Sexta-feira, 25.01.13

Sem ponta de ficção.

O segundo caso deu-se em Portugal, também numa estrada, dessas em que laboriosas curvas sobem e descem as encostas do monte. Embora a carreira tenha paragens certas, nenhum chofer deixará de parar a quem lhe acene.


O dia em que num descampado apareceu um homem a pedir passagem, e porque a camioneta já ia cheia, disse-lhe o chofer que a única solução seria viajar no tejadilho. Para compensar o incómodo só lhe cobrava meio bilhete.


O homem subiu, achou curioso ver um caixão de defunto, e acomodou-se entre as malas e os embrulhos, procurando a melhor maneira de se defender do frio. Quando mais tarde começou a chover, diz ele que hesitou um momento por lhe parecer de mau agouro, mas finalmente abriu a urna e deitou-se dentro. À cautela, não fosse a tampa fechar-se, tomou o cuidado de lhe pôr uma caixa de fósforos a servir de calço. Supõe que o tomou então uma modorra, porque só vagamente se recordava de ter sentido a carreira parar e de ouvir que alguém subia. Mas com a ronceirice do andamento e a monotonia da chuva, acabou por fechar os olhos.
O chofer tinha de facto parado para outro viajante, e por não haver ainda lugar informou-o também de que o remédio seria subir para o tejadilho.


Afinal - disse ele - não vai sozinho. Já lá está outro.


Reconstruindo depois o que aconteceu, sabe-se que o novo passageiro ao ver o caixão tirou com respeito o chapéu e se sentou perto, indiferente ao frio e à chuva de que nada o abrigava. Pelo menos foi assim que, cada vez vez que acordava da sua sonolência, o "morto" o viu através da frincha.


Finalmente, desejoso de mover o corpo dorido pela imobilidade a que o obrigava o esquife, e tendo a impressão que o tempo aclarara, estendeu o braço para fora e, brincalhão, perguntou numa voz soturna: - Ó camarada ainda chove?
Ao ver que o defunto mexia e o interrogava num tom de além túmulo, a reacção do homem foi fulgurante: atirou-se abaixo da carreira. Quebrou os ossos, mas escapou com vida. O outro também nada sofreu. Mas o chofer, assustado ao ver o passageiro cair, perdeu a direcção a atirou com a camioneta para um barranco. Quatro mortos.


Bem sei, não deve a gente rir-se da desgraça alheia, mas  que hei-de eu fazer?

 

 

 

J. Rentes de Carvalho, Mazagran, páginas 175-177

 

Reproduzido com permissão do autor, que com a habitual cortesia, me informou ser este episódio absolutamente verídico, passado algures na estrada velha entre Lamego e a Régua. Daí ter usado palavras suas, "sem ponta de ficção", para renomear esta estória.

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Fernando Lopes às 00:01 | link do post | comentar | ver comentários (7)
Domingo, 03.06.12

A simplicidade é apanágio dos grandes

 

Os visitantes deste blogue conhecem bem a minha admiração por J. Rentes de Carvalho. Ontem, na Feira do Livro, tive oportunidade de ficar 5 minutos à conversa com o Mestre. Fiquei profundamente sensibilizado pela sua simplicidade, simpatia e humor. Um privilégio que jamais esquecerei. Já amava a obra, impossível não ficar rendido ao homem.

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Fernando Lopes às 00:21 | link do post | comentar
Quinta-feira, 10.11.11

Não me mexam no Rentes!

Não tem mal ser puto. Nem acreditar no Pai Natal dos mercados. Nem mesmo o facto de ser um liberal um bocado parvo lhe retira um lugar ao sol. Afinal, até escreve no "Espesso". Li dele um ensaio mediano sobre a obra do mestre na Ler. Agora isto é demais. Quando não se tem talento nem mestria com as palavras, quando não se passa de mais um franco-atirador na selva que publica toda a merda, devia ter-se humildade. Adaptamos? Sugerimos? Não, vampirizamos talento alheio, que é o que fazem os medíocres. A tua maior glória literária foi e será a historieta dos ordenados da CP.

Fernando Lopes às 21:51 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Sábado, 08.10.11

Em síntese, tudo.


"Na confusão de responsabilidades e obrigações uma coisa surpreende: nos centros onde o poder reside, as únicas cabeças que mudam são as dos títeres engravatados que, ora anunciam pomposamente medidas de salvação, ora assustam com profecias de pragas bíblicas. Os senhores que de facto mandam são, mais cabeça menos cabeça, os que vêm do antigamente pré-revolucionário. Seguram eles com mão firme os cordelinhos e agem a seu bel-prazer, de modo que constantemente me ocorre a pergunta: que democracia é esta, que me dizem existir e mal consigo enxergar?"

J. Rentes de Carvalho no "Tempo Contado".

Fernando Lopes às 09:39 | link do post | comentar
Sábado, 27.08.11

Tempo Incerto

Acordo às 10:00. Entre o primeiro cigarro matinal [a que se seguirá uma infindável série] e um café, ligo o computador. Troco impressões com um amigo recente sobre música e abro o "Tempo Contado".  O Mestre vai de férias com regresso em "Tempo Incerto". Enquanto o leio tento compreender-lhe as angústias e incertezas. "O que escrevo raro me satisfaz". Pois não é assim com todas as almas que se questionam, que há muito abandonaram as verdades absolutas, conscientes que este limbo em que vivemos, este mundo ao contrário, nos gera mais aflição do que exaltação? Desde há um ano a esta parte as suas "estórias", dúvidas, derrotas e vitórias são também as minhas, num processo de identificação entre o pequeno e o grande homem. Que volte depressa exorcizando demónios e fantasmas. O meu dia sem o ler é um bocado mais triste.

Fernando Lopes às 10:50 | link do post | comentar
Sexta-feira, 08.07.11

Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia


O Mestre vai ser de novo publicado. Já conhecia o nome, sei que são contos, e estou ansioso pelo dia em que possa abraçar a Júlia. A capa é fantástica, o conteúdo será como sempre, de primeiríssima água.

O micro-conto  "Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia" está no Tempo Contado

Fernando Lopes às 00:01 | link do post | comentar
Domingo, 22.05.11

Coisas importantes


Top 10 livros mais vendidos durante toda a Feira do Livro, Lisboa

3 – La Coca, J. Rentes de Carvalho

Isto sim, é uma boa notícia, que me enche de contentamento. "O maior escritor português vivo", tem finalmente o reconhecimento por quem verdadeiramente importa. Os leitores portugueses. Os abutres, escorpiões e outra bicharada que o perseguem são seres menores de que não rezará a história. O sucesso de J. Rentes de Carvalho é também a prova de que mesmo longe dos circuitos das vernissages e do croquete, a qualidade triunfa. Ainda há esperança para Portugal no que à literatura concerne.
Fernando Lopes às 12:58 | link do post | comentar
Sábado, 23.04.11

J. Rentes de Carvalho e os salamaleques

José Rentes de Carvalho, um verdadeiro senhor, simples como todos os sábios, fez um pequeno post, lapidar, sobre o "Compromisso Nacional".
Deixo aqui um pequeno extracto como link para o post original.

Fernando Lopes às 18:37 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Sábado, 09.04.11

A Justiça tarda mas não falha


Os "fregueses" habituais do purgatório conhecem bem a minha admiração por J. Rentes de Carvalho. Estranhei o facto deste grande escritor não o ter o merecido reconhecimento em Portugal. Finalmente a reedição da sua obra "La Coca" está a minimizar essa injustiça.
O meu amigo Ricardo, na sua estante acidental, disse a propósito da obra de Mestre Rentes "Ninguém é profeta na sua terra". É com alegria que respondo com o aforismo "A justiça tarda mas não falha". Felicitações Mestre!

Fernando Lopes às 12:14 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Quinta-feira, 10.03.11

Citação


"Antigamente, sem hesitar um momento, eu entregaria a defesa dos meus interesses a um advogado, o cuidado da minha saúde a um médico, a segurança da minha pessoa a um polícia. Se as circunstâncias o mandarem também hoje terei de o fazer. Mas sem ilusões. Antes como a rês que ao ser tirada do estábulo nunca sabe se a vão levar para o pasto ou para o matadouro."

J. Rentes de Carvalho em "Tempo Contado"

Fernando Lopes às 00:21 | link do post | comentar | ver comentários (2)
 

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