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Põe-te no teu lugar.

por Fernando Lopes, 15 Dez 17

 Dizes a verdade mesmo quando ela é inconveniente.

 

Não gostas de jogos de palavras, preferes chamar os bois pelos nomes.

 

Achas que lealdade é mais importante que obediência.

 

Não pensas que dinheiro ou status definam o que é essencial numa pessoa; a sua humanidade.

 

Continuas a desejar utopias.

 

Não te adaptas a situações «sociais».

 

Evitas mentir e até as mentiras piedosas te são custosas.

 

Estás permanentemente insatisfeito contigo e com os outros.

 

Tens grandes exaltações e enormes angústias.

 

Dizes palavrões, ris alto, piscas o olho com malandrice.

 

Adoras beber, rir, cantar.



 

Atenção: és um tipo excessivo, tens o coração perto da boca, melhor pores-te no teu lugar.

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Sonhos e desilusões.

por Fernando Lopes, 21 Nov 17

Será que somos o resultado da soma dos nossos sonhos subtraídos das nossas desilusões? Uma operação aritmética como balanço de vida parece-me muito redutor. Sendo um ser que raramente se contenta, recuso-me a fazer estas contas. Provavelmente aprendi mais com as desilusões, mas o que me faz caminhar em frente são os objectivos alcançados. Venci e perdi número suficiente de combates para saber que o que mais importa é a garra com que se luta, a convicção na justeza da nossa causa. Venho a descobrir que, muitas vezes, dar é mais importante que receber. Quando damos – um carinho, ajuda financeira, uma boa palavra, pouco importa – viaja para o universo um bocadinho de nós. Faço diariamente um esforço para ser honrado, justo, digno, generoso. Não em nome de uma qualquer recompensa monetária ou divina, mas por pensar que é assim que deve ser. Estar consciente desta obrigação de dar o melhor de mim é o que me faz correr. Com a certeza de que raramente serei a pessoa que ambiciono, continuarei a tentar.

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Sem deus nem mestre.

por Fernando Lopes, 31 Ago 17

Cinquenta e quatro anos feitos, quando me perguntam o que em mim mudou tenho de admitir que nada de essencial. Talvez tenha o coiro mais curtido, um pouco menos de impulsividade, maior capacidade em admitir que errei e pedir as respectivas desculpas. Continuo dominado por uma ética restritiva e uma certa inocência. Inocente no sentido de intocado, como uma gota de água que cai numa poça. Gera-se momentaneamente movimento, círculos concêntricos, mas logo tudo volta ao que era. Existe em mim uma profunda aversão a fazer o que é errado, a maltratar os outros, a enganar alguém mesmo que isso me traga proveito evidente. Não é auto-elogio, apenas a constatação de que uma educação rigorosa em termos morais me transformou em prisioneiro desse labirinto. Talvez por isso nada me faça feliz. Faço simplesmente o que tem de ser feito, e o facto é apenas uma nota de rodapé na minha estória. Será talvez essa a razão porque nunca roubei, tão-pouco traí. Sem deus nem mestre, vergam-se-me as costas sobre esta cruz moral que me puseram na infância, que não poucas vezes se me parece mais albarda que crucifixo.

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Ignorando um mundo perfeito.

por Fernando Lopes, 27 Ago 17

Publicidade, media, comunicação, impingem-nos constantemente um mundo perfeito, de imagens perfeitas, casas perfeitas, pessoas perfeitas, comidas perfeitas, como se a perfeição não fosse apenas a excepcionalidade que define o comum. Essas imagens de laboratório, de gente bonita, perfeita, não existiam à minha volta. Sentei-me na areia, observando quem passava. Vi miúdos gorduchos a rebolarem felizes na areia, pais ventrudos, carecas, sorridentes. Mães com celulite, rabos enormes, que quando se sentavam a construir castelos na areia faziam regueifas na barriga. Casais de idade que caminhavam lado a lado. Eles com os calções demasiado subidos, a tapar o umbigo, as senhoras com fatos de banho comprados nos anos 80. Gente normal, imperfeita. Ri-me deles, de mim, e com esse riso fiquei estranhamente apaziguado. Era apenas um tipo normal entre gente normal.

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Sentir-me bem só por me sentir mal.

por Fernando Lopes, 13 Ago 17

Olho ao meu redor e invejo-os, a eles, às suas vidas normais, às suas mulheres anafadas, aos filhos com ar de parvo, corte de cabelo estranho e Playstation na mão. Invejo-lhes o BMW em segunda mão, as férias em Quarteira, o polo aperreado a salientar a pança. Queria que a minha única preocupação fosse a derrota do Porto, aceitar tudo, não questionar nada, não ter angústia, desconforto, insatisfação permanente. Depois olho para as minhas mãos, permanentemente transpiradas. Assim desde sempre. Entendo que esse estado estranho de aflição é a minha natureza. Sorrio, porque sei que sentir-me mal é o meu modo de me sentir bem.

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Inalcançável.

por Fernando Lopes, 5 Jul 17

Já não persigo sonhos pueris de riqueza ou sucesso. Materialmente tenho mais que a maioria, por certo quanto me baste. A minha medida de felicidade mede-se em amar e ser amado. Amor fraterno, filial, de uma mulher. Pensava hoje em voz alta em como tudo se resume a ter barriga cheia, tecto onde não chova, amor a rodos. Tão pouco e tão inalcançável. Ter um colo onde descansar de dias intermináveis. Aceitar e ser aceite sem restrições. Coisas banais bem sei, que no entanto nos fogem, me fogem. Melhor que desistir, morrer tentando, pois o dia em que desistir será o dia em que desapareci mesmo que ainda esteja vivo.

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Cobardia.

por Fernando Lopes, 22 Jun 17

A minha avó foi a minha mãe. Tinha coisas muito suas, uma vontade férrea, um jeito rude, uma generosidade fora do comum. Cuidou de mim como se me tivesse saído do seu útero, justificava-o com o adágio «parir é dor, criar é amor». Esperou que nascesse a bisneta para morrer, nunca iria sair deste mundo sem antes acarinhar «a menina». Como se tivesse a certeza que me tornaria um pai competente, desistiu quando entendeu que era hora. Tenho de ir ao cemitério para juntar os seus ossos aos do avô. Sei que gostaria disso. E no entanto falta-me a coragem. Porque assim que estiver no ossário sei que terei de admitir que morreu. Até agora encarei a sua ausência como se de uma viagem se tratasse. Deixará de ser assim. Dá-me coragem, avó. Dá-me aquelas palmadas suaves, o mais próximo de um carinho que te permitias. Dá-me aqueles teus olhos azuis a sorrir. Dá-me força. 

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A água que lava.

por Fernando Lopes, 10 Mai 17

Hoje logo pela manhã deliciei-me com um fenómeno com que todos nos cruzamos mas que não deixa de ser raro. Estava sol sobre a minha cabeça, dez metros à frente chovia intensamente. Não eram as bruxas a pentear-se, viúva a casar também não vi, mas fiquei uns segundos naquela zona de ninguém. Como na vida, havia sombra e claridade, seco e húmido, quente e frio, amor e ódio. Deixei a água molhar-me. Levou as minhas angústias, medos, erros, pecados. Poucas sensações serão tão libertadoras.

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Até à ilusão.

por Fernando Lopes, 15 Mar 17

A propósito do post aqui debaixo, e de um outro, podemos reflectir no que somos, o que queremos ser, na capacidade de nos reinventarmos, da forma como resistimos às rotinas, como nos focamos no instinto mais básico de nós, a sobrevivência. Cada um, mesmo os mais frágeis, somos resistentes. Durante uns segundos pense-se em todas as voltas e reviravoltas que a vida, a nossa vida, deu. Quantas vezes estivemos perto do tragédia, da morte. De como sobrevivemos aos que nos antecederam, e às vezes. de modo particularmente cruel, aos que nos sucederam. Não te morreu um amigo? Um outro não ficou desempregado, passou dificuldades? Não soubeste daquele colega de escola que acabou agarrado à branca? Não traíste ou foste traído, não te desiludiste com uma paixão que julgavas para sempre? Sobrevive-se sempre a algo ou a alguém, daí que prefira ser «vivente» a «sobrevivente». Inevitavelmente seremos todos mais sobreviventes que viventes. É uma questão de tempo. O que seremos nós afinal? Correndo o risco de uma simplificação absoluta, e consequentemente pateta, posso sintetizar o que hoje sou da seguinte forma: Sou o que resta dos meus sonhos subtraídos das minhas desilusões. Se, como eu, nesta operação, o balanço dos sonhos resistir ao das desilusões, ainda vale a pena estar vivo, porque continuamos a ter a maior capacidade de todas: acreditar no outro. Até à ilusão.

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Não quero mudar-te.

por Fernando Lopes, 12 Mar 17

Estas três palavras seriam a maior declaração de amor que poderia alguma vez ouvir. Não creio que tal tenha acontecido. Aceito-te como és, depressivo, com alterações de humor súbitas, borderliner, preguiçoso, teimoso, desastrado no bricolage, incapaz de cozinhar algo mais que tostas mistas ou pizza, flatulento, irascível, obstinado, asneirento, maníaco. Não quero mudar-te porque em ti vejo algo maior que os teus defeitos: a tua honestidade, integridade, frontalidade, humor. Ouvi algo semelhante num filme, mas já se sabe que tão pungentes afirmações de amor só existem nos filmes. Provavelmente porque nos filmes não existe um cancro chamado dia-a-dia.

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