Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O direito de morrer em paz.

por Fernando Lopes, 23 Ago 14

Leio no Público sobre a associação Dignitas e o suicídio medicamente assistido. Escapa à minha compreensão a polémica que possa existir em torno de alguém com uma doença terminal ou incapacitante seja impedido de decidir o momento da sua morte. Assisti à agonia do cancro ou Parkinson e numa situação idêntica gostava de poder decidir sobre a hora da minha partida. Nascemos porque alguém o escolheu por nós, porque se amou, até por mero acaso.  Uma vez que o direito à existência não foi opção nossa que o seja o direito à morte em situações de sofrimento e degeneração. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

E o MEC disse o que sou incapaz de verbalizar.

por Fernando Lopes, 1 Mai 14

Como escritor, não posso traçar uma linha sobre aquilo que escrevo e o que não escrevo. Não posso pensar: «Estarei a ir longe demais?» Eu quero expor-me o mais possível! Todos os escritores que admiro são os que se expõem. Ser escritor é expormo-nos. Uma pessoa tem de correr o risco de não ter graça, o risco de passar too much information  [informação excessiva], ou informação íntima que não interessa absolutamente nada… Não há confissão excessiva. As pessoas podem sentir-se desconfortáveis com essa confissão, mas o dever do escritor é expor-se, expor-se, expor-se. E escrever também tem um lado de catarse e de desafio em que uma pessoa desabafa à frente dos outros, desata aos gritos, a bater com os punhos de revolta, e não tem vergonha de o fazer.

 

Hoje pensei recorrentemente em suicídio uma vez mais...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Conversando com a morte.

por Fernando Lopes, 26 Jan 14

- Que estás aqui a fazer? Vieste-me buscar?

- Nunca apareço sem ser convocada; vim ao teu apelo, inconsciente ou não.

- É hora de ir?

- Nunca aviso quando venho em missão. Esta é apenas uma visita de cortesia, de avaliação se assim quiseres.

- Não há maneira de te enganar?

- Muitos tentaram, nenhum conseguiu.

- Consigo gerir a minha morte. Se me suicidar, por exemplo.

- Não sejas ingénuo, estou lá sempre, sou eu que decido do sucesso ou fracasso. Não podes enganar-me.

- Quem são essas aí atrás?

- São as minhas irmãs: tragédia, doença e envelhecimento. Embora seja a face que todos conhecem, ando sempre com elas.

- Tenho mais medo das tuas irmãs.

- Vê se compreendes isto: as nossas decisões são colegiais, nunca levo ninguém sem o seu consentimento. Porque causo grande medo, elegeram-me como representante; sou no entanto parte desta parceria indestrutível e eterna.

- E porque me apareceste assim em sonhos? Porque falas comigo?

- Apareci, chamaste, estás a confrontar-te com a tua mortalidade? Não sou eu que tenho resposta a essas perguntas. Tu e só tu és capaz.

- Não entendo.

- Esforça-te, é só um sonho, uma visitação aos teus medos.

- Significa que não me vens buscar hoje?

- Hoje, amanhã, daqui a dez anos, quando for, será.

- Tenho uma filha pequena, gostava de a ver crescer.

- Não está nas tuas mãos. Contenta-te em aproveitar o que tens agora, seria estúpido da tua parte pensar que a paternidade faz alguma diferença. Imaginas quantos como tu já levei?

- O.K., aceito.

- Não temas, virei por ti quando menos esperares.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

Luiz Pacheco e a morte.

por Fernando Lopes, 5 Jan 14

Naquela altura morria muita gente de tuberculose, hoje é de cancro ou do coração, morre-se de qualquer coisa, tanto faz, vivemos entre mortos, gente que vai morrer e sabe que vai morrer e gente que já morreu, gente morta ou provavelmente morta ou morta daqui a bocado, amanhã, hoje ainda talvez, morte súbita, morte zás! e adeus… os mortos caem em todos os lados, caem-nos em cima, apertam-nos, já não metem medo, são tantos, há muitos, há cada vez mais companhia de mortos, tornam-se maçadores, abafam o ar. Aparecem-nos às vezes com um sorriso, fingem bem, mas debaixo dos fatos vem um cheiro que não engana, os olhos são vazios e lúcidos, já não querem ou esperam nada, estão mortos por detrás da gravata.
(…) Vamos criando distâncias pela vida fora, vamos morrendo uns para os outros. E também vamos morrendo dentro de nós. Dou os bons-dias a tipos que já matei; passo na rua por alguns satisfeitos fantasmas que se espantam (gritam-me: Ó pá, inda és vivo?) quando me vêem respirando e mexendo dentro da minha farpela pobre. Dormi mais de dez anos com o cadáver da minha mulher e na mesma cama. Jamais nos conhecemos, fomos sempre dois mortos um para o outro. São coisas que acontecem.

 

In "O Teodolito"

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

subscrever feeds