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a ideia permanece.

por Fernando Lopes, 29 Nov 12

Uma vez tentei o suicídio, ingerindo antidepressivos e uma dose cavalar de álcool. Uma experiência fracassada, uma vez que acordei amarrado à cama com umas correias de couro nas mãos e pés e um tubo enfiado na pila. Andei a fazer chichi a medo durante dias e a defecar algo parecido com carvão. À saída fui entrevistado por uma psiquiatra ou psicóloga entre o maternal e o “vamos lá a despachar”. Nunca mais tentei, não por medo, mas por ter sido pai. Sou dotado de sentido prático, sei que para lá do luto e da ausência, a minha mulher ficaria melhor sem mim. A filha é a única a quem, nos dias em que a minha alma se transforma numa massa informe e negra, sinto que posso fazer alguma falta. Arrasto comigo uma sempre presente sensação de fracasso, inutilidade, perda. Não pretendo comiseração ou palavras reconfortantes, apenas explicar que, para quem o desapego chega ao ponto de querer morrer, a ideia permanece. Sempre. Apenas nos habituamos a ignorar a sua presença.

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14 comentários

De O Abominável Careca a 29.11.2012 às 22:40

Boas,


Sem querer dar um ar de entendido em psicologia ou algo similar, o acto de suicídio revela simultaneamente um acto de cobardia e extrema coragem! Respeito todos aqueles que o cometem com razões válidas e aceito a decisão daqueles que o fazem em desespero de causa, embora por muito graves que sejam as razões ou os propósitos a vida deve ser celebrada em prejuízo da morte!
E em jeito de brincadeira, nós por cá temos justificações de sobra para cometer homicídios e não suicídios!

Um fim de noite descansado e amanhã outro dia nascerá com a certeza de que tudo faremos para que seja melhor que o anterior, mesmo contra todas as adversidades internas ou externas...

Abreijos fraternidade cá para lá!

De Fernando Lopes a 29.11.2012 às 22:56

Sabes, às vezes dá vontade de desistir. É mais o dormir para sempre que seduz, que a própria ideia da morte. Parafraseando o grande Carlos Tê "Toda a alma tem uma face negra, nem eu nem tu fugimos à regra".

Abraço

De bibónorte a 29.11.2012 às 22:47

Eu também já vomitei e defequei a tal "coisa" preta.
E também fui à tal "entrvista". Aliás, continuo a ser "entrevistada" desde então.
E,sim,a ideia permanece."Apenas nos habituamos a ignorar a sua presença"
Abraço

De Fernando Lopes a 29.11.2012 às 22:58

bibónorte, honra-me com a sua partilha.

De Uma Rapariga Simples a 29.11.2012 às 23:16

Nunca o tentei, mas desejei muitas vezes morrer. Este ano foi cheio de dias assim, em que desejei morrer, porque suportar mais um dia a ausência de uma pessoa que me era querida e que decidiu morrer é das dores mais terríveis que se pode sentir.

Pensava, ingenuamente, que já sabia muito de perdas. Até àquele nefasto dia em que descobri que não. Ninguém fica melhor sem aqueles que morrem por livre escolha, por muito maus que sejam. Mas há uma parte cá dentro que morre nesse dia. O que vem depois disso é o corpo a habituar-se a viver sem ambos.

Talvez o Fernando tenha de mudar a perspetiva e juntar os ganhos, por mínimos que sejam, para dar conta de um valor que desconhecia.

Não lhe dou 'conselhos' de espécie alguma, digo-lhe aquilo que eu mesma ando a tentar fazer todos os dias, a mudar a forma como me vejo e a sacudir esse lodo estranho.

De Fernando Lopes a 29.11.2012 às 23:57

É um acto individual que acarreta sofrimento para terceiros, nisso estou de acordo consigo. Mas, a vida ensinou-me que o tempo, essa grande esponja, tudo amacia, inclusive os sentimentos agudos de perda como o seu. A sua dor é recente, e verá que, lenta mas inexoravelmente será, não apagada, mas dissolvida.
E, agradeço-lhe como fiz como à bibónorte , porque é preciso muito coragem para abrir a alma.

De alexandra a 29.11.2012 às 23:37

Olá Fernando!

Uf, essa "experiência fracassada" deveu resultar bastante insofrível (ando sensibilizada estes dias com isso do tubo e as correias).
Nunca esquivo encarar de frente essa palavra suicídio e tinha que meter aqui o "bedelho".
Careço de qualquer posição acerca do suicídio, pois dou-o por compreendido. Uns quantos autores de suicídios anunciados como Henri Roorda , Albert Caraco , Stig Dagerman , etc...em todos eles encontrei a coerência nos seus respectivos actos de suicídio. Também acho que a ideia, em si, não tem porque ser destrutiva e pode, até, ajudar a compreender a vida.
Um abraço.

De Fernando Lopes a 30.11.2012 às 00:08

É uma espécie de bondage da algáia ! :) Essa sua perspectiva é uma abordagem que me interessa, a morte não como fim, mas como consequência de uma depressão contínua. Comprei hoje "Diário de Inverno" do Paul Auster , uma reflexão sobre a vida e o envelhecimento. Para um fascinado pela diarística como eu, acho que vai ser um maná para estas reflexões e confidências que partilhamos.

Abraço

P.S. - Tenho de ler sobre David Foster Wallace , enquanto autor e depressivo. Mas não sei é se tenho estaleca para as 1.200 páginas de "A Piada Infinita"!

De Cláudia Neto a 01.12.2012 às 11:42

Aqui a “je” não é nada dada a declarações de amor… mas que se “Fonix” que já me dou ao prazer de fazer e dizer o que me dá na real gana….
Sei que serve do que serve… mas… adorei conhecer-te aos meus 20 anitos e fizemos questão de construir uma amizade...aos meus 30 continuavas no meu coração, aos meus 40 vales o ouro !!!

Os sorrisos, as gargalhadas, as cumplicidades, mesmo que não sejam alimentadas com a frequência deseja, jamais serão apagadas do meu bem-querer.


P.S. – Pq me apeteceu!

De Fernando Lopes a 01.12.2012 às 12:08

A amizade também é uma forma de amor, miúda!

Um grande, grande beijo para ti e uma abraço apertado prós gajos! :)

De Carlos Azevedo a 03.12.2012 às 02:09

Fernando,
vivem muitas ideias em nós, algumas das quais contraditórias... Desde que a ideia de seres pais prevaleça, está tudo bem.
Grande abraço!

De Carlos Azevedo a 03.12.2012 às 02:23

Nem de propósito, publiquei hoje esta canção no meu blogue: http://thecatscats.blogspot.pt/2012/12/blog-post_3.html.
É mesmo assim, Fernando -- e se não é, tem que ser!
Fica com mais um abraço!

De Fernando Lopes a 03.12.2012 às 09:25

Carlos,

Sei bem que tens razão. Também sei, porque já te li, que, às vezes, e por um momento, o nosso lado negro parece mais forte. A opção é "Escolher Viver", como li num blogue de um tipo que muito aprecio. ;)

Abraço.

De Carlos Azevedo a 03.12.2012 às 16:52

;-)

E como disse um tipo ainda mais impecável, «o caminho faz-se caminhando» -- em frente, Fernando, sempre em frente, porque ao olhar para trás só vemos o que já não volta.

Abraço.

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