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Levar a chuva comigo.

por Fernando Lopes, 20 Dez 12

Vejo-me com sete ou oito anos. Desde a 1ª classe que a avó me tinha ensinado o caminho para a escola. Acompanhara-me meia dúzia de vezes. Quando verificou que era capaz de ir sozinho fiquei por minha conta. Subia Álvares Cabral e parava na Praça da República para admirar os "TinTins", "Falcão" e "Mundo de Aventuras" na tabacaria do Sr. Martins. Mais tarde, convencê-la-ia a dar-me os 5$oo ou 10$oo para os comprar. Nos Mártires da Liberdade pasmava perante as fabulosas bolas de berlim na pastelaria do Sr. Neves, pai do Neves da 4ª classe. À vinda para casa estava sempre um minuto ou dois na conversa com o farinheiro, que me conhecia de comprar milho para as galinhas do quintal. Os Mártires tinham imensos bueiros, e em dias de chuva adorava ficar ali, onde a água escorre, a senti-la molhar os sapatos e os pés. Porque tal acontecia com demasiada frequência, fui presenteado com umas galochas compradas na "Casa dos Plásticos". Em dia chuvoso, fiquei frustrado: aqueles botas não me permitiam sentir a água a, primeiro humedecer e depois gelar os pés. Fez-se luz. Ajoelhei-me e a água entrava pelo cano ficando dentro das botas. Tinha um aquário nos pés. Levei o ralhete da minha vida e prometi nunca mais repetir a façanha, mas ainda hoje não entendo muito bem porque é que a matriarca se zangou por levar a chuva comigo.

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9 comentários

De Daniel Marques a 20.12.2012 às 01:47

«Tinha um aquário nos pés.»
Muito bom! Ah! Ah!

De Fernando Lopes a 20.12.2012 às 07:58

Sem peixes! :)

Abraço.

De Ana A. a 20.12.2012 às 03:10

Gosto muito destas suas descrições de episódios da infância. Eu nunca gostei de ter os pés húmidos da chuva, muito menos encharcados, mas a minha filha quando pequena adorava enfiar os pés nas poças, aliás, ainda agora tenho que a chamar à atenção.

Já agora, estas suas lembranças são espontâneas ou o Fernando põe intenção em repescá-las? Até a linguagem recua ao passado! Bueiros ?! já não se usa, Fernando, agora é mais valetas. ;)

Abraço

De Fernando Lopes a 20.12.2012 às 08:00

É espontâneo nas recordações e na linguagem. A minha vida era assim. Provavelmente estou a ficar com a memória de longo prazo mais apurada, sinal de senilidade.

Abraço.

De bibónorte a 20.12.2012 às 18:26

Aqui pela parvónia continuamos a utilizar a palavra bueiros.
Ao lê-lo, revejo-me a fazer o mesmo quando me dirigia para a escola feminina.
Abraço

De Fernando Lopes a 20.12.2012 às 21:16

Acho graça a estes arcaísmos que vão caindo em desuso. Uso-os frequentemente e são contra-corrente de um modo de falar cada vez mais normalizado, carago! Já agora vou chamar o picheleiro e fritar na sertã. :)

Abraço.

De Uma Rapariga Simples a 22.12.2012 às 11:03

Ter um aquário nos pés é bom no verão, no inverno não gosto nada. Sou das que detesta ter os pés frios e húmidos, prefiro sentir a chuva a molhar-me as bochechas. :)

De Fernando Lopes a 22.12.2012 às 11:10

Sou Peixes, adoro água em qualquer circunstância. :)

De Uma Rapariga Simples a 22.12.2012 às 11:13

Não percebo nada de astrologia.

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