Isto foi ontem. Trabalho e vivo perto, vou observando toda a galeria de personagens que por ali circulam. Esta enterneceu-me.

De Alice Alfazema a 01.01.2014 às 16:13

Olá, Fernando! Que este ano traga mais conforto a estas pessoas e também mais consciência social pelo que se passa neste nosso mundo, será talvez um sonho louco, mas afinal quem sonha são os loucos, assim como quem também sorri perante a sua própria miséria.

Um bom ano para ti, com tudo o que desejares, muita coragem e imaginação, paciência e determinação.

Um abraço.


De Fernando Lopes a 01.01.2014 às 19:50

Conforto duvido, se despertassem consciências adormecidas já não seria mau. Da cena ressaltou mais a ternura que a miséria, felizmente.

Uma grande ano para ti, continua o teu excelente blogue, que eu sou cliente lá batidinho.

Um beijo grande.

De golimix a 03.01.2014 às 14:44

Li há uns dias uma reportagem sobre o drama destes sem abrigo que não querem abandonar os seus animais e não há resposta para abrigá-los a eles e aos únicos que lhes dão alento.

De Fernando Lopes a 03.01.2014 às 19:07

A minha mulher falou-me disso a propósito deste post. Compreendo-os bem, deve ser difícil abandonar os únicos que nos amam incondicionalmente.

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