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Homens de Vénus e Mulheres de Marte.

por Fernando Lopes, 7 Mar 17

Nunca li «Os Homens são de Marte, As Mulheres de Vénus» de John Gray, e os livros que procuram tipificar, compartimentar, comportamentos humanos, não são algo que me interesse. Logo aí fujo ao estereotipo e coloco-me como macho de características venusianas. Marte, deus da guerra, Vénus ou a sua versão grega Afrodite, a deusa do amor. O título do livro transformou-me numa espécie de aforismo, como se as diferenças entre géneros não fossem ténues e casuísticas. Associam-se aos homens o belicismo, agressividade, uma tendência para a racionalização em detrimento do sentimento, para as mulheres o mundo é mais de emoções e menos de razão, mais de amor menos de guerra. Numa qualquer resenha, tipifica-se que os homens são mais reservados, as mulheres confessionais. Devo ser hermafrodita. Não nego ocasionalmente existiam em mim comportamentos agressivos, mas de uma forma geral considero mais meus o modo de ver e sentir associados às mulheres. Também conheço mulheres que terão padrões e atitudes predominantemente considerados masculinos sem que com isso percam um pingo de feminilidade. Vénus e Marte, Marte e Vénus, temos a cosmologia completamente baralhada. Felizmente.

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Como um boneca havaiana.

por Fernando Lopes, 2 Mar 17

boneca_havaiana_carro.jpg

 

Antes do advento do tunning, em que uns certos marmelos colocam luz negra debaixo do carro, aparelhagem de discoteca, bufadeiras que fazem tremendo cagaçal, jante 21” num carro que deveria ter 17”, cavalos extra para o motor partir mais depressa , etc. etc., o povo tinha uma personalização de viaturas bastante mais minimal. Lembrar-se-ão os mais velhos do rosário no retrovisor, o cão de peluche na parte de trás do veículo a abanar a cabeça, do separador da bagageira coberto de alcatifa de pêlo longo, da santinha, das bonecas sevilhana e havaiana. Eram tempos em que para se ser piroso não era preciso gastar uma fortuna, bastava colocar no coche umas almofadas de crochet feitas pela sra. lá da casa.

 

Como já sabem sou um tipo tremendamente preguiçoso, não ligo muito para roupa – basta ser preta – e detesto ir às compras. A minha mulher e filha iam a um centro comercial, numa das suas excursões em que se podem perder durante um dia inteiro.

 

- Terezinha, se não fosse maçada podias trazer-me uns boxers. Daqueles baratuchos, das lojas espanholas. Um pack de três, por favor.

- OK. Queres alguma cor especial? E que tamanho?

- Cor pode ser qualquer uma, tamanho XL.

 

Ora esqueci-me que emagreci doze quilos, e que XL podia ser excessivo. Um destes dias peguei nos meus boxers novos, acabadinhos de lavar e colocados na respectiva gaveta. Devem ser ligeiramente maiores que o habitual. Olhei ao espelho e parecia uma das bonecas havaianas que colocavam nos carros com excesso de pano por todo o lado. Dançava e a roupa íntima caía-me rabo abaixo. Desatei a rir da triste figura, um trengo é mesmo o que sou.

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Um armário cheio de coisas extraordinárias.

por Fernando Lopes, 1 Fev 17

Lá fora anunciam tempestade, pelas persianas o vento faz notar a sua intensidade uivando como só ele sabe. Escolhi um livro, e, na introdução, dou com a frase de Degas: «A arte é um vício. Não se desposa legitimamente, viola-se.». Penso como adaptaria o pensamento não à arte, mas à vida em geral. Viver, viver mesmo, é um vício. Sinto grandes angústias por minudências, choro com ridicularias, tenho fúrias com – e por causa – de gente que as não merece, vivo num permanente desconforto que é a essência da vida. Fiz tudo e nada fiz. Amei, revoltei-me, ensandeci, trabalhei, sonhei, bebi, tive medo, fugi, pensei. Mentiria se dissesse que faria tudo da mesma forma. Não. Fiz erros de que me arrependo, fui nobre algumas vezes, mesquinho outras tantas. Aprendi. Vivi. A minha vida é um armário cheio de coisas extraordinárias, pessoas extraordinárias, momentos extraordinários. Um armário infinito, onde espero continuar a armazenar tudo o que aprendi com ela. Com essa mesmo, a vida.

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Em contra-mão.

por Fernando Lopes, 20 Jan 17

Como a maioria das pessoas «do meu tempo», fui educado com padrões éticos que hoje são considerados antiquados, desajustados, sem valor. O que antigamente seria gabarolice hoje é auto-estima; a compaixão é vista como uma fraqueza; o carácter como algo adaptável aos que nos rodeiam e às suas circunstâncias; a lealdade algo que se vende por bem menos de trinta dinheiros; a forma mais importante que o conteúdo. Por estas e outras, este tempo do «pós-ética» já não é o meu. O problema, se é que existe, é que algumas pessoas mais velhas embarcam alegremente nesta onda pouco recomendável para se sentirem modernos. Não ambiciono viver neste momento em que tudo é negociável, em que a integridade é algo que, como um ramo de árvore, baloiça ao sabor do vento. Assim, como um velho tonto que se enganou na entrada da autoestrada, circulo em contra-mão. A vantagem é que por muito que achem que vou no sentido errado, sei que o caminho é o que a minha consciência – algo também em desuso – me diz para seguir.

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Tudo e um par de botas.

por Fernando Lopes, 19 Jan 17

Muitas mulheres têm rituais sazonais com roupa. Mudam as coisas do armário de verão para o de inverno, colocam umas num local prioritário em relação às restantes. Nenhum homem perde tempo com isso. Gajo que é gajo está-se nas tintas, apenas veste uma camisola quando está frio, nem sequer sendo muito exigente com o que lhe calha em sorte, bastando que esteja lavada. A chefa cá de casa andou a organizar os trapinhos, aproveitou para me propor uma limpeza dos meus. Tinha coisas que não vestia desde os anos 90, mas porra, eram as minhas coisas. Ora eu tenho «roupa afectiva». Explico o conceito: preservo um blusão de pele há mais de trinta anos porque a minha avó mo deu e porque naquela altura custou cinquenta contos, uma pequena fortuna; existem Levi's já meias podres que me recordam momentos felizes e não quero delas abdicar; tenho uma t-shirt de cada país que visitei e não planeio deita-las fora; conservo algumas tralhas de juventude porque me recordam esses tempos de Frei João Sem Cuidados. Obviamente, tive de ouvir a piada: mas é tudo afectivo para ti? É. Sou um tipo de afectos, até com as roupas crio algum tipo de relação. São cenas de gajo, minhas, as meninas não têm que compreender, apenas aceitar. Só um gajo ganharia alguma forma de amor a um par de botas.

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O direito a não gostar de alguém.

por Fernando Lopes, 17 Dez 16

Sou um homem de pessoas, quem me conhece sabe que rapidamente estabeleço empatias, cumplicidades, sem que isso signifique algum interesse esconso. É o meu jeito. Num mundo em que os afectos são tão efémeros quanto os interesses, convencionou-se que temos de gostar todos de todos, como se o planeta fosse uma infindável fraternidade. Não é. Tem mais traição, ódio, intriga, que lealdade, amor, frontalidade. Na escola, no trabalho, nas relações sociais não afectivas – e daqui excluo esse meu porto de abrigo que é a amizade – todos esperam que gostemos de todos. Perdoem-me, mas existe gente de que gosto de não gostar. Em alguns casos tenho boas razões para isso.

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Mais de tasca que de salão.

por Fernando Lopes, 3 Dez 16

Aprecio os tipos delicados, calmos, elegantes. São tudo o que não sou. Ainda hoje, num almoço de amigos, brindei-os com a minha excessividade, a voz grossa, o vernáculo, o meu jeito especial de fazer de qualquer taberna a minha casa. Ocasionalmente sujeito a ambientes elegantes, consigo comportar-me discretamente, com a sobriedade mínima para não destoar demasiado. Mas sou demasiado exuberante, apalhaçado, bruto. A tasca é o meu meio, a conversa, aquilo que gosto verdadeiramente. Digo isto com um sorriso, porque ainda hoje tiveram de colocar ponto final na troca de galhardetes com o dono do restaurante. Não fora isso, ainda lá estava, a comer petinga, beber vinho verde branco, ferrar broa com chouriço. Sou, definitivamente, um tipo de tasca, não de salão.

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Suavidade.

por Fernando Lopes, 16 Nov 16

Dado o meu temperamento stressado, desbocado, intempestivo, admiro quem consegue passar pela vida com alguma suavidade. O Paulo Bento tinha a tranquilidade, eu é mais a suavidade. Procuramos compensar o que nos falta, daí que admire esta faceta, em particular, no feminino. Uma mulher que nos chama à razão, nos dá uma descasca, de um modo tranquilo, meio pedagógico, ligeiramente matriarcal, é outra loiça. À hora que tomo pequeno-almoço, está quase sempre uma jovem mulher muito alta, na casa dos 30. Não sei se pelo tamanho imponente, se por natureza, a rapariga é extraordinariamente calma, aprazível, com um tom de voz e um jeito de se exprimir tão calmo que quase apetece confessar-lhe todas as dores de alma e pecados do mundo. Hoje falava com a senhora do café sobre o seu filho, com o seu modo tranquilo sem ser xóninhas. Muitos tendem a confundir uma coisa com a outra. A uma mulher abebézada, não acho grande graça, marca uma fronteira muito ténue entre doçura e patetice. Mas aquele lado calmo, quase ternurento, exerce sobre mim enorme fascínio. É tudo o que não sou.

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Lagartixa.

por Fernando Lopes, 26 Set 16

Insignificâncias ganham ocasionalmente valor de revelação. O fim-de-semana passado estava no churrasco quando vejo no lavatório ao lado uma lagartixa que se debatia desesperada a tentar subir a superfície lisa e íngreme de inox. Observei as tentativas durante uns segundos, e decidi ajudar. Assim que sentiu o meu dedo a empurrá-la, tentou subir ainda mais rapidamente, movimentos de medo puro. Consegui colocá-la fora daquele fosso. Saltou para a tijoleira, depois para a parede de granito. Ficou durante uns segundos a recuperar, voltou-se para mim. Parecerá coisa de amalucado, mas quase aposto que estava a agradecer.

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106 anos e ainda fazemos festa.

por Fernando Lopes, 29 Jul 16

Hoje de manhã recebi uma mensagem do meu melhor amigo. Estava no Porto e queria que fossemos jantar e beber um caneco. Conheço-o desde a 1ª classe, já lá vão – é fazer as contas. Este meu amigo, também com 53 anos, parece uma boa meia-dúzia de anos mais novo. Partilhamos desde sempre vitórias, angústia, interrogações. É arquitecto, um tipo sensível, bem-disposto, com um dos sentidos de humor mais ácidos que conheço. Tem fama – talvez um bocadinho justificada – de playboy. É acima de tudo uma pessoa que ama a vida e que procura vivê-la com o máximo empenho possível. Gosto destes encontros porque seguem sempre a cartilha do improviso, tanto podemos acabar bêbados como cachos como numa conversa séria sobre livros, arte, religião, o que seja. De qualquer modo, colocamos mais de quarenta anos para trás das costas e voltamos a ser dois ganapos. Com ele, sou apenas eu, o Fernando, voltamos a ser os miúdos que jogavam à bola e se escondiam debaixo dos carros quando a professora saía da escola. Essa ingenuidade reencontrada é a melhor das terapias. Boys will be boys.  

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  • Fernando Lopes

    Eu deixo, só que estamos a assistir a uma espécie ...

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  • lucilia

    ahahah nem a propósito, hoje fui à sua cidade. Na ...

  • Fernando Lopes

    Ainda hoje essa duplicidade faz parte da gente do ...

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