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Preços que fazem sorrir a estranja.

por Fernando Lopes, 3 Nov 17

Depois de almoço, quando ia tomar um café e fumar um cigarro, deparei com o Pedro numa lufa-lufa. Uma série de forasteiros de um hotel das proximidades tinham resolvido pedir cappuccino. Sabemos bem que a preparação da bebida demora o seu tempo e não se coaduna com a pressa de quem tem de servir dezenas de cafés em poucos minutos. Tinha tempo, fiquei a vê-lo fazer a espuma naquela meia-de-leite aperaltada. Quando perguntaram o preço o Pedro respondeu: três euros. O homem sorriu, fez o gesto de não com a mão, e esticou indicador e o médio a justificar que eram dois. Sim, sim, dois, três euros. O homem abriu um sorriso como quem diz: 1,5 euros por um cappuccino é pouco mais que de borla. Conversamos depois um bocadinho e contou-me que é frequente a dúvida em todos os produtos de cafetaria. Perguntam-me sempre duas vezes se o croissant custa mesmo 80 cêntimos. Para alguém vindo da Europa do norte, o custo da nossa restauração e cafetaria deve ser perto de ridículo. Bem dizia o bife num outro dia ao balcão do «Rádio» depois de ter pedido uma cerveja: One euro? Are you sure?

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O reino do espertalhaço.

por Fernando Lopes, 2 Ago 17

É desde ontem destaque nas notícias um restaurante lisboeta que rouba turistas à descarada. No espírito sobrevivo do nacional-parolismo, os estrangeiros que nos visitam ainda são aqueles seres endinheirados, louros e gordos, que devem pagar uma espécie de imposto por estar a usufruir do espaço que é nosso, à boa maneira da idade média. Embora vergonhoso, é bem o espelho do chico-espertismo nacional, no país onde quem foge aos impostos não é criminoso mas espertalhão.

 

Paga-se e têm-se a sabujice, o servir primeiros os camónes em vez dos nacionais – esses ao menos deixam gorjeta, o linguajar em portunhol e quejandos, o desfazer-se em mesuras com a alemã avantajada como se da Claudia Schiffer se tratasse. Num velho jogo adolescente em que ingenuamente cheguei a participar, «sacar uma estrangeira», feia que fosse, dava mais pontos que conquistar a mais bela lusa. Está.-nos no sangue e pronto, aplica-se indiscriminadamente da alcova à restauração.

 

Este episódio fez-me lembrar um outro, mais de quarenta anos passados. Nas primeiras vezes que fomos ao Algarve (71 ou 72), jantamos em Faro num local que só tinha lista em inglês. Perante os protestos do pai – lembro-me porque o episódio me constrangeu – lá se justificaram que ainda estavam a fazer a lista em português. Uns percebes a saber a borracha, uma açorda de marisco de onde o dito se encontrava ausente – ao menos o pão estava molinho – e uma conta exorbitante depois, guardei para sempre essa imagem de como era ser estrangeiro no seu próprio país. Não mudou nada, os portugueses continuam a ser uns espertalhaços.

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Até que a teta da vaca seque.

por Fernando Lopes, 8 Dez 16

vaimaisum.jpgRua de Passos Manuel, Porto

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Turismo, turistas e a portolândia.

por Fernando Lopes, 22 Out 16

Acordei cedo. Como as minhas mulheres iam ao cabeleireiro decidi dar uma volta a pé. Esta expressão significa quase sempre um regresso ao meu útero urbano, Cedofeita. Assim foi. Gosto de parar na esplanada junto à subida do Mirante. É um sítio despretensioso, um café que não pretende ser mais do que é. Os sítios assim são cada vez mais raros, os novéis proprietários procuram dar um ar sofisticado até a uma padaria. Farto desta patine de pechisbeque procuro o básico, sem rodriguinhos ou tretas.  Mesmo ao lado fica um hostel, a rua está cheia deles. Face ao vai e vem de turistas, questiono o proprietário. Talvez o futuro esteja mesmo no turismo. Os hotéis e hostels vizinhos, que na época baixa do ano passado se quedavam por uma ocupação de 50%, esperam entre Outubro e Abril uma taxa de 75%. À noite, diz-me, quase só serve estrangeiros. Fala-me das pessoas que saíram da zona por causa do barulho nocturno, de apenas existirem estes vizinhos temporários. Entristece-me. Todas as minhas velhinhas morreram, cada vez mais a baixa é um playground de turistas, e uma cidade sem moradores é algo artificial. Chama-me saudosista, mas ainda aspiro a uma cidade onde habitantes e turistas consigam fazer parte da urbe, não esta que se está a criar onde apenas existem os habitantes esporádicos e os que lá estão para os servir.

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É oficial, Porto e Lisboa estão a transformar-se numa espécie de Disneylândia. Aqui no Porto, durante a Primavera, migra o afamado «camone de poupa branca». Esta espécie que se caracteriza pela cabeça branca, e por se deslocar lentamente e em bando, não é das mais destrutivas. Incomodam quando caminham na baixa, pois o seu vôo é sempre em diagonal e muda frequentemente de sentido o que torna quase impossível ultrapassá-los. Tirando isso são absolutamente inofensivos, passando grande parte do tempo alapados em esplanadas a beber bejecas.

 

Detectei a chegada de nova espécie por estes dias de verão, a «camona searching for a latin lover». De variadíssimas idades, mas sobretudo na casa dos 20, é loira, padece de excesso de peso, usa calções e chanatas. Pode ver-se ocasionalmente uma sub-espécie altamente papável, a «camona magra e arranjadinha». Certo é que os poucos machos entre os 20 e 30 que não emigraram têm enorme dificuldade em responder às solicitações, sendo que algumas destas jovens, esfomeadas e com calor, começam a baixar a fasquia. Aqui entre nós, já fui alvo de um ou dois olhares gulosos, imaginem lá o desespero. Rapazes, não se pode negligenciar a chicha nacional, que é de qualidade e é nossa.

 

Aos gajos dos Tuk-Tuk um aviso: se algum de vocês me volta a ultrapassar pela direita, juro pela minha avozinha que vos mando para o galheiro, camones incluídos. Já agora não sejam parolos e dêem alguma identidade portuguesa à merda dos tuk-tuk. Em cima o exemplo dos vossos colegas lisboetas que decoraram o veículo de origem asiática com um belíssimo padrão de azulejos.  Camelos dos segway: quando me passarem outra tangente a velocidade inapropriada, estico o cotovelo e levam com ele em cheio nos dentes. Melhor começar a fornecer capacetes integrais just in case…

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