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Instantâneo.

por Fernando Lopes, 1 Jan 14

Rotunda da Boavista, hora de almoço. Um velho sem-abrigo, gorro sobredimensionado, ar franzino e longas barbas, dentes amarelecidos pela puta da vida. Está sujo de miséria, desleixo, má sorte. Todos os males lhe abraçaram os ossos, e no entanto, sorri. Um sorriso quase alegre, quase infantil. A seu lado um velho carrinho de bebé, dois pequenos sacos de plástico, tudo o que suponho serem os seus pertences. Dispôs no chão uma manta amarela onde brincam dois cães de pequeno porte. Enquanto os canitos se mordiscam numa brincadeira inconsequente, fala-lhes com ternura, afaga-os. Paro dois ou três segundos e meto a mão ao bolso para tirar o telemóvel e fotografar. Vistos de costas, são um postal ao afecto. Impossível violar este momento só deles. Em vez disso escrevi este instantâneo para arquivar no álbum da memória.

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