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arca salgadeira

por Fernando Lopes, 14 Abr 12

Era o único de origens rurais numa turma de citadinos. Gorducho, desajeitado, ruborescido, usava sempre um velho blazer quando o hype era ter um blusão de penas Duffy e umas Levi's.

 

Destacava-se pela diferença. E todos sabemos como os adolescentes são cruéis com os que são diferentes ou não se enquadram num tribo. Andava sempre sozinho, ninguém queria a sua companhia. Na altura existiam carteiras antigas, com tampo que levantava e uma base de madeira onde pousávamos os livros. Uma das brincadeiras favoritas era roubar os cadernos do vizinho de trás e coloca-los nos locais mais improváveis. Foi a galhofa da turma durante uma semana. No momento em que tomaram posse dos seus cadernos descobriram que cheiravam a salmoura. Foram passados por toda a turma, para "curtirmos um cheirinho a presunto".

 

Foi ridicularizado, acusado de dormir com presuntos, de comer chouriços e salpicões ao pequeno almoço. Não o gozei nem me solidarizei. Mantive uma prudente distância. Mas intrigado, passados uns tempos, não resisti a perguntar-lhe porque é que os cadernos dele cheiravam a "presunto". A resposta não poderia ser mais simples. Como não tinha secretária ou mesa disponível para estudar, fazia-o em cima de uma arca de madeira onde era conservada a carne de porco em sal. Os adolescentes podem ser estúpidos e maus. Por omissão, fui as duas coisas.

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