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Objectos.

por Fernando Lopes, 21 Nov 13

Amanhã vou testemunhar a trasladação dos restos mortais da avó para um ossário. É um momento difícil, a avó foi quem me criou, apoiou e mimou durante trinta anos. Já passaram oito sobre a sua morte e não há um único dia que não me recorde dela, viva e bem viva na minha memória. Esta situação difícil trouxe-me à lembrança pormenores desconcertantes que me deixam possesso. O homem cria objectos que lhe sobrevivem, e isso mexe comigo. Irritou-me ver que um pequeno pente de plástico do pai ainda anda lá por casa, risonho e incólume, vinte anos após a sua morte. Vociferei quando o coveiro que desenterrou a ossada do avô apareceu com um punhado de canetas de tinta permanente com que tinha sido enterrado. Na atrapalhação vestimos-lhe um casaco em que tinha as suas adoradas canetas de tinta permanente. As putas das canetas sobreviveram ao avô. Há algo que mais demonstrativo da nossa insignificância que isto?

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14 comentários

De aurora a 21.11.2013 às 21:29

Um abraço, do coração.

De Fernando Lopes a 21.11.2013 às 21:55

Obrigado, Aurora. Não é fácil, mas temos de tratar com alguma solenidade os nossos.

Um enorme abraço.

De Alice Alfazema a 21.11.2013 às 21:47

eu acredito que a energia não morre, por isso continuas pensando nela, nele, o que acontece é que os objectos são palpáveis enquanto que a energia tem outra forma.

Um abraço.

De Fernando Lopes a 21.11.2013 às 21:58

Não tenho nenhuma teoria sobre isso, excepto a de que o amor, esse, não morre. Se entendes essa energia como amor, estou contigo.

De Alice Alfazema a 21.11.2013 às 22:30

De Ana A. a 21.11.2013 às 22:39

Tenho por hábito, quando tenho que tomar alguma decisão difícil, ter em conta a efemeridade da nossa passagem por aqui, por contraste com os simples objectos que nos servem. Quanto à energia, estou com a Alice! A energia cósmica, da qual somos simples partículas.

Abraço

De Fernando Lopes a 21.11.2013 às 22:48

É um paradoxo que me custa a digerir, que uma garrafa de plástico resista 500 anos, muito mais que o homem que o inventou. Obrigado pela energia e boas vibrações.

Abraço.

De Anónimo a 22.11.2013 às 14:30

Os nossos entes querido estão vivos enquanto nos lembrarmos deles e que conheceu a tua avó nunca mais na vida a esquece.
Bj e bom fim de semana
MM

De Fernando Lopes a 22.11.2013 às 18:57

Fico sem palavras.

Obrigado e beijo.

De alexandra a 22.11.2013 às 20:03

A tua avó não está aqui, mas está contigo; e os objectos que sobrevivem a quem já se foi, como as canetas do teu avô, entoam a beleza de quem os toma. Somos tempo e a tua avó habita com generosa abundância a substância do mesmo através da tua memória. Um sorriso, porque acabo de ler um livro de Alejandro Gándara, "Las puertas de la noche ", e volto-te às andanças literárias por parecer-me que presta à ocasião. E diz já no Epílogo:
"Si volviera el que se ha ido, nos pondríamos muy contentos. Sin embargo, ya no tendríamos su recuerdo, pues no lo necesitaríamos. Perderíamos su cara cuando era invisible, sus palabras cuando no hablaba, la mano que lo tocaba cuando no estaba ."...
e já paro, ha ha . Um abraço.

De Fernando Lopes a 22.11.2013 às 20:13

Curvo-me humildemente perante citação tão esmagadora. Diria que este escritor, que não conheço mas vou já pesquisar, definiu a essência da saudade, não achas?

Abraço.

De alexandra a 22.11.2013 às 23:07

A saudade não deve de estar longe, acho que busca um canto consolador à melancolia, à tristeza, à dolorosidade e quanto leva de intrínseco a pérdida.

De Fernando Lopes a 22.11.2013 às 23:26

Deixo um comentário musicalmente belo.
http://youtu.be/IvLIDeXzhZ0

De golimix a 23.11.2013 às 18:53

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