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À janela.

por Fernando Lopes, 1 Jun 17

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Todos os dias, às 08:30 da manhã, esta senhora idosa está a janela, imagino que a admirar a pressa dos transeuntes que correm para os escritórios, outros ainda quase arrastam crianças pequenas para a escola próxima. Em baixo passam os carros, motos, entram os trabalhadores. Passados uns minutos desaparece. Uma vez que o edifício onde trabalho tem vidros espelhados não imagina que está a ser observada. Já me habituei a vê-la ali, se um dia desaparecer vou sentir a sua falta. Depois pergunto-me: quem é tão estúpido que adianta a hipótese de sentir a falta de quem não conhece?

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Do exagero na disponibilidade.

por Fernando Lopes, 28 Mai 17

Em mais de trinta anos de trabalho passei por muitos episódios caricatos. Tive como chefias pessoas muito inteligentes, outras nem por isso. Faz parte. O início da minha vida profissional foi num projecto demasiado avançado para o seu tempo. Em 1989, através de um terminal específico já se podia encomendar do supermercado ou consultar saldos bancários. Sim, há vinte e sete anos, tal já era possível em Portugal. O projecto ainda hoje é um case study de como uma ideia brilhante implementada prematuramente pode fracassar. O homem que teve a ideia emigrou para onde os prados eram mais verdes e durante um ano tivemos um chefe que, boa pessoa, era um bocadinho bronco.



Numa reunião em que estava presente, diz a uns potenciais clientes:

 

- A [nome da empresa] está de pernas abertas!

 

Torci-me todo para não me desmanchar a rir na cara do homem, ainda hoje quando me falam de disponibilidade deixo escapar um sibilino «estou de pernas abertas».

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Reaprender a sorrir.

por Fernando Lopes, 1 Abr 17

Tenho uma capacidade inata para me colocar na pele do outro, para «farejar» o sentir da minha gente, destes meus irmãos que vão para a fábrica às 6:30, que se deslocam para o escritório com marmitas coloridas, que vão para a escola vergados com o peso das mochilas, dos velhos solitários ansiosos por trocar dois dedos de conversa. Sinto no ar um ambiente mais distendido, a culpa por «viver acima das possibilidades» a escorrer para a sarjeta, lavada por estas águas de Março. Houve uma revolução? Nem por isso. As condições de vida melhoraram substancialmente? Não o noto. Há menos desemprego? Só mesmo um pouquinho. Se outro mérito não teve, este governo devolveu-nos uma pitada de esperança, pequenas doses de auto-estima, cortou a gordura da culpa e deitou-a fora. Passos apostava na auto-flagelação desta gente humilde, a quem disseram que ter um pequeno apartamento nos subúrbios ou passar oito dias de férias em Benidorm era coisa de ricos, reservada aos tipos ricos e loiros do norte, poupados e trabalhadores, enquanto gastávamos o que não tínhamos em álcool e mulheres. As palavras de Dijsselbloem preocupam-me tanto como o zurrar de um asno, o facto de os portugueses se incomodarem com a diatribe deste cretino é um sinal ténue desse amor próprio reencontrado. Existem poucas coisas que me deixem mais feliz que ver estas pessoas simples, trabalhadoras, a reaprender a sorrir.

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Meu Deus, fui «piropeado».

por Fernando Lopes, 31 Jan 17

 

Confesso que já me não acontecia desde finais dos anos 80, início dos 90. Uma rapariga mandou-me uma piada ininteligível e uma tentativa de assobio – é por todos sabido que as raparigas que assobiam alto não casam. Olhei à volta para ver se era mesmo comigo, a moça sorriu com ar malandro. Ultraje! Procurei um bófia para fazer queixa, mas é sabido que as FdaP das autoridades nunca aparecem quando delas necessitamos. Queria seguir conselho dos camaradas do Bloco, ser o primeiro macho a apresentar queixa por ter sido piropeado. Senti-me ridículo e apercebi-me do que já aqui tinha escrito. Um piropo, desde que não seja ordinário ou vulgar, não traz mal ao mundo. Outra verdade é que os papéis de género já não são o que eram, nos dias de hoje uma mulher pode mandar uma piada a um homem sem que caia o Carmo e a Trindade por causa disso, e sem que o visado – neste caso o vosso humilde escriba – se sinta ferido, objectificado, sexualizado, e uma série de advérbios que a boa esquerda usa em circunstâncias análogas.

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Rituais ecológicos de purificação.

por Fernando Lopes, 14 Dez 16

Diálogo hoje com a senhora da limpeza da empresa:

 

- Tenho um certo medo de ser enterrado, se calhar vou comprar um jazigo.

 

- Eu cá, quando morrer, quero ser carbonizada.

               

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Cisma grisalho.

por Fernando Lopes, 20 Set 16

O restaurante onde almoço diariamente tem tido um empregado novo quase todas as semanas. Primeiro foi um jovem, mesmo muito jovem, depois um rapaz empertigado com ar de quem estava a servir caviar e não bife com molho de francesinha, um outro já perto dos sessenta com enorme boa vontade e memória curta. A transformação social e cultural que vivemos, a crise, o medo de perder o emprego, a competição desenfreada, levaram a que seja cada vez menos agradável trabalhar, o trabalho passou a ser mais palco de luta pela sobrevivência que local de camaradagem.  Muitos patrões aproveitaram este momento de mudança de paradigma para exercerem poder de uma forma arbitrária, discricionária, transformando o trabalhador numa «coisa» facilmente permutável. Quando vi por lá o senhor, já bem passado dos cinquenta, confesso que tive uma certa pena por um tipo daquela idade ser obrigado a competir com miúdos que poderiam ser seus filhos, quase netos. Não deve ser fácil. O momento político anterior aplicou a velha máxima do «dividir para reinar». Pegou, e tendemos a ver no vizinho do lado um competidor em vez de um companheiro. Pôs novos contra velhos, trabalhadores do privado contra os do público, a isto chamou «cisma grisalho». Temo que este momento, como um cancro, tenha alastrado de tal modo pela sociedade que seja difícil voltar aos tempos em que nos ajudávamos uns aos outros. Sempre houve conflitos, ambições, egos inflados, graxistas, sacanas, mas eram uma minoria que se negligenciava como algo disfuncional.  Hoje são esses e os idiotas úteis altamente valorizados, sobreviventes a não se sabe quê ou quem. Uma sociedade que perde a sua humanidade nos ambientes de trabalho, inexoravelmente, irá perdê-la em todas as outras áreas.

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Da vida.

por Fernando Lopes, 4 Jan 16

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Talvez porque seja demasiado sensível, demasiado estúpido, ou tenha a estranha capacidade de reunir ambas as qualidades, frequentemente comovo-me com coisas simples. A cadela da fotografia acima foi mãe. É tratada melhor que muita gente por esse mundo fora. Apesar disso não deixei de tremer quando peguei ao colo um dos cachorros após uma maratona alimentar. A fragilidade, o mistério que é gerar vida, continuam hoje tão surpreendentes como quando era criança.

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Quando a cabeça brinca contigo.

por Fernando Lopes, 1 Nov 15

É facto conhecido que nos idosos a memória de longo prazo, por mecanismos certamente cientificamente explicáveis mas para mim desconhecidos, se torna mais vívida. Não esperaria aos cinquenta e dois anos estar a experienciar uma senilidade precoce. Certo é que nos últimos tempos velhas memórias me surgem com uma nitidez inexplicável. Tenho sido acometido de clarões de cenas antigas com uma proximidade assustadora. Desde pequenas coisas da infância, os mimos da avó, antigas e não tão antigas situações amorosas, estes flashes estão aqui, cada vez com mais frequência. Tenho recordado velhos amigos que faleceram em circunstâncias trágicas como se tivéssemos conversado ontem, num estranho movimento circular em que passado e presente parecem uma e a mesma coisa. Recordei o Ilídio, tragicamente falecido com uma overdose, o Mário e o Paulinho desaparecidos em acidentes. Estavam ali, vivos, presentes, como se o tempo, a sua morte trágica, fosse nada. Recordei a avó e os seus vivíssimos olhos azuis, subindo Álvares Cabral com as compras na mão e o habitual sorriso maroto; recordei cenas de amor adolescente, momentos de paixão em que o coração nos quer saltar peito fora; o pai no escritório, entre os seus livros, perdido entre as telas e pincéis que tanto amava.

 

Como diz a expressão inglesa «a minha cabeça prega-me truques», surpreende-me, torna o tempo uma insignificância. Senilidade? Saudosismo? Tempo de balanço? Não sei.

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Ter um símio por companheiro.

por Fernando Lopes, 25 Out 15

12:30, estação de metro da Trindade. Após 6 kms de caminhada claudico e decido regressar a casa de metro. Headphones metidos até ao tímpano, volume no máximo, The The e o álbum «Infected» a rolar. Ao meu lado um casal de 40 e poucos anos. Ela loira, magra, com ar simples mas arrumado. O tipo é um mal-ajambrado, ar de grunho, dentes pretos. Agarra-a e apalpa-a como um macaco com cio. Apalpa-lhe o rabo ostensivamente à frente de dezenas de pessoas. Ela tenta puxar-lhe a mão para a anca, mas só o consegue durante breves segundos.  O marmelo roça-se nela com um daqueles cães pequenitos que montam até uma almofada. A mulher visivelmente embaraçada, ruboresce.

 

Desvio o olhar, dou dois passos em frente. Não sou púdico, mas cenas daquelas entre adultos são completamente despropositadas, desagradáveis. Chega a carruagem, entro e fico a pensar o que levará uma mulher a suportar um animal daquele calibre. Falta de amor-próprio? Medo da solidão? Quando chega ao ponto de tolerar um símio daqueles, que dignidade lhe resta?

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Ai, as vertigens.

por Fernando Lopes, 20 Ago 15

6840365-base-jumping-hd-wallpaper.jpg Basicamente, era isto 24 sobre 24

 

Tenho andado calado porque me foi diagnosticado síndroma vertiginoso. Eu achava que as vertigens eram coisas de tias afectadas ou daqueles rapazes que se mandam monte abaixo com uns fatos térmicos e um pequeno pára-quedas nas costas, o base jumping.

 

Involuntariamente tornei-me praticante de modalidade similar mas com menos riscos, o mais que podia era partir uma unha, ou vá lá, na pior da hipóteses, rachar a cabeça. Como já aqui tinha escrito, no primeiro dia foi divertido, no segundo enjoei, no terceiro comecei a ficar preocupado.

 

Fui ao médico, fiz exames ao coração, TAC, análises ao sangue, electrocardiograma, otorrino e saí de lá com um «não sei o que é, o melhor é consultar um especialista em medicina interna». Ora eu julgava que medicina interna tinha a ver com interiores. Nada mais errado, é um médico que faz uma abordagem integrada das patologias, um equivalente ao João Sabichão da medicina.

 

Com uns comprimidos fiquei muito melhor, já consigo caminhar sem me parecer que bebi cinco cervejas de seguida. É uma lição de humildade para este velho macho latino com a mania que as vertigens eram coisa sem importância. O desconforto e incapacidade temporária que me causaram vão fazer com que nunca mais encare tal estado com a sobranceria habitual. Vivendo e aprendendo.

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