Sexta-feira, 10.05.13

Bailado.

Careca luzidia, barriga proeminente, mãos sapudas, um daqueles polos de marca em que cavalo e cavaleiro ocupam toda área visível, sapatos de camurça Tod’s, um mostruário de marcas e novo-riquismo. Caminha conversando com o Moreira sobre as maravilhas de Paris. As mulheres seguem-nos, apaziguadas com compras. Discute baixo a escapada nocturna ao “Moulin Rouge”. Após jantar “vachement”, dirige-se solene às senhoras, para irem indo, que vai beber uma cerveja com o seu amigo dilecto. Chegado ao cabaret, pede champagne e recosta-se para apreciar o show. Diz convicto:

- Isto sim é bailado, não como aquelas porcarias do “Lago dos Cisnes” ou “A Bela Adormecida”, coisas de crianças e maricas . Eu, Moreira, ao contrário desses parolos, sei muito bem o que é arte.

Fernando Lopes às 19:56 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Terça-feira, 07.05.13

Os universitários de hoje já nascem velhos?

Queima das Fitas do Porto, dia de cortejo. Passam dezenas, centenas, de várias faculdades, rumo à folia. Não são iguais ao universitários de antigamente. Em geral são muito mais velhos, perto dos 30. Não me lembro de muitos na antiga FLUP, anos 80, com mais de 24, 25. Capa, batina e careca a acompanhar. Entre elas, poucas jovens. Têm um ar envelhecido, muitas são pesadas, longe das “avezinhas” que abarrotavam Letras. Serei demasiado crítico, ou os universitários de hoje já nascem velhos?

Fernando Lopes às 18:09 | link do post | comentar | ver comentários (9)
Domingo, 07.04.13

Roubar a memória.

No prédio que emparceira com o “Franganito”, onde costumo almoçar, mora uma velha senhora. Professora reformada, deverá ter perto de 90 anos. Por trás das rugas, das costas corcovadas, há um brilho de vida nos olhos. Fala da escola, do defunto, dos filhos que vivem em Lisboa, e brilha. O Sr. Manuel, que abriu o restaurante em 1963 ainda lá almoça todos os dias. Os dois trocam dois dedos de conversa sobre os bons velhos tempos e ameninam-se. É encantador observar que, no espírito a idade, de facto, não existe.

 

Recebi dela o mais sábio dos conselhos: Vivam a vida! A Vida é muito bonita!

 

Por questões profissionais, frequento menos o local do que gostaria. Num dos regressos esporádicos, encontrei-a abatida, longe da vivacidade habitual. A razão era um simples: um qualquer bando de gandulos havia roubado os seus preciosos anéis e colar.

 

- Não é só o valor, tive muito medo e também me roubaram recordações.

 

Surpreso, balbuciei umas palavras de consolo. Saí angustiado. Como é que alguém, mesmo que em estado de necessidade, pode ter a coragem de roubar as memórias – o único bem que efectivamente resta – a uma nonagenária?

Fernando Lopes às 00:07 | link do post | comentar
Sábado, 23.03.13

Doente “do mental”.

Em rapaz, passava fins-de-semana ocasionais na aldeia de onde a avó tinha saído aos dezoito anos. Para um rapaz de Cedofeita, um universo paralelo a quarenta quilómetros de distância. Lembro-me bem do Sr. Joaquim e da sua história. A mulher era possuída por raivas destrutivas e prostrações infindáveis. Tratava dela com desmesurado carinho.

 

- Então Sr. Joaquim, como vai a sua mulher?

- Tem dias, menino. Mas era uma boa mulher. Muito minha amiga, gostava dos filhos, trabalhadeira. Foi uma tristeza ter ficado doente “do mental”.

 

O amor é uma forma de prisão pérfida, que, às vezes, nos faz estar ligado mesmo a quem já perdeu o discernimento. Pode o outro estar do lado da sombra, doente “do mental”, e, por estranha razão, não conseguirmos parar de amar, não é Sr. Joaquim?

Fernando Lopes às 00:15 | link do post | comentar
Domingo, 17.02.13

Carqueja.

Persisto na saga de contar estórias importantes para mim, que não interessam a absolutamente ninguém. Teria 22 ou 23 anos e estava hesitante entre acabar a faculdade ou começar a trabalhar. A minha namorada à época teve de estagiar durantes seis meses nos Açores. 180 dias. Eu, sem amor, não existo. Sou cão sem dono, pombo que não sabe o caminho de casa, alma penada.

 

Decidi fazer o meu próprio estágio. Dormir de manhã, ler ou ir à faculdade à tarde, embebedar-me à noite. Frequentava a esplanada da Mena na Ribeira. Mãe e filha tinham acomodado em 4 ou 5 m2 uma arca frigorífica, máquina de café e lava-loiça. O suficiente para um negócio, uma vez que o restante era espaço público, cadeiras, mesas e guarda-sóis no meio da praça. Devo ter feito parte de imensas fotografias de postal turístico, uma vez que noite após noite, eu e um amigo de infância passávamos o tempo a emborcar cervejas. Eu para esquecer, ele não sei bem porquê.

 

Naqueles seis meses tornámo-nos parte do mobiliário urbano e estabelecemos relações de proximidade com os habitantes da Ribeira. Nestes micro-cosmos, há sempre um bêbado crónico, neste caso o Carqueja. Nunca o vi roçar os mínimos de sobriedade e tivemos conversas impercetíveis, mas certamente interessantes. In vino veritas.

 

Uma das noite o Carqueja estava no chão a desfiar um rosário de murmúrios que sei bem serem verdades filosóficas capazes de ombrear com Kant, Heidegger ou Ortega y Gasset. Como começou a tomar um tom arroxeado, suscitou a nossa preocupação. Não existiam telemóveis, pelo que pedimos para ligarem o 115 (naquele tempo o 115 ainda não tinha perdido os três). A ambulância recolheu um Carqueja quase a apagar-se.

- Este filho da puta já não volta, ouviu-se entre as vozes que rodeavam a maca.

No dia seguinte, chegados à Mena, lá estava ele, trocando o passo e segredando as suas pérolas de sabedoria. Aprendi nesse dia que o destino está traçado, a vida só desiste de nós quando desistimos de a viver.

Fernando Lopes às 00:01 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Domingo, 10.02.13

Diz.

Diz às palavras que tenho medo delas.

 

Diz ao amor que também ele envelhece, se torna surdo, cego e morre.

 

Diz à tristeza que tem em mim poiso seguro, companheiro de jornada, amigo de solilóquio nas negras horas que precedem o dia.

 

Diz à criança que nunca morre, apenas cresce para fingir que é adulto.

 

Diz à vida que é opróbrio.

 

Diz aos ventos que sonho com um regresso a casa.

 

Diz à minha juventude que estou a ficar velho.

Fernando Lopes às 00:20 | link do post | comentar
Segunda-feira, 31.12.12

Um brinde!

Um brinde às crianças porque ainda vivem numa bolha de ilusão.

 

Um brinde aos jovens porque têm o poder de fazer seu o futuro.

 

Um brinde aos velhos que insistem em se deitar antes da meia-noite apenas para serem acordados pelo fogo de artifício.

 

Um brinde aos burgueses gordos e untuosos que se saracoteiam de smoking em filas idiotas nas festas dos casinos.

 

Um brinde aos que estão sós mas ainda não desistiram de encontrar o amor.

 

Um brinde aos sem abrigo que terão rancho melhorado fornecido por dóceis amantes da caridade.

 

Um brinde às putas que distribuirão ilusões de amor a troco de meia dúzia de euros.

 

Um brinde aos bêbados, que já caídos, uma vez mais não recordarão a chegada do ano novo.

 

Um brinde aos poetas que escondem angústias sob capa de pretensa normalidade.

 

Um brinde à humanidade, ao melhor e pior de nós. 

Fernando Lopes às 00:03 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Segunda-feira, 03.12.12

A tua nova cama de casal.

Pareces tão derrotada deitada na tua nova cama de casal
Com uma só almofada sob a tua solitária cabeça
Decidiste que a velha cama gigante era mais do que necessitavas
Agora está no beco atrás do teu apartamento com um letreiro a dizer que é de graça

 

Espero que tenhas mais sorte do que eu

 

Costumavas pensar que alguém surgiria
E se deitaria a teu lado no espaço que lhe pertencia
Mas o outro lado do colchão permanecia como novo
Qual é o sentido de nos agarrarmos a algo que nunca será usado?

 

Além de um desejo doentio pelo auto-abuso

 

E tento não não me preocupar, mas conseguiste aterrorizar-me
É como se tivesses algum tipo de urgência em dizer adeus, adeus, adeus

 

Pareces tão derrotada deitada na tua nova cama de casal
Pareces tão derrotada deitada na tua nova cama de casal

 

 

Adaptação minha de uma letra de "Death Cab For Cutie".

 

Dedicado a  quem se encontra ou sente sozinho mas não desiste de tentar o amor. Porque, quando se desiste de amar, morre-se um bocado.

Fernando Lopes às 18:30 | link do post | comentar | ver comentários (9)
Quinta-feira, 15.11.12

O velho no sofá do shopping.

Em todos os centros comerciais, sentado na zona de sofás, está um velho. Vestido com domingueira dignidade, assiste ao movimento de empregadas e madames, filhas que amparam mães idosas, pais que perseguem petizes ariscos a correr à desfilada. Nunca têm sacos de compras, apenas apreciam quem se passeia como se estivessem a assistir a um filme ou peça de bailado. Todas as lojas anunciam descontos de 30, 40 e 50%. Nada se vende, nem com promoções que noutros tempos fariam senhoras respeitáveis disputar peças de roupa como se o Titanic estivesse a afundar e aquela fosse a única bóia disponível. O velho assiste aquela coreografia impassível. Ocasionalmente, vencido pelo cansaço e aconchegado pela temperatura amena, dormita. Mais tarde apanhará o autocarro para regressar à casa velha e fria, triste e húmida. Ficarão na memória o calor, as luzes, os movimentos daquelas vidas tão distantes da sua. Enrosca-se e adormece com um sorriso reconfortado de quem iludiu a sua triste condição por breves horas.

Fernando Lopes às 00:02 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Quinta-feira, 25.10.12

O reino de Paga-E-Não-Bufes

Na ponta mais ocidental da Europa, rodeado de água por todos os lados menos um, está o reino de Paga-E-Não-Bufes. Os habitantes deste estranho reino, sempre que chamados a pronunciar-se sobre o governador que irá orientar a coisa pública, sofrem uma crise aguda bipolaridade. São espoliados sistematicamente ou pelo “animal feroz” ou pelo “lobo em pele de cordeiro”. Na essência, existem poucas diferenças entre estas duas espécies parasitárias. Ambas se alimentam de incompetência, compadrio e impostos, em doses a adaptar segundo as necessidades do momento.

 

Em tempos não muito distantes, os Paga-E-Não-Bufenses aderiram à comunidade dos Somos-Ricos-E-Não-Abdicamos. Entusiasmados com o dinheiro que chovia a rodos, oferta dos Somos-Ricos-E-Não-Abdiquenses, iludiram-se. Faziam tudo o que o outro reino lhe pedia. Não produzais têxteis, sapatos ou outros bens industriais; eles serão mais baratos se os adquirirmos aos Olhos-Em-Bico-Que-Trabalham-Por-Uma-Côdea; para quê incomodarem-se em tão aborrecido labor? Não vos preocupeis com os vossos campos e pescas; nós vender-vos-emos leite mais barato, bonitos vegetais que sabem todos ao mesmo, o vosso peixe será por nós pescado. Não vos canseis, dar-vos-emos um futuro de mel e ambrósia.

 

Os Paga-E-Não-Bufenses, ingenuamente caíram neste conto do vigário até ao dia em que lhes começou a ser cobrada a sua inércia. Pois vós que não fazeis a ponta de um corno, que quereis? Que continuemos a patrocinar o vosso ócio? Em vão reclamaram das belas carruagens bárbaras a que se tinham habituado e que lhes tinham sido vendidas pelos Somos-Ricos-E-Não-Abdiquenses. Procuraram devolver caríssimas máquinas de andar debaixo de água, absolutamente inúteis que lhes tinham sido impingidas apenas para fortalecer a indústria dos seus vizinhos. Tinham desbaratado milhões em serpentes de betão, criadas sob o pretexto de exportar algo que não produziam. As ofídias estavam agora sem vivalma, uma vez que os Paga-E-Não-Bufenses não tinham dinheiro para circular nas belas carruagens adquiridas a crédito sobre a promessa solene de que a creditícia fonte não iria nunca secar.

 

Emprestar-vos-emos dinheiro para pagarem o que nos devem; não se esqueçam dos nossos “multiplicadores orçamentais”: por cada ouro que vos emprestamos queremos um ouro e meio. Em estado de necessidade, aceitam, mesmo sabendo da impossibilidade de pagar tal dívida. Elegeram o “lobo em pele de cordeiro” em substituição do “animal feroz”. Substituíram um néscio por um inapto. Os Somos-Ricos-E-Não-Abdiquenses não renunciavam aos seus juros e permaneciam insensíveis às dificuldades dos Paga-E-Não-Bufenses, para saldar uma dívida que tinha sido feita para os fortalecer, deixando-os na sua completa dependência. O governador “lobo em pele de cordeiro”, ignorava o sofrimento do seu povo e estava mais preocupado em ficar bem visto junto dos Somos-Ricos-E-Não-Abdiquenses. No fundo sonhava com o dia em que se juntaria ao cherne, um ex-Paga-E-Não-Bufense que vivia agora no fabuloso reino vizinho. O povo que sofra, dizia o governador, não passam de uns piegas, anos e anos a viver à custa dos Somos-Ricos-E-Não-Abdiquenses.



Esta história não está ainda terminada. Os Paga-E-Não-Bufenses podem decidir entre:

a) correr com os vendilhões do templo, renegociar com os Somos-Ricos-E-Não-Abdiquenses as condições, pagar a sua dívida de molde a que não morram de fome, iniciando um novo modo de vida;

b) tornarem-se escravos da dívida e consequentemente dos Somos-Ricos-E-Não-Abdiquenses.

Fernando Lopes às 23:09 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Quarta-feira, 25.07.12

Alice (III)

Na caixa de correio, um daqueles folhetos de viagem. Um passeio pela Galiza, almoço no Grove, vista à ilha de La Toja, ou a Toxa como dizem e escrevem os galegos. Alice surpreendeu-se com a fábrica de sabonetes, a capela de conchas, o grande hotel. "Quieres pendientes?" interrogavam as vendedeiras. Passeamos entre  jovens, sorvendo a sua vida, alegria, vontade de viver. À noite, no hotel, remocei. No escuro, como ela gosta, fizemos amor.

 

No regresso paragem no El Corte Inglés. A ideia era perfumarmo-nos à borla, debicar fruta, experimentar roupa que nunca poderíamos comprar. À saída do autocarro, um ruído de travagem, um grito, um quebrar de ossos. Senti-me divido em dois, um boneco articulado. Uma enorme dor. Nada. Quando despertei um médico ou um anjo barbudo, não sei bem, disse-me: "- Su compañera murió. Lo siento." Deitado, no hospital, tenho tempo para pensar. A felicidade é sempre um estado transitório. Quando sair daqui vou beber um copo a isso.

Fernando Lopes às 18:30 | link do post | comentar
Terça-feira, 24.07.12

Alice (II)

- Alice, preciso de beber alguma coisa que não café, pode ser? Relutantemente, foi ao frigorífico e trouxe uma garrafa de Gazela e dois copos. Sentamo-nos frente à televisão, a ver a novela. Pela primeira vez em muitos anos não bebi tudo de um trago. Fingi que estava a saborear, como se fosse um especialista, dando pequenos estalidos com a língua. Pareceu reconfortada. Adormeceu encostada ao meu ombro, lado a lado no velho sofá. Escapei-me para a cozinha e escorropichei duas cervejas e um pacote de vinho. Acordou e expliquei-lhe o acontecido." - Não tem mal. Queres dormir cá?". Pudicamente, mostrou-me o quarto das visitas.

 

Acordou-me manhã cedo, dizendo que queria levar-me ao doutor. "- Um bom médico, trabalha para a polícia, e como tu sabes há muitos guardas que gostam da pinga!". Decidido a levar esta minha tentativa de regeneração até ao fim, acedi. Mais para não a desiludir que por mim, as ilusões já morreram há muito. Na rua, a luz forte da manhã cegava-me. Alice caminha a meu lado, como velhos amigos ou amantes. Apercebe-se que estou agoniado, meio a tremer, com uma palidez vampírica. "- Precisas de ir beber uma cerveja?". Assenti com a cabeça. No velho consultório, esperei cá fora enquanto Alice entabulava negociações com a assistente. Saiu radiante, dizendo: "- Temos consulta para amanhã e não preciso pagar nada, é como se fosse para mim." Passeamos por Santa Catarina, a ver montras.

 

Comecei a tomar Tiapridal. Com o tempo os tremores foram passando, comecei a enjoar o álcool. Entrei numa estranha normalidade, que já não era a minha há muitos anos. Às vezes passeamo-nos de mãos dadas, como um velho casal de jarretas. Passo o tempo entre a pensão e a casa de Alice. Hoje quando cheguei tinha um bilhete. "Amo-te. Queres vir morar comigo?". Começámos a partilhar cama e mesa.

Fernando Lopes às 21:59 | link do post | comentar

Alice (I)

Recebi um bilhete de amor. Porquê? Porque quero morrer e não há mulher que se preze que não tenha uma face salvífica. Porque é que quero morrer? Não sei bem, acho que foi a vida que me matou. Foi aos bocadinhos, como a monotonia mata o amor. É uma mulher baixinha, com um ombros estreitos e um rabo enorme, uns olhos grandes e brilhantes como uma boneca. Tem uma mãos pequeninas e sapudas, nunca poderia ser pianista ou manobrar com perícia os pincéis. São mãos de trabalho, duras, calejadas, provavelmente será escolhedeira numa fábrica de cortiça, mulher-a-dias, um desses trabalhos que parecem inexistentes, sem os quais não poderíamos sobreviver.

 

Apiedou-se de mim quando me viu a olhar para o fundo de um copo, já vazio. Estou tão magro, tão sugado, que me confundem com um toxicodependente. Por acaso sou bêbado. Não daqueles que não toma banho ou se urina pelas pernas abaixo. Ainda tenho a minha dignidade, tomo banho e mudo de roupa todos os dias. A D. Hortênsia, dona da pensão onde moro, fez de mim o filho que nunca teve. Dou-lhe o cheque da reforma e todos os dias recebo dez euros, para cigarros e o bagaço da manhã. Como pouco (uma sandes de fiambre dá-me para dois dias), e ela não se importa porque não gasta muito comigo. Tem sido assim na minha vida, por qualquer estranho fenómeno, quando estou a passar para a indigência, quando penso que, finalmente, me vou embebedar até à morte, algum destes anjos em forma de mulher, pequenina e gorducha, maternal e trabalhadeira me impede de cair definitivamente no abismo.

 

A mulher do bilhete, sei-o hoje, é cozinheira, viúva de um polícia. Chama-se Alice e não têm filhos. Diz que vê em mim algo mais que um alcoólico. Expliquei-lhe que não sou bom a foder, e ao fim destes anos todos de copos, o tesão é coisa que só acontece de vez em quando. Parece que não se importa, que não existem almas perdidas e do que eu preciso é de apoio psicológico e estabilidade. Convidou-me para sua casa, mas tudo o que me deu foi café e umas roupas velhas do marido. O filho da puta devia ser gordo, fica-me tudo enorme, de modo que pareço uma reles caricatura do David Byrne nos anos 80.

Fernando Lopes às 00:10 | link do post | comentar
Terça-feira, 17.07.12

O Sr. Ramalhão e os vampiros

Álvares Cabral, a rua onde habitei durante trinta anos tinha uma curiosa mescla social. Em grandes mansões, com enormes jardins traseiros, vivia gente discreta e abastada. Nas outras casas de dimensão média, uma infindável horda de mangas de alpaca e donas de casa. Lado a lado, sem conflitualidade social e numa contida convivência. Todos sabíamos quando ia sair a viúva do dono dos Grandes Armazéns do Norte. Era a única que tinha motorista, rigorosamente equipado, boné incluído, tirava o carro para cima do passeio e ia ajudar a anafada senhora a entrar para o vistoso automóvel, o maior e mais bonito daquelas bandas.

À minha frente morava o Sr. Ramalhão. Vivia amigado (como dizia a avó), com a D. Palmira, uma senhora discretíssima e simples. A avó aconselhava-a a casar, pois se o seu companheiro morresse ficaria desprotegida. Os seus esforços de casamenteira foram infrutíferos e a D. Palmira faleceu antes do seu amado. Abatido e doente, passava os dias à janela, com um boina que tirava respeitosamente para cumprimentar a vizinhança que subia e descia nas tarefas diárias. Eu, adolescente, não perdia a oportunidade de trocar dois dedos de conversa, talvez porque gostava dele, talvez porque fui ensinado a respeitar os mais velhos, talvez porque me impressionava a sua solidão. Fez questão de me emprestar um livro que o tinha impressionado particularmente, "Erros Judiciários" de René Floriot.

Um dia, ao chegar do liceu, dei com a rua pejada de carros de luxo. Contou-me a avó que eram os sobrinhos e herdeiros do velho Ramalhão. Só nessa altura soube que aquele homem simples e conversador era proprietário de um grande armazém de colchas, atoalhados e artigos para o lar, ali para os lados do Largo dos Lóios. Diziam as vizinhas que os sobrinhos que nunca o visitavam, tinham aparecido devido à sua enorme fortuna, "mais de 600.000 contos!". Fui ao funeral, e ao ver tanto luxo, tanto requinte, não pude deixar de pensar naquele homem só, mendigando cinco minutos de atenção. Ainda o corpo estava quente e já todos os vampiros planavam, à espera do seu quinhão. Inevitavelmente, há gente que tem mais valor morta do que viva.

Fernando Lopes às 00:08 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Terça-feira, 22.05.12

as mulheres não se querem bonitas

Trabalhava como amanuense enquanto ela prosseguiu os estudos. O namoro de adolescência, a descoberta do sexo, os laços criados, levaram-nos ao casamento na idade adulta. Era moreno e entroncado, ela loira e de pele muito clara. A relação seguia prazenteira, sem sobressaltos, segura, sólida. Fazia-a rir com as suas palhaçadas, enchia-se de espuma da barba e recriava o yeti, o número de homem orquestra. Ela iniciou uma carreira académica que muitos auguravam brilhante. Bonita, interessada, curiosa, inteligente e trabalhadora, rapidamente ganhou prestígio e o respeito dos pares.

 

Num dos jantares da academia acompanhou-a. Viu como brilhava, trocando piadas, citações, falando com desenvoltura de arte e literatura, nomes que nunca ouvira falar. Durante a conversa manteve-se em silêncio, fascinado com a crisálida que encantava a seu lado.

 

Esperou que ela fosse participar numa conferência. Encheu a velha carrinha com os pertences que lhe pareceram indispensáveis e partiu para um lugar onde sabia não ser descoberto. Ela era uma linda borboleta, ele um casulo escuro e sem graça. Na cama onde se amaram deixou apenas uma nota. "És melhor do que mereço". Ligou a ignição, e após um ruído  roufenho, arrancou. Sabia bem que quem ama verdadeiramente, tem o dever de libertar a pessoa amada.

Fernando Lopes às 18:42 | link do post | comentar
Domingo, 20.05.12

O urso de Ayamonte

Em Ayamonte, no fundo do parque público existiram durante alguns anos umas jaulas ferrugentas e em mau estado que albergavam animais. A decrepitude do local recordava-me o "zoológico" do antigo Palácio de Cristal. Cárceres antigos, um macaco conhecido como "Chico do Palácio", um leão tão velho que já não tinha dentes, albergados entre pavões e gaiolas de pássaros, garnisés e galinhas da Índia, tudo num registo de negligência que deixava constrangido o coração mais insensível. Detesto zoos e essa primeira experiência talvez tenha sido determinante.

 

O velho urso de Ayamaonte estava velho e catatónico. E estes animais exprimem esse catatonismo de forma particularmente pungente. Rodopiam sobre si próprios, abanam a cabeça, num movimento perpétuo e involuntário, que denuncia que a sua alma já se perdeu para sempre nos labirintos do sofrimento. Nada melhor para combater a melancolia do que o alheamento, o catatonismo, o abanar a cabeça de lá para cá, de cá para lá, como se quiséssemos expulsar de nós esse demónio da insegurança e sofrimento que insiste em nos perseguir. Às vezes sinto-me como o velho de urso de Ayamonte. Não deve ser invulgar.

Fernando Lopes às 03:25 | link do post | comentar
Quarta-feira, 16.05.12

Havemos de ir ao Pingo Doce

viver a luxúria da carne. Apalpar a febra, roçar o focinho e apreciar uma boa coxa. Morder-te-ei a orelheira e tu agarrar-me-ás nos enchidos. Usarás a tua língua de vaca, para me causar arrepios nas tripas. Passar-te-ei a mão pelo lombo enquanto seleccionas a mais firme rabada. Sentir-te-ei as costeletas enquanto te revelo secretos. Agarrarei maminha, firme e fresca, fresca e dura. Sairemos pé ante pé, a fugir da coentrada.

Fernando Lopes às 01:48 | link do post | comentar | ver comentários (6)
Sábado, 14.04.12

arca salgadeira

Era o único de origens rurais numa turma de citadinos. Gorducho, desajeitado, ruborescido, usava sempre um velho blazer quando o hype era ter um blusão de penas Duffy e umas Levi's.

 

Destacava-se pela diferença. E todos sabemos como os adolescentes são cruéis com os que são diferentes ou não se enquadram num tribo. Andava sempre sozinho, ninguém queria a sua companhia. Na altura existiam carteiras antigas, com tampo que levantava e uma base de madeira onde pousávamos os livros. Uma das brincadeiras favoritas era roubar os cadernos do vizinho de trás e coloca-los nos locais mais improváveis. Foi a galhofa da turma durante uma semana. No momento em que tomaram posse dos seus cadernos descobriram que cheiravam a salmoura. Foram passados por toda a turma, para "curtirmos um cheirinho a presunto".

 

Foi ridicularizado, acusado de dormir com presuntos, de comer chouriços e salpicões ao pequeno almoço. Não o gozei nem me solidarizei. Mantive uma prudente distância. Mas intrigado, passados uns tempos, não resisti a perguntar-lhe porque é que os cadernos dele cheiravam a "presunto". A resposta não poderia ser mais simples. Como não tinha secretária ou mesa disponível para estudar, fazia-o em cima de uma arca de madeira onde era conservada a carne de porco em sal. Os adolescentes podem ser estúpidos e maus. Por omissão, fui as duas coisas.

Fernando Lopes às 00:09 | link do post | comentar
Terça-feira, 10.04.12

o vulto

Catatónico. Era nesse estado de não-consciência que João vivia. Várias gerações da aldeia não se recordavam de o ver que não nesse estado alheado, do abandono em que pairava. Não era violento, alegre ou repetitivo. Ficava apenas parado, olhando o vazio, como se não existisse nada para lá do momento, como se estivesse já morto, compartilhando com anjos um silêncio cúmplice, um segredo que apenas os que já passaram a barreira conhecem. De facto desaparecera há já muito. As barbas longas, o fedor que exalava, os cabelos desgrenhados, o hálito nauseabundo, a abstinência de água, até para se lavar, levavam a que fosse servido do lado de fora da tasca. De verão ou inverno. Os homens passavam por ele como se fosse uma estátua, uma ramada, um vulto, algo que sempre ali esteve, no seu lugar natural. Conheciam bem o drama do João da Anita. Desde o dia em que ela passou a ser apenas parte do nome e deixou de existir, também ele morreu. Como se a partida acidental da mulher o tivesse arrastado. Nem só nos romances existem amores assim, daqueles em que tudo para na ausência do ente amado. Não conhecia poetas nem prosadores que, graciosamente, narraram a sua circunstância. Estava só, inebriado, a contemplar o nada. Até que este, piedosamente, o viesse também reclamar.

Fernando Lopes às 00:25 | link do post | comentar
Sábado, 31.03.12

Saraiva

O pai foi secretário da Câmara do Comércio Luso-Britânica durante muitos anos. Foi atraiçoado pelo coração aos 54, mas conheço poucos portugueses que, como ele, andassem em Londres como em casa. As linhas do metro e do autocarro sabia-as de cor, tratava por tu os grandes museus e galerias londrinas, gostava do encanto decante do Soho.

 

Adorava contar histórias e piadas, entre elas esta, quase mítica que aqui vos deixo. Incapaz de jurar a sua exactidão, fica escrita ao sabor da minha memória.

 

Todos os anos se organizava na feitoria do Porto uma baile de gala, para a comunidade britânica e notáveis portugueses particularmente relacionados como os negócios e cultura da terras de sua Majestade. Para abrilhantar a festa, decidiram os organizadores contratar um mestre-de-cerimónias inglês, que, à porta do salão, recebendo os convites, anunciava na entrada de quem chegava à festividade.

 

Acontece que o "bife" não falava português e debatia-se com naturais dificuldades em pronunciar os nomes dos convivas nacionais. Pedia um pequeno apoio que gentilmente lhe era dado e anunciava os nativos. Deu-se o caso de não conseguir ler o nome de um dos convidados. O português gentilmente explicou-lhe que se chamava Saraiva. É anunciada ao salão, com pompa e circunstância, a chegada de Sir Aiva and  Lady Aiva.

Fernando Lopes às 00:15 | link do post | comentar
 

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