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Tão lindo que dá vontade de comer.

por Fernando Lopes, 10 Jun 16

Manuel ficou órfão aos seis meses, um daqueles momentos trágicos que ocupam cinco linhas nas páginas dos jornais. O pai adormeceu ao volante, meteram-se debaixo de um camião. Os pais tiveram morte imediata tendo ele sobrevivido quase incólume.

 

Ficou desde sempre com a avó Guta, viúva e único parente ainda vivo. D. Augusta gostava de homens gordos, já o seu falecido pesava mais de 120 quilos. Foi desde pequenino empanturrado com bifes e batatas fritas, doces e mais doces, pizzas e hambúrgueres. Gordinho, a avó dizia sempre enquanto lhe apertava as bochechas: tão lindo que dá vontade de comer.

 

Na escola primária sofreu as sevícias habituais aos gordos. Badocha, gordo, unto, chamaram-lhe de tudo. Apanhou, foi gozado, ignorado. Deprimido, refugiou-se na comida da avó e engordou. Engordou tanto, que 12 anos e 90 quilos depois começou a ter dificuldades de locomoção e negava-se a ir à escola.

 

Augusta, professora primária reformada propôs-lhe que continuasse os estudos em casa.

 

A velha professora abre a arca frigorífica e tira de lá um braço decepado. Coloca-o sobre o mármore e tenta afastar o mindinho dos outros dedos. O frio tem esse efeito cola, como quando se tiram os bolinhos de bacalhau do congelador e estes se encontram unidos pelo gelo como siameses, difíceis de separar. Degelou o mindinho o suficiente para o afastar dos outros. Pegou no cutelo e golpeou. O osso, duro de partir, não cedeu à primeira, separando-se após várias pancadas enérgicas. Sobre a tábua minúsculos pedaços de carne, aquela carne esfarelada e gelada como quando serramos um naco de vitela.

 

Embrulhou em película plástica o braço e dedos restantes e voltou a colocá-lo na arca. Tinha uma pequena assadeira de barro com cebola e azeite. Colocou bem no centro o dedo rechonchudo, abriu o forno e ouviu na sua cabeça o que já lhe havia dito mil vezes: tão lindo que dá vontade de comer.

 

 

 

Para a alexandra g. e todas as outras «alexandras» que dão sentido a este blogue.

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8 comentários

De alexandra g. a 10.06.2016 às 22:52

hum.
(sabes, ou antes, sabem, não lês este canto do mundo sozinho, somos muitos a ler-te e a comentar-te, aquela foi a primeira e a única vez - 2x - que senti o impulso primitivo de matar alguém, embora em legítima defesa tivera acontecido, e logo o pai das minhas filhas!)


facts are: ele tem o dinheiro, a suposta "sensatez", eu tenho a sensatez e as emoções já maturadas, sem aquele excesso de acidez volátil que só com metabissulfito de potássio se estabilizam, que volta não há a dar (sempre gostei da linguagem dos enólogos e dos perfumistas :)


________
pensa nisso de continuares a escrita, mas deixa o pequerrucho, ou 

De Fernando Lopes a 10.06.2016 às 22:56

O pequerrucho é tão, mas tão delicioso...

De alexandra g. a 10.06.2016 às 23:01

umas páginas de livro por dia e o pequerrucho, também com comboios de gomos de tangerina (sem a pele) ou bagos de uva em comboio, um a um, não teria sido gorducho: em cada gomo, em cada bago, uma história :)


um beijo, Fernando, uma boa noite, mima muito as tuas mulheres de casa, muito :)

De alexandra g. a 12.06.2016 às 02:21

obrigada, Fernando, sou uma «medricas», só por isso não te agradeci antes :)


um abraço mui amigo, mui.

De Fernando Lopes a 12.06.2016 às 10:15

Os afectos não se agradecem, alex. Como o sol, simplesmente, estão lá.


________________________________________________________
Ah pois, posso não ter a pinta do camone mas estou atento. ;)

De alexandra g. a 12.06.2016 às 16:29

:D
_________________
não sei se é "camone", parece-me mais inglês, de facto, mas com todo o ar de um dissidente (clima, pontualidade, fish&chips, etc. :)

De Anónimo a 12.06.2016 às 17:59

Sinto-me profundamente ostracizado com as dedicatórias de que fui liminarmente afastado.
Filipe ostra-coiso
P.S. Não te pago o almoço de legumes amanhâ. Tunbas!

De Fernando Lopes a 12.06.2016 às 18:04

Não é que não sejas jeitoso, mas continuo admirador incondicional do sexo feminino. 
P.S. - Comes couvinhas para o posterior concurso de flato. :)

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