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Quando a cabeça brinca contigo.

por Fernando Lopes, 1 Nov 15

É facto conhecido que nos idosos a memória de longo prazo, por mecanismos certamente cientificamente explicáveis mas para mim desconhecidos, se torna mais vívida. Não esperaria aos cinquenta e dois anos estar a experienciar uma senilidade precoce. Certo é que nos últimos tempos velhas memórias me surgem com uma nitidez inexplicável. Tenho sido acometido de clarões de cenas antigas com uma proximidade assustadora. Desde pequenas coisas da infância, os mimos da avó, antigas e não tão antigas situações amorosas, estes flashes estão aqui, cada vez com mais frequência. Tenho recordado velhos amigos que faleceram em circunstâncias trágicas como se tivéssemos conversado ontem, num estranho movimento circular em que passado e presente parecem uma e a mesma coisa. Recordei o Ilídio, tragicamente falecido com uma overdose, o Mário e o Paulinho desaparecidos em acidentes. Estavam ali, vivos, presentes, como se o tempo, a sua morte trágica, fosse nada. Recordei a avó e os seus vivíssimos olhos azuis, subindo Álvares Cabral com as compras na mão e o habitual sorriso maroto; recordei cenas de amor adolescente, momentos de paixão em que o coração nos quer saltar peito fora; o pai no escritório, entre os seus livros, perdido entre as telas e pincéis que tanto amava.

 

Como diz a expressão inglesa «a minha cabeça prega-me truques», surpreende-me, torna o tempo uma insignificância. Senilidade? Saudosismo? Tempo de balanço? Não sei.

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