Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Já ninguém faz álbuns fotográficos

por Fernando Lopes, 3 Set 12

 

Na sala estão o avô, a avó e o pai, em pose orgulhosa, exibindo as suas melhores roupas. A fotografia é de 1936, e nesse tempo era assim que se conservavam e partilhavam as memórias. Com garbo e pose, uma família no seu melhor. Até finais de 60 era no fotógrafo, em estúdio e pelas mãos hábeis de um profissional que registávamos as imagens para a posteridade. É também dessa época o estranho hábito de por os bebés de perna escarrapachada a mostrar a masculinidade ao mundo.

As máquinas fotográficas democratizaram-se e adquiriram estranhos nomes como Instamatic, câmeras de bolso para amadores que permitiam o registo em ambiente familiar e natural, longe das poses e luzes de estúdio. Era com essa maravilha da técnica que fotografávamos os aniversários, baptizados, férias, fantasias carnavalescas e todas aquelas trivialidades que fazem a história das famílias. E sempre um momento de suspense aquando da revelação. Muitas saíam tremidas, em contra luz, desfocadas ou simplesmente inaproveitáveis. Guardávamos todas nuns envelopes amarelos, verdes ou azuis com dizeres como Kodak, Fuji ou Konica.

No inverno, nas longas noites chuvosas, o trabalho era a selecção e colagem dessas memórias em papel brilhante no álbum de família. Um festa em que se discutia o local e hora onde a imagem havia sido capturada, como estávamos diferentes, as recordações do verão anterior, que bem que ficava a prima em bikini, o amigo no picnic.

Depois vieram as imagens digitais, e se no início ainda as imprimíamos e mantínhamos o velho hábito de as colar num álbum, logo a tradição foi desaparecendo. Na fase seguinte eram apenas impressas e guardadas para segundas núpcias. Hoje já não imprimo fotografias e raramente as revejo. Deixou de haver suspense, a imagem está logo ali à mão de semear, pronta para ser manipulada, arquivada ou apagada. Tenho saudades dos álbuns, das estórias e do tempo em que a memória não era guardada em cartões SD.

 

P.S. - Após muita hesitação, resolvi colocar a foto referida no post. Porque as memórias têm rosto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

4 comentários

De Maria Alfacinha a 05.09.2012 às 15:30

Arrumar albuns digitais é uma actividade solitária, o que não me impediu de ter digitalizado tudo o que era fotografia que andava espalhada lá por casa. Algumas, mais estragadas, ainda aguardam tempo e paciência para serem reparadas. As mais recentes são apenas despejadas para o disco. Não há dúvida que tudo se tornou mais fácil e acessível mas perdemos sempre alguma coisa, né? :-)

De Fernando Lopes a 05.09.2012 às 16:25

Sou um tipo táctil. Adoro objectos (fotos, livros, CDs ) e manuseá-los. Também recorro ao arquivo digital, mas, Maria, o convívio e as memórias que se perderam neste processo de arquivar fotografias e outros, não são, na minha opinião , negligenciáveis.

De Sara a 06.09.2012 às 23:54

Encontrei este post por acaso e gostei imenso, porque me identifico completamente. Sinto falta de ver as minhas fotografias em papel, vê-las no computador não é de todo a mesma coisa. Por acaso sei de um site muito curioso e fiquei fã. Podemos compilar as nossas fotografias num álbum, só que em vez de sermos nós a fazer a montagem, é um designer deles. Vi alguns exemplos, gostei bastante e não achei nada caro.
Ah, o site é este: http://www.alboompic.com/
Cumprimentos

De Fernando Lopes a 07.09.2012 às 00:09

Conheço soluções idênticas (snapfish) mas temos de ser nós a fazer toda a montagem. Vou pesquisar, e muito obrigado pela dica, é ideal para preguiçosos como eu.

Comentar post

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

  • JOSÉ RONALDO CASSIANO DE CASTRO

    O Pretinho do Japão é citado, como profeta, em Ram...

  • Anónimo

    Quando a sorte é maniversa nada vale ao desinfeliz...

  • M Manel

    Só agora vi a mensagem anterior - note-se que quem...

  • M Manel

    Uma ajuda... Arranja aí uma base para eu poder de...