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Herança.

por Fernando Lopes, 8 Fev 17

 

– Talvez seja o nosso estado natural – disse Falcón. – Sermos originados por seres humanos complicados que não é possível conhecer. Somos sempre os portadores do não-resolvido, que depois acrescentamos com as nossas próprias questões irresolúveis, e que, por nosso turno, passamos à descendência.

 

Robert Wilson in «O Cego De Sevilha»

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Pessoal, mas não íntimo.

por Fernando Lopes, 1 Set 16

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Como sabe a freguesia não tenho intentos de crítico literário. Não podia, no entanto, deixar de escrever algumas linhas sobre «A Minha Luta – A Morte Do Pai» de Karl Ove Knausgard. Parece que a série autobiográfica, e este primeiro livro em particular causaram querelas jurídicas entre Karl Ove e a família, foi anunciado como o despir de um homem através da escrita. Sou apaixonado pela diarística, daí a impossibilidade de recusar esta proposta norueguesa.

 

Tecnicamente – em termos de qualidade da escrita – é uma obra quase irrepreensível. Os primeiros anos de vida do autor até à morte de seu pai, provocada por um alcoolismo «tardio» ou escondido, são aqui retratados. Há, no entanto, um pudor luterano que perpassa toda a obra. Não conheço a noruega ou noruegueses, suponho que serão discretos e contidos. Assim é esta obra. O autor refere várias vezes a necessidade de a sua família ser correcta, composta por boas pessoas, esse espírito perpassa todo o livro. Cauteloso, sem rasgos de grande angústia, ódio visceral, violência, sexo. A relação com o pai é complicada, entre o ódio, admiração e medo, mas não o são tantas?

 

Há capítulos enternecedores, como o momento em que descreve a sua primeira paixão. Belo, sincero, pueril. Existem reflexões importantes sobre a morte – que abre o livro – a necessidade de escrever, a relação do autor com a pintura. Num ou outro ponto passa a sua visão sobre o poder quase mágico que o álcool exerce sobre ele, sentimento que me é próximo.

 

É uma obra interessante, que li com agrado, mas vejo pouco de proustiano ou dilacerador neste primeiro capítulo. É pessoal, mas não íntimo.

 

Um dos poucos diários que despe autor e leitor pela sinceridade abrutalhada, caótica, insana, é «Diário Remendado» de Luíz Pacheco. Suponho que quem acha esta respeitável obra um ícone de intimidade e exposição sobre a forma escrita nunca o tenha lido.

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Do poder analítico da literatura.

por Fernando Lopes, 25 Jul 16

Mas o tempo… o tempo primeiro fixa-nos e depois confunde-nos. Pensávamos que estávamos a ser adultos quando estávamos só a ser prudentes. Imaginávamos como estávamos a ser responsáveis, mas estávamos só a ser cobardes. Aquilo a que chamávamos realismo acabava por ser uma maneira de evitar as coisas e não de as enfrentar. Tempo… deem-nos tempo suficiente e as nossas decisões mais fundamentadas parecerão instáveis e as nossas certezas, bizarras.

 

[…]

 

Quantas vezes contamos a história da nossa vida? Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contamos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas – principalmente – a nós próprios.

 

JULIAN BARNES IN «O SENTIDO DO FIM»

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Candidatos a críticos literários.

por Fernando Lopes, 28 Jun 16

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Quando compro um livro gosto de dar uma volta pela bloga a ler opiniões alheias. Arrependo-me sempre. Admiro imenso quem escreve de modo sério, laborioso, trabalha um enredo, dedica tanto a aperfeiçoar o escrito como a escrever. Como sei que o talento é escasso mais essa admiração cresce, pois qualquer das «estórias» que leio me seriam impossíveis de urdir. Para se saber escrever é primeiro preciso saber ler. Há blogues de crítica literária em que os autores não sabem fazer uma coisa nem outra. E os comentários senhores, porque os escrevem assim?

 

A propósito de «O Sentido do Fim» de Julian Barnes, deparei-me com isto:

 

«queria dizer que o livro necessitaria de mais do que as 152 pág. que tem para ser grandioso. Pode-se fazer muito - e bem - em poucas páginas mas há limites e para aprofundar tudo aquilo que é aflorado e tornar este livro mais rico penso que lhe falta tamanho - corpo.»

 

Corpo, um cartapácio, isso é que era. Qual depurar a escrita, qual minimalismo, qual quê, nunca se escreveu nada de grandioso em menos de 300 páginas.

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«andar».

por Fernando Lopes, 27 Jun 16

É melhor eu explicar o conceito de «andar» com alguém, já que o tempo o alterou. Falei recentemente com uma amiga, cuja filha chegara ao pé dela num estado de aflição. Estava no segundo trimestre da universidade e tinha dormido com um rapaz que andava – abertamente e com conhecimento dela – a dormir com várias outras raparigas ao mesmo tempo. O que ele fazia era uma audição a todas, antes de decidir com quem viria a «andar». A filha estava perturbada não tanto pelo sistema – embora se apercebesse da sua injustiça – mas pelo facto de, no fim, não ter sido a escolhida.

 

Isto fez-me sentir como um sobrevivente de uma cultura antiga e ignorada, cujos membros ainda usavam nabos esculpidos como forma de troca monetária. «No meu tempo» – e embora na altura eu não revindicasse tal propriedade, agora ainda a revindico menos – era isto que costumava acontecer: conhecíamos uma rapariga, sentíamo-nos atraídos por ela, tentávamos cativá-la, convidávamo-la para um ou dois eventos sociais – o pub, por exemplo – depois convidávamo-la para sair a sós, convidávamo-la de novo e, após um beijo de boas noites de intensidade variável passávamos, por assim dizer, a «andar» com ela. Só quando estávamos prática e publicamente comprometidos, é que descobríamos a política sexual dela. E por vezes isso significava que o corpo dela era tão estrito e reservado como uma zona de pesca exclusiva.

 
JULIAN BARNES IN «O SENTIDO DO FIM»

Barnes nasceu em 1946, eu em 1963. Os dezassete anos que nos separam, Leicester onde nasceu e o Porto que me pariu são tão próximos na descrição do que era «andar» no final dos anos 60 do século passado e nos inícios dos 80, que estas palavras poderiam perfeitamente ser minhas, da minha geração. Estas e outras fazem-me sentir que já não sou deste tempo e que não quero que este tempo seja o meu.

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Amor & C.ª

por Fernando Lopes, 3 Jun 16

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Dizem “O casamento falhou”, “O casamento acabou”. Ah, então o culpado foi o casamento? Não existe isso de “o casamento”, foi o que eu concluí. Só existimos eu e ela. Por isso a culpa ou é minha ou é dela. E enquanto na época eu achava que a culpa era dela, agora sinto que é minha. Falhei com ela. E falhei comigo. Não a tornei de tal maneira feliz que lhe fosse impossível partir. Foi isso que eu não fiz. Por isso falhei e sinto vergonha. Comparado com isto, o facto de poderem pensar que o meu pirilau não presta não me afecta nada.

(…)

 

Vou dizer-vos a conclusão a que cheguei, depois dos anos todos com o Gordon, anos que, apesar do que possam pensar, foram bastante felizes, ou tão felizes como os de qualquer outra pessoa, creio. A minha conclusão é esta: à medida que vivemos com outra pessoa, vai diminuindo a nossa capacidade de a tornar feliz, enquanto a capacidade de a fazer sofrer permanece intacta. E vice-versa, é claro.

 

in «Amor & C.ª» de Julian Barnes

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Segredo.

por Fernando Lopes, 5 Mar 16

- E agora sabe? – Andrews agitou-se incomodamente. – A juventude – observou desdenhosamente. – Julgam sempre que há qualquer coisa a descobrir.

- É verdade, senhor.

- Pois bem, não há nada – tornou McDonald . – Uma pessoa nasce, é amamentada na mentira , é desmamada na mentira e aprende mentiras mais elaboradas na escola. Vive toda a vida na mentira e mais tarde, porventura quando está presteS a morrer, descobre que não há nada, nada a não ser ela própria e o que poderia ter feito. Só que não o fez porque as mentiras lhe disseram que havia outra coisa. Nessa altura percebe que poderia ter todo o mundo, porque é a única pessoa que sabe o segredo só que então já é tarde demais. Já é demasiado velho.

in «BUTCHER'S CROSSING« DE JOHN WILLIAMS 
 
 

Por muita crueza e desilusão que esta citação comporte, é bem o espelho de um homem confrontado com a sua circunstância. Somos o que fizemos, não o que sonhamos fazer. Vem um travo amargo à boca, um cerrar de dentes, um fúria interior que me aconselha: vive, vive tudo enquanto é tempo.

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Que andas a ler, Fernando?

por Fernando Lopes, 15 Fev 16

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Não perceber nada de mulheres.

por Fernando Lopes, 18 Jan 16

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Estou a ler «Mulheres» de Bukowski. É reconfortante entender que como eu, também o poeta e romancista não entendia o sexo feminino. O livro é um relato cru de Henry Chinaski – alter-ego de Bukowski -  de 50 anos, que após uma eternidade de solidão e abstinência, até de um certo desinteresse, devido à fama literária crescente se vê envolvido numa série de casos amorosos que passam a marcar o ritmo da sua vida e escrita.

 

Chinaski tem uma visão muita vezes chocante das mulheres, usando-as e deitando-as fora. Confessa que amou apenas uma mulher que se embebedou até à morte e inconscientemente mantém dentro dos seus afectos mulheres extremas, que vivem como ele num limbo entre o consciente e inconsciente, deixando-se dominar pelos instintos mais primários.

 

As boas mulheres, sem problemas, amantes fiéis, cuidadoras do seu alcoolismo, são-lhe inúteis porque lhes falta a ânsia da vertigem.

 

A Katherine sabia que havia algo em mim que não era salutar, no sentido em que é salutar aquilo que nos faz bem. Eu sentia uma atracção por todas as coisas erradas: gostava de beber, era preguiçoso, não tinha um deus, política, ideais. Estava instalado no nada; uma espécie de não-ser, e aceitava-o. O que não configurava uma pessoa interessante. Eu não queria ser interessante, era demasiado difícil. Aquilo que realmente queria era apenas um espaço ameno e enevoado onde viver, e que me deixassem em paz. Por outro lado, quando me embebedava punha-me aos gritos, enlouquecia, passava-me dos carretos. Um comportamento não batia certo com o outro. Pouco me importava.

 
Charles Bukowski, «Mulheres», pág.135

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A pergunta.

por Fernando Lopes, 11 Jan 16

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Na juventude era consumidor ávido de ficção científica e fantasia em duas colecções de livros de bolso, «Argonauta» e da Europa-América. Há mais de uma vintena de anos que não pegava num livro do género, mas todo o ruído no Goodreads e na net em geral levaram-me a adquirir «O Marciano» que viria a dar origem ao filme «Perdido em Marte» protagonizado por Matt Damon.

 

À parte uma série de patuá científico que as mais das vezes me passou ao lado, é um livro escrito num estilo simples, quase coloquial, onde as peripécias da personagem se sucedem a um ritmo acelerado, mantendo o leitor preso. No fundo é a história de um Robinson Crusoe do futuro, arraçado de MacGyver, com enorme sentido de humor e capacidade de rir de si mesmo e da sua desgraça.

 

Uma das coisas que mais me diverte é ver se os filmes baseados numa determinada obra se mantêm fiéis ao original, e se a minha imaginação foi superada pelo milagre do cinema. Para dizer a verdade a maior parte das adaptações são muito piores que os livros. Lembro-me da honrosa excepção de «O Senhor dos Anéis» em que algumas vezes abri a boca de pasmo para dizer com os meus botões: isto está melhor do que tinha imaginado.

 

O livro, para exponenciar as vendas, vinha com uma sobrecapa referente ao filme. A minha filha ao vê-lo não resistiu à pergunta sacramental.

 

- Pai, esse livro não existe em filme?

- Sim.

- Então porque é que estás com esse trabalho todo?

- Quero imaginar antes de ver o filme.

 

Uma questão inocente de uma criança de 10 anos que estou certo seria replicada pela maioria dos adultos.

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