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Sem ponta de ficção.

por Fernando Lopes, 25 Jan 13

O segundo caso deu-se em Portugal, também numa estrada, dessas em que laboriosas curvas sobem e descem as encostas do monte. Embora a carreira tenha paragens certas, nenhum chofer deixará de parar a quem lhe acene.


O dia em que num descampado apareceu um homem a pedir passagem, e porque a camioneta já ia cheia, disse-lhe o chofer que a única solução seria viajar no tejadilho. Para compensar o incómodo só lhe cobrava meio bilhete.


O homem subiu, achou curioso ver um caixão de defunto, e acomodou-se entre as malas e os embrulhos, procurando a melhor maneira de se defender do frio. Quando mais tarde começou a chover, diz ele que hesitou um momento por lhe parecer de mau agouro, mas finalmente abriu a urna e deitou-se dentro. À cautela, não fosse a tampa fechar-se, tomou o cuidado de lhe pôr uma caixa de fósforos a servir de calço. Supõe que o tomou então uma modorra, porque só vagamente se recordava de ter sentido a carreira parar e de ouvir que alguém subia. Mas com a ronceirice do andamento e a monotonia da chuva, acabou por fechar os olhos.
O chofer tinha de facto parado para outro viajante, e por não haver ainda lugar informou-o também de que o remédio seria subir para o tejadilho.


Afinal - disse ele - não vai sozinho. Já lá está outro.


Reconstruindo depois o que aconteceu, sabe-se que o novo passageiro ao ver o caixão tirou com respeito o chapéu e se sentou perto, indiferente ao frio e à chuva de que nada o abrigava. Pelo menos foi assim que, cada vez vez que acordava da sua sonolência, o "morto" o viu através da frincha.


Finalmente, desejoso de mover o corpo dorido pela imobilidade a que o obrigava o esquife, e tendo a impressão que o tempo aclarara, estendeu o braço para fora e, brincalhão, perguntou numa voz soturna: - Ó camarada ainda chove?
Ao ver que o defunto mexia e o interrogava num tom de além túmulo, a reacção do homem foi fulgurante: atirou-se abaixo da carreira. Quebrou os ossos, mas escapou com vida. O outro também nada sofreu. Mas o chofer, assustado ao ver o passageiro cair, perdeu a direcção a atirou com a camioneta para um barranco. Quatro mortos.


Bem sei, não deve a gente rir-se da desgraça alheia, mas  que hei-de eu fazer?

 

 

 

J. Rentes de Carvalho, Mazagran, páginas 175-177

 

Reproduzido com permissão do autor, que com a habitual cortesia, me informou ser este episódio absolutamente verídico, passado algures na estrada velha entre Lamego e a Régua. Daí ter usado palavras suas, "sem ponta de ficção", para renomear esta estória.

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7 comentários

De Uma Rapariga Simples a 27.01.2013 às 21:50

Bem, que susto deve ter apanhado o pobre homem!
Parecem histórias como as cá da terra. Qualquer dia, quando não me der preguiça, ainda as partilho. :)

De Fernando Lopes a 27.01.2013 às 21:59

Quem tem histórias como esta não tem o direito de as guardar na gaveta. Fico à espera!

De Uma Rapariga Simples a 27.01.2013 às 22:02

Já tentei. Mas depois parecem-me tão sem graça. Acho que só sei escrever sobre coisas tristes.

De Fernando Lopes a 27.01.2013 às 22:05

Não concordo. E como prof. sabes bem que o treino melhora o domínio da língua. Faz o favor de insistir, OK?

De Uma Rapariga Simples a 27.01.2013 às 22:06

Está bem, está bem!! (agora parecia os putos quando os mando reescrever pela enésima o mesmo texto lol)

De Fernando Lopes a 27.01.2013 às 22:09

E o texto não melhora?

De Uma Rapariga Simples a 27.01.2013 às 22:14

(suspiro) Às vezes...

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