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Um oceano de supermercados.

por Fernando Lopes, 7 Dez 16

Antigo como sou, recordo-me da única cadeia de supermercados da cidade, «Invictus». Na infância a maioria das compras eram feitas na mercearia mais próxima. Quando a solenidade da ocasião assim o exigia, ia pela mão da avó às mercearias finas do Bonjardim. Embora muito desse comércio tradicional se tenha modernizado, transformado em gourmet, agora pelo Natal irei comprar queijo da serra e frutos secos a um dos estabelecimentos tradicionais sobreviventes. O cúmulo da finesse era ir ao «Augusto» da Foz, que ainda hoje existe. Esse foi o pioneiro do comércio de produtos alimentares premium, só se frequentava para compras muito especiais. Vem-me isto à cabeça porque deparei com a inauguração de dois «Continente» quase em simultâneo. Esgotado o modelo dos hipermercados, criam-se áreas mais pequenas em cada canto e esquina. Não sei se existirão clientes para tanta comida, mas havemos de arrotar só da visão de tanta loja alimentar.

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Colaboracionista involuntário.

por Fernando Lopes, 22 Nov 15

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Um amigo trouxe esta foto velha de 42 anos. Festa de final de ano, exibição de ginástica da 4ª classe, Junho de 1973. Ali estou, bem ao centro, roupa de ginástica imaculada, um despropositado relógio no pulso, exibindo-me perante dignatários do regime. A bandeira da Mocidade Portuguesa como fundo. Educado sob a batuta do terror, em que um erro significava chapada, reguada ou palmatória certa, não me colocava questões sobre o regime, o que estava ali a fazer, quem eram as personagens sinistras na mesa de honra. Fazia o que me mandavam. Cresci, aprendi, ensinaram-me a questionar tudo. Visto hoje, percebo que em 52 anos de vida já cruzei dois mundos, que a luz e as sombras muitas vezes se confundem.

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Guarda-Nocturno.

por Fernando Lopes, 12 Nov 15

Entre as profissões que desapareceram da cidade está o guarda-nocturno. Ao que sei a coisa modernizou-se e nada é como dantes. Quando era jovem a maioria dos guarda-nocturnos eram polícias reformados. Ao que consta, havia também alguns que exerciam outras profissões durante o dia e aproveitavam a noite para reforçar o parco orçamento. Sem vencimento fixo dependiam da boa-vontade de comerciantes e moradores.

 

Lembro-me de os ver com um cassetete a certificarem-se que as portas das casas e lojas estavam bem fechadas. Eram uma referência dos meus tempos boémios, pois como os bonecos de um relógio de cuco, marcavam horas perdidas, conversas à toa, bebedeiras homéricas.

 

Uma das condições para se ser um bom guarda era gastar cinco litros de tinto aos cem. Dos que conhecia e se passeavam por Cedofeita e Batalha, apenas um mantinha sobriedade. Recordo alguns episódios pitorescos: enquanto deitávamos conversa fora no cruzamento entre Cedofeita e a Figueiroa o sinal passa a vermelho e o velho Ford do guarda pára. Ao arrancar, sobe o passeio e bate com toda a força no semáforo, tombando-o. Sem sair do carro recua e estaciona-o a 50 metros junto à esquadra. Sai cambaleante e a barafustar, certamente por o caminho estar cheio de obstáculos inesperados.

 

O da Batalha era agricultor, e tinha um perfume particular que se sentia a cinco metros. Um misto de cheiro a estume, hálito fétido e vinho tinto. Penso que lhe bastaria levantar um sovaco para fazer tombar ou pôr a fugir o mais ladino dos larápios.

 

Tenho uma certa nostalgia da figura do guarda, marcava o tempo em que a cidade ficava apenas ocupada pelas almas da noite e estes seus peculiares zeladores.

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Já ninguém escreve cartas.

por Fernando Lopes, 28 Jun 15

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Passei por eles, um azul, outro vermelho, e dei-me conta de que em breve os marcos de correio desaparecerão. Nestes tempos de urgência, de comunicação imediata, são cada vez mais uma idiossincrasia. Recordei o tempo em que escrevia cartas de amor, dos bilhetes entregues à socapa à menina dos caracóis longos, da solenidade existente no acto de colar o selo, endereçar a missiva e deixá-la num marco de correio. De como procurava usar a minha melhor letra no endereço, do cuidado em escrever o remetente em letras mais pequenas. Sou um resistente, nunca aceito a substituição das cartas por pdfs, ainda recebo todas as contas por correio tradicional. Já só me escreve a EDP, NOS, a companhia das águas e pouco mais. Dei-me conta que a culpa também é minha, só sei endereços electrónicos, não envio uma carta a ninguém, nos últimos anos apenas meti no marco despesas de saúde para comparticipação dos serviços médicos sociais. Provavelmente esqueci como se escreve à mão. Triste, não é?

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O cruise control do meu tempo.

por Fernando Lopes, 26 Jun 15

Falávamos de carros, eu e um rapaz da minha idade (adoro esta expressão porque pode ser usada sem estranheza até aos 90). Naqueles tempos distantes poucos tínhamos carro antes de começar a trabalhar. O meu primeiro veículo foi um Fiat 127 que tinha pertencido ao avô. Obrigou-me a pagá-lo e depois devolveu-me o dinheiro. Troquei-o por um Renault 5 e jurei que nunca mais teria carro daquela marca. Mudei bateria, cabos, alternador. Nada. Bastava chover para se recusar a sair do sítio. A coisa era de tal forma que, em noites em que se antecipava pulviosidade, já o deixava estacionado numa descida para «pegar». Um dos meus maiores alívios foi ter-me despachado da coisa e ter arranjado motorização normal.

 

Entre essas peripécias lembrou-se de uma coisa relativamente vulgar nos anos 80, o cruise control manual. Como os utilitários daquela época não passavam dos 120 à hora, muitos usavam um taco de bilhar sem a ponta, entalavam-no entre o banco e o acelerador, e assim, nas viagens nas poucas auto-estradas da época, se descansavam as pernas.

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Já recebo comunicados de imprensa!

por Fernando Lopes, 11 Dez 14

Especiarias de O Pretinho do Japão.jpgOs silos que recordo da infância

 

Há uns tempos escrevi sobre uma mercearia da infância, «O Pretinho do Japão». Para surpresa minha, aqui a taberna recebeu um convite para a inauguração de um renovado estabelecimento. Já recusei inúmeras propostas de publicidade, não faço posts a pedido, enquanto tiver trabalho e amor-próprio jamais me transformarei num vendilhão do templo. Escrevo o que quero, quando quero. Assim, embora insensível à publicidade, não o sou aos afectos. Defender o comércio tradicional não é gostar muitas das lojas tradicionais e depois ir a correr para o hiper poupar meia-dúzia de cêntimos. É frequentar lojas com gente que conhecemos, que tem nome, passado, que atendem personalizadamente. Vou lá comprar os damascos secos que o meu amor devora como louca por épocas do Natal. É importante praticar o que se prega, por isso, se vos interessar dêem um salto a este sítio emblemático, apreciem a vetustez dos silos, vejam as senhas de racionamento dos anos 40. Porque uma mercearia também pode ser um bocadinho de história.

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Bacalhau demolhado.

por Fernando Lopes, 10 Set 14

Um retorno às coisas de antanho, rubrica já há algum tempo esquecida. Falava das mercearias finas da Rua do Bonjardim, do café moído na hora, dos pinhões com sabor, feijão fradinho e bacalhau demolhado. Os mais novos recordar-se-ão apenas do bacalhau Pascoal, vendido em em embalagens herméticas, asséptico e incipiente como a generalidade dos produtos que hoje consumimos. Os que têm mais de 45 anos terão provavelmente, a mando da mãe, recorrido à mercearia vizinha para comprar bacalhau demolhado. Numa situação de urgência, e não havendo tempo para tratar convenientemente o fiel amigo, recorríamos aos estabelecimentos gourmet da época, as mercearias. Numa bacia, mergulhadas em água, estavam postas do gadídeo, prontas a serem cozinhadas. Claro que isto aconteceu em tempos remotos, muito antes do higienismo fascista imposto pela ASAE. Exalavam um cheiro muito próprio que algumas almas maldosas associavam ao «perfume» da intimidade feminina. Tudo mitologia urbana. Como podem imaginar, fiquei ligeiramente surpreso quando o primeiro pipi com que tive contacto íntimo exalava agradável odor, ligeiramente perfumado, longe da intensa e azeda fragrância do bacalhau demolhado.

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Palácio de Cristal.

por Fernando Lopes, 7 Set 14

Imagem roubada ao facebook de «Porto Desaparecido»

 

Para a minha geração, Palácio de Cristal, ou simplesmente Palácio, será sempre sinónimo de Feira Popular. Entrando pela Rua D. Manuel II, percorrida a pequena recta ladeada de árvores, estávamos perante dois clássicos de sempre, o martelo para testar as forças e um homem muito velho com um carrinho de ferro. O carrinho tinha uma pega, devia-se empurrar com a máxima força por um emaranhado de curvas e contra curvas. Se chegasse ao cimo, batesse na porta, saltava um cabeçudo a fazer um manguito. Um prémio estranho para os dias de hoje, mas que nos enchia da satisfação do dever cumprido.

 

Havia aviões de sobe-e-desce, barracas de tiro, carrinhos de choque, umas cadeiras que andavam em círculo presas por cadeados numa espécie de desafio radical, barracas de chocolates em que se fazia um furo. Conforme a cor da bola que nos calhasse em sorte, um chocolate diferente.

 

Tínhamos as esplanadas da avenida das Tílias, onde lanchávamos tostas mistas e leite chocolatado UCAL, o lago, onde consoante a bolsa, se podia andar de barco a remos ou a motor.

 

Mais abaixo o «zoológico» com o chimpanzé Chico, o leão Sofala, pavões, aves exóticas e galinhas de Angola a cacarejar «Tou fraca». Restaurantes onde se comia sardinha e frango assado, azeitonas e broa, coisas simples, num tempo simples.

 

Planeei ir à Feira do Livro, apoio a revitalização deste espaço da cidade, mas Palácio será sempre a alegria infantil de uma Feira Popular. 

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O computador falou comigo!

por Fernando Lopes, 21 Mai 14

Quando comecei a trabalhar, há quase trinta anos, os computadores eram uma peça rara – e cara. O primeiro PC em que fiz contas com o Lotus 1,2,3 e processamento de texto com o Wordstar custava à época cerca de 3.000 euros. Como trabalhava para a Sonae que era representante da Apple,  passados alguns anos tivemos os primeiros Mac. Trabalhava connosco uma estagiária muito burrinha, Deus a perdoe. Tão burra, que ao consultarmos a agenda de contactos verificámos que registava todos os drs. no D e engenheiros no E.

Um dos tipos da contabilidade descobriu que num dos novos modelos se podia definir o som de arranque. A máquina tinha um pequeno microfone incorporado, pelo que gravou numa voz fantasmagórica:

- Ó Rute, Ó Rute! e definiu-o como som de arranque do sistema.

A miúda chega, liga a maquineta e sai a correr do gabinete:

- Ó dra. Graça, o computador falou comigo! 

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Pílulas de alho Rogoff.

por Fernando Lopes, 25 Dez 13

 

Utilizo a tagCoisas de Antanho” quando me recordo de algo que me transporta à infância, ou se caracteriza por ser geracionalmente comum. Hoje, não sei porquê, lembrei-me das pílulas de alho Rogoff, o anti-oxidante da minha infância. Num mundo em que todos procuram retardar o envelhecimento por todos os meios e tal facto se tornou quase numa obsessão colectiva, penso ter descoberto o segredo do Sr. Rogoff.

 

Em primeiro lugar nunca quis vencer o tempo, contenta-se em ser um velhinho saudável, de barba branca, com rugas que atestam a vida. Tem ar que quem não sabe o que é um facelift, e a sua elegância deve-se ao trabalho duro no campo, que enrijece os músculos e o torna uma espécie de oliveira humana, respeitável e firme.

 

O Sr. Rogoff, devido à sua fixação por alho, tinha uma vida social muito limitada. Poucos amigos suportavam o seu hálito, mulher e filhos nunca os teve. Ora todos sabemos que o stress causado pelas relações sociais e familiares, envelhece. Livres destes dois factores, este celibatário manteve-se na excelente forma que a imagem retrata por muitos e bons anos.

 

Na farmácia que existe entre a Livraria do Estado e o Largo do Moinho de Vento, havia um Rogoff de madeira que dava repetitivas piruetas sobre uma barra fixa de madeira, rodeado das pílulas com o seu nome. Esta publicidade artesanal ficou na memória do então infante, até hoje. Um sinal da beleza das coisas simples, perdido nesta sofisticação de pechisbeque em que vivemos.

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