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Não é vergonha estar desempregado.

por Fernando Lopes, 19 Nov 12

Todos conhecemos alguém que recentemente perdeu o trabalho. A extinta classe média não se adaptou à “normalidade” da situação. Fala-se que fulano ou sicrano ficou desempregado como a situação fosse sinónimo de incompetência. Tudo é dito em surdina, para afastar a peçonha, num misto de comiseração e medo. Isto é particularmente notório nos que ainda não se aperceberam da precariedade em que vivemos, que acalentam ilusões de uma normalidade há muito perdida.

 

Vivemos um estado de excepção em que, como agora é vulgar dizer-se, há apenas uma linha a separar a aurea mediocritas e a indigência. Não há que ter vergonha de ser despedido, este duro facto não é sinal de incompetência ou preguiça. Muitas vezes não são dispensados os piores, antes os que se recusam a jogar pouco limpo, a engraxar o chefe ou o patrão, que tomaram posições políticas que sabiam ser de alto risco.

 

Enquanto este estigma não for superado continuaremos a assistir a chefes de família de saem de manhã para um trabalho que já não têm, a casais que não assumem o desemprego de um dos seus membros, a pais que não expõem a situação familiar de forma clara e inequívoca aos filhos. Estar sem trabalho não é vergonha, pode acontecer a qualquer um de nós. Quanto mais depressa se encarar a realidade mais rapidamente estaremos preparados para tentar superar esse momento negro.

 

Tudo o que desejo com este post é expressar solidariedade a quem está sem trabalho, dizer-lhe que não está só, que não é menos digno, capaz, humano. Que o meu coração e o de muitos está com ele, que o mundo não se divide entre quem tem trabalho e quem não tem. Estamos todos no mesmo barco.

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11 comentários

De Cláudia Neto a 19.11.2012 às 12:21

Nem mais amigo! nem mais....!

De Fernando Lopes a 19.11.2012 às 13:07

:)

De Uma Rapariga Simples a 19.11.2012 às 12:33

Eu sou uma empregada precária que passa alguns recibos verdes. Não sei dizer qual situação me envergonha mais, se esta, se o desemprego por si só. O bom é que não tenho de me apresentar quinzenalmente para fazer prova de vida, como se fosse uma condenada a planear evadir-se, sem pagar o que deve.

De Fernando Lopes a 19.11.2012 às 13:09

É um regime de "apresentação periódica". Nada nem ninguém pode envergonhar quem luta com e por dignidade.

De Ana A. a 19.11.2012 às 17:49

Agradeço pela parte que me toca.

Como sabe, pertenço à casta dos DLD, que foram substituídos por jovens licenciados precários com ordenados inferiores, isto já em 2001...o meu patrão já era um visionário! Chamou-lhe reestruturação da empresa e extinguiu alguns postos de trabalho. Não o culpo de todo, pois pertencendo ao sector têxtil teve a concorrência feroz asiática, apesar de ter tratado de certificar a empresa (qualidade).
Vergonha não sinto, era o que faltava! Vergonha devem sentir os senhores organizadores deste "statu quo", a quem interessa, como já sabemos, o maior nr. de desempregados possível, para trabalhar a preço escravo, ou seja, por um tecto e pelas refeições.


Abraço

De Fernando Lopes a 19.11.2012 às 18:52

Há pessoas que se recusam a reconhecer perante os outros a condição de desempregado, uma espécie de "vergonha social", para mim incompreensível. E a Ana é um exemplo de resistência, dignidade e tenacidade.
Vergonha, de facto, devem sentir os desejam a "chinezificação" do mundo.

Abraço

De bibónorte a 19.11.2012 às 20:21

Já vivi essa experiência. O meu cara metade já esteve desempregado duas vezes. Complicado. Agora é o filho.
Um abraço a todos os que estão a passr momentos difíceis.E, como diz o Fernando, não há razão para ter vergonha.Era só o que faltava!
Abraço

De Fernando Lopes a 19.11.2012 às 21:22

É sempre bom ver alguém com capacidade de partilha. Ensina e dá força.

Abraço

De Carlos Azevedo a 22.11.2012 às 02:28

A minha resposta ao que escreves está aqui: http://thecatscats.blogspot.pt/2012/02/um-caso-concreto-de-desemprego-tem-35.html. Excuse my french, mas vergonha têm de ter os filhos da puta que deixaram o país neste Estado - e não são poucos.

Grande abraço.

De Carlos Azevedo a 22.11.2012 às 02:30

Entretanto, e porque o tempo não pára, o grau de mestre já cá canta, penso no doutoramento e já tenho 36! :-)

De Fernando Lopes a 22.11.2012 às 08:12

É assim mesmo, Carlos. Resistir, sempre.

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