Quarta-feira, 22.05.13

A dança do camone.

Por alturas de Abril inicia-se a grande migração anual do camone. Primeiro chega o camone de poupa grisalha, que se caracteriza por andar em bando dentro de autocarros coloridos, ter idade avançada e fazer-se acompanhar por imensos companheiros de migração. Trazem sempre uma guia que ajuda no check-in, a descer do autocarro e inicia nos hábitos dos indígenas. O camone de poupa grisalha não é dado a improvisos e cumpre rigorosamente as normas. Se um sinal para peões está vermelho, espera pacientemente os 5 minutos que a coisa demora a mudar de cor. É um valor seguro.

 

Em Maio chegam exemplares mais novos, os camones de poupa loura. Acompanham-se da fêmea e ocasionalmente das crias. A bagagem resume-se a pequenas malas de mão permitidas pelas companhias aéreas low-cost. Mais dinâmicos e atrevidos procuram adaptar-se aos hábitos locais.

 

Hoje estava a observar o camone de poupa loura e o seu comportamento e adaptabilidade face aos disparatados tempos dos semáforos para peões na invicta. Fazem uma espécie de dança nupcial, plena de avanços e recuos face ao homenzinho vermelho que insiste em permanecer na mesma cor. Observam pasmos os movimentos de toureio com que os locais ignoram carros e sinais. Depois, seguem-nos, desajeitados como qualquer principiante. No momento que chegam sãos e salvos ao outro lado da rua, sorriem façanhudos. Convido-vos a prestar a maior atenção a este fenómeno tão português do toureio de semáforos e à reacção dos visitantes a esta tradição lusa. Olé!

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Fernando Lopes às 18:46 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Quinta-feira, 09.05.13

bem

É verdade que o mundo moderno na maioria das vezes transforma a nossa vida num inferno. Mas há exceções. Por exemplo: Descobrir que o elevador já está no seu andar. Comida de restaurante entregue em casa – de preferência bacalhau à lagareira numa tarde chuvosa de domingo. Água de geladeira. Pacote cheio de sorvete que você tinha esquecido no congelador. Aliás, como era possível a vida antes do sorvete? […] Um bom sofá macio. Uma longa chuveirada. Dia em que não se tem que fazer absolutamente nada. Uma brisa inesperada em meio a um dia quente.

 

 (Carneiro, João Emanuel in Veja/RG, 25 de Setembro de 2002)

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Fernando Lopes às 01:29 | link do post | comentar | ver comentários (5)
Sábado, 04.05.13

Desfile Anual de Carros Eléctricos.

Hoje foi assim. Andar de eléctrico, em modelos históricos que só uma vez por ano saem do museu. Devagar, com o rio como companheiro, uma calma não é a de hoje. Sentir o sol como se estivesse lá só para nos aquecer. Ouvir a história da senhora que vem de Famalicão porque o marido gosta de pescar no rio Douro. Ver turistas, portuenses e amantes deste meio de transporte a discorrer sobre o americano, o belga, o 500 e o pipi. Recordar os tempos em que a descida até à Foz, pela avenida da Boavista, era o nosso percurso diário para a praia. Acabar a tarde numa esplanada como se nada no mundo fosse capaz de perturbar aquela paz dos que têm contas certas com a vida.

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Fernando Lopes às 20:54 | link do post | comentar | ver comentários (5)
Quinta-feira, 02.05.13

Estranha forma de sedução.


Como sabem as almas do purgatório – sim, estou a referir-me a si, caro leitor(a) – sou desses seres raros e misóginos da raça dos fumadores. Hoje em dia tudo é preferível a ser viciado em tabaco. Se confessar ao seu médico que contraiu herpes, gonorreia ou chatos, será contemplado com um sorriso complacente; se se disser fumador, será abjurado para todo o sempre.

 

A empresa onde trabalho criou um cruzamento de paragem de autocarro e “fritadeira” do Tarrafal, onde seres estranhos se divertem a inalar e exalar fumo com grande satisfação. O local, nas traseiras do edifício, possibilitou-me o interesse pela ornitologia. Enquanto fumo observo melros, passarada vária, e sobretudo, gaivotas. Sou um David Attenborough amador, pois já assisti a todas as fases de vida deste mal-amado animal. O que parecia impossível, aconteceu: ganhei afecto à espécie depois de ver os pais acasalar, nascer os pretos filhos, observar as tentativas patéticas de voo.

 

Para os menos atentos, cumpre-me informar que se iniciou a época de acasalamento. Já tinha assistido – pensava eu – a todas as formas de sedução. Os gritos estridentes, alisar de penas, acrobacias aéreas e toda uma panóplia de tentativas de dar nas vistas em que todos os machos são pródigos, fazendo pouco mais que figuras de parvos, pois também nas aves, têm as fêmeas a última palavra. Quando nos convencemos que já vimos tudo, logo a natureza se encarrega de nos surpreender. Hoje, uma espécie de Zezé Camarinha da gaivotagem regurgitava para o bico da amada, provando-se perfeitamente capaz de prover sustento para a futura família nestes tempos difíceis. Este gajo vai longe; pensei. Já incorporou o espírito da troika e tal como os nossos governantes, depois de encher o papo, vomita o que já não quer e ainda faz boa figura. 

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Fernando Lopes às 19:30 | link do post | comentar | ver comentários (7)
Segunda-feira, 22.04.13

Estranho é…

observar um chinês, calmamente, na paragem de autocarro, a tirar macacas do nariz e colá-las no poste que indica as linhas. Espreito os restantes utentes, que se dividem entre a risota e o vómito. O homem lança um sorriso cândido e esfrega com força o indicador para melhor colar uma catota mais resistente. Apercebe-se da surpresa e interroga mentalmente, do alto do seu bigodinho ralo:

- Mas o que é que foi?

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Fernando Lopes às 19:04 | link do post | comentar | ver comentários (7)
Sábado, 06.04.13

Bye Bye, Tunísia.


Uma jovem tunisina foi condenada à morte por lapidação depois de ter publicado numa página do Facebook uma fotografia em que aparece em topless e onde se lê, em árabe, a frase: «O meu corpo pertence-me e não representa a honra de ninguém». A ousadia e a respectiva condenação acenderam, mais uma vez, a polémica em torno dos direitos das mulheres na religião islâmica. 


 

Na Tunísia que vistei várias vezes, conviviam lado a lado tradição e a modernidade. A Primavera transformou-se em Inverno obscurantista. Na minha ingenuidade acreditei numa transformação democrática, saiu-me um regresso à Idade Média. Digo por isso, com o coração apertado, "Bye Bye, Tunísia".

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Fernando Lopes às 18:48 | link do post | comentar
Sexta-feira, 05.04.13

A polémica da depilação genital feminina.

Foi um dos primeiros temas abordados no purgatório. Agora, chegou ao Espesso, por mão de uma senhora de saltos altos. As opiniões são como o olho do cu, todos temos um e o dos outros cheira sempre mal. Sou totalmente libertário, pilosidades incluídas.

 

No entanto, a argumentação em defesa do tapete persa peca por inconsistente. Porque tiram as mulheres as pilosidades da cara, sovacos e pernas? Não estarão também aí os pêlos a exercer uma função protectora? Porque é que uma perna pode ser depilada e uma vulva não?

 

As infecções que o respeitável British Medical Journal achou mais frequentes não devem ser fáceis de provar, uma vez que é importante ter em conta o comportamento sexual e nível de higiene das donas da respectiva vagina. Além do mais os pêlos são óptimo abrigo para chatos e outros animais pouco recomendáveis.

 

E porque é que muitas asiáticas são naturalmente imberbes na púbis? Estarão elas mais sujeitas a infecções e doenças sexualmente transmissíveis? Só se praticarem a mais velha profissão do mundo.

 

Cada um a seu gosto, não me move nenhum instinto pedófilo ou similar. Dá-se o estranho facto de gostar de vaginas e achar particularmente sexy as depiladas. E depois?

 

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Fernando Lopes às 20:06 | link do post | comentar | ver comentários (6)
Terça-feira, 02.04.13

Verdadeiros animais ferozes…

 

são as apresentadoras da TV Norte-Coreana. Todo este entusiamo deve-se ao sucesso no lançamento de um “rocket”. Sócrates poderia aprimorar a narrativa e reforçar o reconhecido vigor após formação intensiva com pivots norte-coreanos.

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Fernando Lopes às 00:02 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Terça-feira, 26.03.13

As lágrimas têm cheiro.

Chorei por quase todos os motivos possíveis: amor, medo, alegria, raiva, angústia, dor, frustração, saudade. Desalmadamente e com contenção. Gedeão diria que as lágrimas têm apenas o aroma do sódio. Sinto-lhes algo de diferenciado. Lágrimas de dor deixam um odor intenso a água salobra. Na saudade sinto um perfume agridoce, na raiva, um toque de azedo. Pode ser a minha imaginação, ou talvez não.

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Fernando Lopes às 12:10 | link do post | comentar | ver comentários (3)
Segunda-feira, 25.03.13

Desperdício.

Jovem, bonita, inteligente, camarada. Terá o seu feitio. Vive só. Tem amantes ocasionais. É desperdício, mulher que mereceria ser amada, sempre. Ninguém entende se a solidão se instalou nela, ou se o medo a impede de arriscar. Não desistas, mereces mais.

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Fernando Lopes às 00:01 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Quarta-feira, 20.03.13

Confunde-os.

 

faz tudo ao contrário do que é esperado:

 

caminha às arrecuas,

para que os outros se achem no sentido errado.

 

embebeda-te quando todos estiverem sóbrios,

mantêm-te sóbrio perante os ébrios.

 

não seja caridoso,

rouba a caixa de esmolas da igreja.

 

não abraces a polícia,

atira-lhes pedras.

 

passeia nu no inverno,

usa sobretudo no verão.

 

chora perante as piadas,

ri-te face ao drama.

 

quando todos acharem que isto é o teu normal,

confunde-os, e volta a fazer tudo ao contrário.

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Fernando Lopes às 18:49 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Segunda-feira, 18.03.13

O asilo.

Vivemos num mundo segmentado pela idade, em que as várias gerações cada vez menos se cruzam. A falta de respeito pelos velhos, deve-se, não só à publicidade, que teimosamente alimenta o mito da juventude para consumidores cada vez mais envelhecidos, mas também porque insistimos em proteger as nossas crianças de tudo o que está em decadência, como se não fossem eles os velhos de amanhã.

 

Ocorre-me esta prosa porque vivemos encaixotados em armários de gerações. Os mais novos na escola, os adultos a trabalhar ou a tentar encontrar trabalho, os velhos em asilos, colocados longe para afastar a visão da nossa futura decrepitude.

 

Com uma emigração jovem em massa, sem política de incentivo à natalidade, Portugal será dentro de uma ou duas décadas, um gigantesco asilo de velhos pobres, maltratados, a viver em condições sub-humanas. Haverá futuro mais aterrador do que este?

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Fernando Lopes às 22:10 | link do post | comentar | ver comentários (6)
Quarta-feira, 06.03.13

101 anos.

 (porque as estórias têm rosto)

 

Hoje farias 101 anos. Não sei onde estás, se no céu como acreditavas, se no esquecimento, como muitas vezes discutimos. Quero dizer-te que a bisneta que esperaste para ver ainda bebé, já fez 7 anos. Aquela fotografia tua, do avô e do pai quando fez um ano, está lá na sala. Olho muitas vezes para ela, gosto de vos ver eternamente jovens. Tenho saudades das tuas estórias, conselhos, comida, carinhos. Dizem que só morremos verdadeiramente quando pronunciam o nosso nome pela última vez. Conceição, digo-o muitas vezes. Até já.

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Fernando Lopes às 08:00 | link do post | comentar | ver comentários (6)
Quarta-feira, 27.02.13

Carne é morte e todos somos cúmplices.


Estive dois anos sem comer carne. Não me choca que se matem e comam animais, mas sim a sua produção industrial, uma "Animal Farm", em que os porcos somos nós.

 

Vídeo: cortesia da Alice Alfazema.

 

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Fernando Lopes às 19:38 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Terça-feira, 19.02.13

Implantes.

- Boa tarde, companhia de Seguros.

- Boa tarde, o meu nº de apólice é o 1234567 e precisava de um esclarecimento.

- Diga, por favor.

- Precisava de colocar dois implantes e queria saber se é necessário alguma autorização prévia.

Os rapazes à minha volta começam a rir desbragadamente.

- Está a ouvir? Queria só esclarecer que se trata de implantes dentários.

- (Riso) Tinha percebido perfeitamente que estávamos a falar de estomatologia.

- Ufaaa! 

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Fernando Lopes às 18:59 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Sábado, 16.02.13

Acumuladoras.

Confessava hoje a uma amiga que as raparigas cá de casa sofrem de alguma variante do Síndroma de Diógenes. São acumuladoras quase compulsivas. Revistas, roupas da década passada, brinquedos de bebé, botões, pilhas, folhetos de promoções, tudo é passível de ser guardado.

Resposta: Eu faço o mesmo, nunca se sabe quando as coisas podem dar jeito!

Mania feminina ou imponderável da genética?

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Fernando Lopes às 00:07 | link do post | comentar | ver comentários (3)
Segunda-feira, 11.02.13

Confusão carnavalesca.

Uns trabalham, outros não. O caos criado por Cavaco nos idos de 93 permanece até hoje. O feriado é gozado aleatoriamente, dependo da decisão das câmaras municipais, acordos colectivos de trabalho e até da vontade das empresas. Um belo exemplo: eu fico em casa, a minha senhora não, somos ambos trabalhadores do sector privado. Hoje e principalmente amanhã, estará o País parado, a fingir que trabalha, por vontade dos patetas que nos governam(aram). É assim tão difícil chegar a um consenso e, por uma vez, decidir se é feriado ou não, para todos, em todas as localidades?

Fernando Lopes às 17:52 | link do post | comentar | ver comentários (6)
Sábado, 09.02.13

O mariscador morreu no mar.

 

 

hoje, algures no Algarve.

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Fernando Lopes às 13:31 | link do post | comentar | ver comentários (7)
Quarta-feira, 06.02.13

Cala-te, ó Fernando!

Questionado por Ana Drago sobre o cuidado que se deve ter com afirmações como as de Ulrich sobre os sem-abrigo quando se aufere uma remuneração de 60.000 euros/mês, o ofuscante banqueiro disse algo do género:

"Preocupam-se com as minhas remunerações e não com as do Jorge Jesus, se calhar é porque isso tira votos."

Eu explico: a teu lado, o príncipe da Reboleira é um modelo de contenção verbal e demonstra a mais fina sensibilidade social. Tu, Fernando, não passas do Jorge Jesus da banca, assim a modos que para pior.

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Fernando Lopes às 00:28 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Quarta-feira, 30.01.13

Quinta de formigas.

Todos os dias, no jardim que delimita o interior da rotunda da Boavista, vejo uma mulher correr. Terá cerca de 40 anos, usa um fato de treino discreto. Desconheço o objectivo da senhora, mas o esforço é bem visível no rosto. Um círculo infindável. Não deixo de fazer uma analogia com a minha vida. Corro para levar a miúda à escola, para chegar a tempo ao trabalho, para almoçar, para recolher a cria, para jantar.

 

Se a nossa vida fosse observada do céu, por certo pareceríamos uma enorme colónia de formigas, laboriosas, movendo-se rapidamente de um sítio para o outro, sem sentido aparente. Um bailado patético destinado a assegurar necessidades básicas como abrigo e comida.

 

Corremos, como se pudéssemos fugir ao fado. E, no entanto, ele está lá, atento, rindo dos movimentos que fazemos para assegurar pouco mais que a sobrevivência e perpetuação da espécie. Como numa quinta de formigas.

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Fernando Lopes às 19:13 | link do post | comentar | ver comentários (2)
 

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