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Como tornar-se uma lenda

por Fernando Lopes, 2 Jun 12

O pai tinha alguns amigos que eram personagens fabulosas, desde um desenhador e cartoonista que assinava como Miranda, e que publicou centenas de cartoons nos anos 70 no JN, até ao Paulinho, 1,55 metros de energia, pertinácia e vontade em estado puro. Era loucamente são, um libertário e libertado, firme nas convicções e afectos e sobretudo um bocado apanhado. O Paulinho tornou-se numa lenda porque:

- Tinha um Vauxhall Chevette carrinha. Como em todos os carros dos anos 70, o espaço, em particular atrás, era coisa que não abundava. Aos domingos e a contragosto era "obrigado" a levar a sogra a almoçar. A senhora usava um penteado algures entre o carrapito e a Torre Eiffel, muito em voga à época. No apertado lugar traseiro, o obtuso penteado tocava no tejadilho. O Paulinho fazia questão de passar pelas piores estradas e seleccionava os melhores buracos de forma a que a estalagmite capilar da sogra estivesse reduzida em pelo menos 50% no momento da chegada ao restaurante. Divertia-se depois com os filhos a ver a mãe da mulher correr desenfreadamente para casa de banho para repor o penteado.

- Na rotunda da Boavista, atrás de um tipo que circulava a dez à hora, buzinou insistentemente. O tipo pôs a mão de fora e fez o tradicional gesto do passa-por-cima. O Paulinho passou. Deu-lhe uma traseirada valente, e disse "O Sr. não me disse para passar por cima? Eu passei. Agora vá-se foder, mande o carro para arranjar, e para a próxima pense duas vezes antes de se armar em engraçado".

- Engarrafamento caótico na feira de Custóias. O Paulinho irrita-se, encosta o carro, vai para um cruzamento e desenvolve a actividade de polícia sinaleiro. Estranhamente, os condutores obedecem e o trânsito começa a normalizar. "O que é que estás aqui a fazer, pá?", pergunta o pai. "Alguém tinha de ajudar a organizar esta merda. Agora circula e não chateies, que não tenho tempo para confraternizar".

- 25 de Novembro. O pai e mais dois amigos são chamados de urgência à sua casa. Acompanho-o. A mulher parecia verdadeiramente aflita. Estava com um serra mecânica e queria ir sozinho cortar as árvores da Circunvalação para "as chaimites dos fascistas não poderem circular". Na altura o R.I.P. era nessa artéria. Foram precisos três, muita paciência e algum músculo para o demover do revolucionário intento.

Temos de amar um gajo assim.

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2 comentários

De O Abominável Careca a 02.06.2012 às 14:38

Boas tardes,

Não me lembro deste personagem mas que realmente seria alguém digno de uma possível amizade, lá isso era...;)
Algumas "estórias" aqui relatadas fazem parte do minha memória outras nem por isso!
P.S.: E já agora só por curiosidade este indivíduo era amigo de quem?!

Abreijos e bom fds para todos aí em casa!!!

De Fernando Lopes a 02.06.2012 às 16:59

Era amigo do pai, e fazia parte da malta que circulava pela livraria da menina Ana em Sá da Bandeira. É natural que não te lembres pois na altura devias ter 6 ou 7 anos, um puto! ;)

Abraço

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