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Sentir-me bem só por me sentir mal.

por Fernando Lopes, 13 Ago 17

Olho ao meu redor e invejo-os, a eles, às suas vidas normais, às suas mulheres anafadas, aos filhos com ar de parvo, corte de cabelo estranho e Playstation na mão. Invejo-lhes o BMW em segunda mão, as férias em Quarteira, o polo aperreado a salientar a pança. Queria que a minha única preocupação fosse a derrota do Porto, aceitar tudo, não questionar nada, não ter angústia, desconforto, insatisfação permanente. Depois olho para as minhas mãos, permanentemente transpiradas. Assim desde sempre. Entendo que esse estado estranho de aflição é a minha natureza. Sorrio, porque sei que sentir-me mal é o meu modo de me sentir bem.

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Inalcançável.

por Fernando Lopes, 5 Jul 17

Já não persigo sonhos pueris de riqueza ou sucesso. Materialmente tenho mais que a maioria, por certo quanto me baste. A minha medida de felicidade mede-se em amar e ser amado. Amor fraterno, filial, de uma mulher. Pensava hoje em voz alta em como tudo se resume a ter barriga cheia, tecto onde não chova, amor a rodos. Tão pouco e tão inalcançável. Ter um colo onde descansar de dias intermináveis. Aceitar e ser aceite sem restrições. Coisas banais bem sei, que no entanto nos fogem, me fogem. Melhor que desistir, morrer tentando, pois o dia em que desistir será o dia em que desapareci mesmo que ainda esteja vivo.

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Cobardia.

por Fernando Lopes, 22 Jun 17

A minha avó foi a minha mãe. Tinha coisas muito suas, uma vontade férrea, um jeito rude, uma generosidade fora do comum. Cuidou de mim como se me tivesse saído do seu útero, justificava-o com o adágio «parir é dor, criar é amor». Esperou que nascesse a bisneta para morrer, nunca iria sair deste mundo sem antes acarinhar «a menina». Como se tivesse a certeza que me tornaria um pai competente, desistiu quando entendeu que era hora. Tenho de ir ao cemitério para juntar os seus ossos aos do avô. Sei que gostaria disso. E no entanto falta-me a coragem. Porque assim que estiver no ossário sei que terei de admitir que morreu. Até agora encarei a sua ausência como se de uma viagem se tratasse. Deixará de ser assim. Dá-me coragem, avó. Dá-me aquelas palmadas suaves, o mais próximo de um carinho que te permitias. Dá-me aqueles teus olhos azuis a sorrir. Dá-me força. 

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A água que lava.

por Fernando Lopes, 10 Mai 17

Hoje logo pela manhã deliciei-me com um fenómeno com que todos nos cruzamos mas que não deixa de ser raro. Estava sol sobre a minha cabeça, dez metros à frente chovia intensamente. Não eram as bruxas a pentear-se, viúva a casar também não vi, mas fiquei uns segundos naquela zona de ninguém. Como na vida, havia sombra e claridade, seco e húmido, quente e frio, amor e ódio. Deixei a água molhar-me. Levou as minhas angústias, medos, erros, pecados. Poucas sensações serão tão libertadoras.

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Até à ilusão.

por Fernando Lopes, 15 Mar 17

A propósito do post aqui debaixo, e de um outro, podemos reflectir no que somos, o que queremos ser, na capacidade de nos reinventarmos, da forma como resistimos às rotinas, como nos focamos no instinto mais básico de nós, a sobrevivência. Cada um, mesmo os mais frágeis, somos resistentes. Durante uns segundos pense-se em todas as voltas e reviravoltas que a vida, a nossa vida, deu. Quantas vezes estivemos perto do tragédia, da morte. De como sobrevivemos aos que nos antecederam, e às vezes. de modo particularmente cruel, aos que nos sucederam. Não te morreu um amigo? Um outro não ficou desempregado, passou dificuldades? Não soubeste daquele colega de escola que acabou agarrado à branca? Não traíste ou foste traído, não te desiludiste com uma paixão que julgavas para sempre? Sobrevive-se sempre a algo ou a alguém, daí que prefira ser «vivente» a «sobrevivente». Inevitavelmente seremos todos mais sobreviventes que viventes. É uma questão de tempo. O que seremos nós afinal? Correndo o risco de uma simplificação absoluta, e consequentemente pateta, posso sintetizar o que hoje sou da seguinte forma: Sou o que resta dos meus sonhos subtraídos das minhas desilusões. Se, como eu, nesta operação, o balanço dos sonhos resistir ao das desilusões, ainda vale a pena estar vivo, porque continuamos a ter a maior capacidade de todas: acreditar no outro. Até à ilusão.

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Não quero mudar-te.

por Fernando Lopes, 12 Mar 17

Estas três palavras seriam a maior declaração de amor que poderia alguma vez ouvir. Não creio que tal tenha acontecido. Aceito-te como és, depressivo, com alterações de humor súbitas, borderliner, preguiçoso, teimoso, desastrado no bricolage, incapaz de cozinhar algo mais que tostas mistas ou pizza, flatulento, irascível, obstinado, asneirento, maníaco. Não quero mudar-te porque em ti vejo algo maior que os teus defeitos: a tua honestidade, integridade, frontalidade, humor. Ouvi algo semelhante num filme, mas já se sabe que tão pungentes afirmações de amor só existem nos filmes. Provavelmente porque nos filmes não existe um cancro chamado dia-a-dia.

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Apenas um pouco só.

por Fernando Lopes, 1 Mar 17

Talvez por ter sido criado como se de filho único se tratasse, habituei-me a estar só. Não desgosto do facto, mais por circunstâncias que por personalidade, estar só, passou a ser o meu normal. Muitos acham-me extrovertido, bem disposto, alegre até. Talvez o seja porque em mim existe a necessidade de ser amado pelos outros, de ter quem goste de mim, quebrando assim esse ciclo de ensimesmamento. Depois encerro-me na gaiola dos meus pensamentos, desejos, sonhos. Vivo num mundo real de que me desligo sempre que posso. Para onde fujo? Para os livros, filmes, estórias, para as ruas desta cidade que me falam como se de gente se tratasse. Não sou solitário, estou apenas um pouco só.

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Passado resolvido.

por Fernando Lopes, 9 Fev 17

 

Quatro homens a falar de mulheres, eu mais a ouvir que a participar. Para maduros já todos há muito passados dos quarenta, há muito ressentimento no ar. Um porque a mulher o deixou, outro porque foi traído – embora o não diga todos o sabemos, outro ainda porque vive com a mulher que o quis, não a que ele queria. As gajas isto e aquilo, o azedume escorre, dor e frustração de par em par. Aquele não é certamente o meu filme, conservo memórias doces de todas as relações intensas que tive. Com uma namorei mais de um ano, outra nove, a minha mulher atura-me há quase vinte e quatro. Se tivesse de fazer um balanço, se isso fosse importante, só poderia dizer bem das «mulheres da minha vida». Amaram-me, amei-as o melhor que pude e fui capaz, fizeram de mim este tipo sem amarguras afectivas, quase tudo memórias arquivadas na pasta «ternura». Penso como deve ser triste, já entradote, conservar ressentimento, pensar que não gostavam verdadeiramente de nós, estar constantemente assaltado pelo medo e dúvida. Pode-se pensar que tive sorte, mas nisto dos amores, tens tanta sorte quanto és capaz de dar, no momento certo, à pessoa certa.

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Ainda o fogo.

por Fernando Lopes, 21 Jan 17

Talvez os meus melhor anos tenham passado, contudo, não os quero de volta. Nada é como dantes, e, no entanto, algo em mim permanece intocado, rude, selvagem, como se de um rapazinho se tratasse. De uma maneira só minha, nunca envelheci. Sou capaz de chorar como um bebé, dançar como um louco, rir como um parvo, apaixonar-me como um adolescente. Deve ser a isso que chamam «estar vivo».

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Uma puta como as outras.

por Fernando Lopes, 28 Dez 16

musico_cedofeita.jpg O homem, a guitarra, a liberdade. Ainda e sempre em Cedofeita.

 

Sais de casa no eu primeiro dia de férias de ano novo. No cruzamento de Oliveira Monteiro com Nossa Senhora de Fátima, na esplanada da velha confeitaria, um homem toca clarinete para ninguém, só pelo prazer de tocar. Em Cedofeita páras para conversar com outro músico de rua já teu velho conhecido. Na rua da Fábrica um asiático tira sons melodiosos de uma espécie de xilofone. Invejas-lhes a liberdade. Depois reflectes e vês como te tornaste prisioneiro do teu modo de vida: salário confortável, apartamento em zona nobre da cidade, casa de campo, férias em destinos «exóticos», popó de quase 200 cavalos. Não escolheste este ou outro caminho, o destino simplesmente empurrou-te. És uma puta, uma puta como as outras, talvez mais venal. Essas só transaccionam o corpo, tu, meu merdas, vendes diariamente a tua liberdade. Consolas-te com o fraco pensamento que a tua cabeça é inexpugnável, nela reside o teu espaço último de independência.

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