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Crise na medicina privada.

por Fernando Lopes, 27 Mai 14

Antes da crise conseguir consulta num médico especialista de nomeada era coisa para demorar de três a seis meses, às vezes um ano. Usava-se a famosa «cunha» ou marcava-se no términus de uma a consulta para o ano seguinte. Incapaz de fazer uma avaliação que não pessoal, noto que a procura pelos cuidados privados de saúde diminuiu a olhos visto. No meu cardiologista os doentes regulares já não precisam de se antecipar um mês na marcação, basta uma semana. Tornou-se mais fácil que pentear um careca. A empresa onde trabalho marca um check-up anual aos empregados, uma medida a que nos habituamos e não valorizamos devidamente. Hoje, xixi na mão, lá me dirigi à revisão anual. Mal entro na clínica noto muito menos pessoas que o habitual. Uma vez que a instituição é especializada em medicina do trabalho deduzo que haverá menos empresas a poder suportar tal encargo. Fiz os exames ao sangue, ecografia, raios-X, exame oftalmológico e toda panóplia prevista. No fim, uma consulta. Conversámos sobre os problemas de saúde que me perseguem, os maus-hábitos que fazem parte do meu modo de viver. Descobri que encolhi um centímetro e engordei um quilo. Nada fora do previsto.

- Até para o ano, Dra.

- Até para o ano, será bom sinal, que estamos vivos e ainda temos emprego.

Não me caíram os queixos por mero acaso. A intocável classe médica já equaciona a hipótese do desemprego, nem que parcial. Existirá maior sinal de crise num país que se habitou a venerar os praticantes de medicina?

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