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Aventurar-se a amar.

por Fernando Lopes, 28 Ago 17

Noto imensas mulheres e homens solitários. Construiram uma carreira, uma vida, mas não têm com quem a partilhar. Baseado unicamente na minha observação diria que em muitos casos o foco no sucesso académico e profissional transforma essas pessoas em gente que se sublima pelo trabalho esquecendo que a vida tem muito mais que isso. Para mim sucesso é ser amado, ser pai, pessoa. Quem me adiantaria ser um profissional de elite se ninguém me amasse? Fechados neste seu labirinto, esta imensa multidão de gente só, tende a ter medo da rejeição, a não ser tolerante com o outro, a quedar-se pelo seu pequeno mundo. Tenho amigos e amigas assim, à espera de um príncipe ou princesa perfeitos que não chegarão nunca, que não arriscam apaixonar-se, não estão prontos a ceder, a ser tolerantes, a aceitar que esse conceito infantil da pessoa bela, inteligente, sexy, sensível, toda ela só qualidades, mais não é que um sonho pueril. Escrevo isto com a experiência de uma partilha de vida longa de vinte e quatro anos. Nunca nada foi exactamente como idealizei. Existiram zangas, dúvidas, desentendimentos profundos. Ainda hoje subsistem, mas já sabemos que não existem relações ideais, apenas pessoas que através de um longo processo de adaptação, sucessos e fracassos, altos e baixos, superam as dificuldades através da vontade e do amor. Não estar disposto a arriscar, não ser capaz de abrir o coração, de exibir despudoradamente as suas fragilidades, agarrar-se a uma quimera, é uma espécie de morte em vida. Aventurar-se a amar, tropeçar, cair, voltar a levantar-se, e tentar de novo com o mesmo entusiasmo, é a essência da vida. Pobres dos que ficam sentados, tristes e impotentes, à espera de algo que não virá nunca, tão-somente porque não existe.

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Da hipocrisia.

por Fernando Lopes, 11 Mai 17

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Interessa-me menos que pouco com quem o Sr. Macron dorme, se é homem ou mulher, se é vinte anos mais velha ou dez anos mais nova. Sendo uma relação consensual é tão boa como qualquer outra. Para as relações com pessoas mais velhas o povo português tem adágios como «homem velho e mulher nova, filhos até à cova» ou «galinha velha ainda faz boa canja». Trocado por miúdos, e na era pré-Viagra, isto significava tão simplesmente que a juventude do parceiro pode ser um poderoso afrodisíaco. O mulherio da minha idade veio histérico em defesa do deslavado Macron por ter casado com uma mulher mais velha. Quem disser uma piada, quem achar a opção do novo presidente francês invulgar, é logo apodado de misógino, machista, fora dos tempos, o que se quiser. Até essa luminária que é Judite de Sousa escreveu uma qualquer crónica, revoltadíssima, agastadísima, sobre quem estranha a bizarra escolha afectiva do jovem eleito. Não estaria a escrever este post se as senhoras que defendem uma mulher madura que conquistou o coração de um Macron adolescente não fossem as mesmas que em privado mandam piadas sobre as namoradas de Pinto da Costa ou que insinuam que uma rapariga nova não se pode apaixonar por um tipo mais velho. É a duplicidade de critérios que me chateia não o facto de UMA PESSOA poder gostar de OUTRA PESSOA, tenham elas a diferença de idade que tiverem. A ditadura do politicamente correcto tem destas coisas, volta e meia faz ricochete. Não podemos aceitar como bom o que ontem criticávamos só porque o sexo dos intervenientes mudou. São seres humanos, amam-se, e isso é tudo o que importa.

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Ficar sóbrio.

por Fernando Lopes, 12 Jan 17

À minha volta, amigos embebedam-se de paixão. Contrariamente ao que o vulgo diz, estar apaixonado é igual aos 20, 30, ou 50. A diferença só é notória porque existem menos expectativas em relação ao outro, aprendemos a aceitar mais, a tolerar melhor. Um amigo de longuíssima data confessa que só consegue viver nesse estádio, só esse entusiasmo pueril o faz feliz. Por natureza sensível ao estado de alma do outro, gosto de os ver assim, com um sorriso de orelha a orelha, como se nada mais importasse que o amor. Sendo homem de poucas mas fortíssimas paixões, entendo-os, abraço-lhes o coração, vivo pelos olhos dos outros. Embora aprecie estes momentos de inebriamento, enlevo, aconselho-os a ficarem sóbrios. Essa voragem que tudo consome não pode – ou não deve – ser o estado primeiro de alguém. Depois vejo que no fundo todos ambicionamos essa tonta felicidade permanente. Uns vivem para ela, outros habituam-se a mares menos capelosos. O meu conselho é treta. Vivam tão intensamente quanto for possível, entreguem o coração, corpo e alma, tanto quanto conseguirem. Quem não anda num permanente precipício só vive pela metade.

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Como estilhaço.

por Fernando Lopes, 21 Jan 16

Falava com um amigo sobre desilusões e frustrações amorosas. Ao contrário do que é vulgar dizer-se, o tempo não cura tudo, apenas ameniza. Quando algo corre mal sabemos que fracassamos como indivíduo e casal. Para quem deu o melhor de si, acreditou que ia resultar, ficará sempre dor e um sabor agridoce. Como um estilhaço que a pele cobriu, normalmente causa pouco incómodo, no entanto se lhe tocarmos, dói. Aprender a conviver com essa dor, umas vezes suave, outras dilacerante, é tudo o que resta.

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«A autonomia afectiva é uma ilusão»

por Fernando Lopes, 13 Ago 14

Extrato de uma entrevista de Claude Habib ao Libération a propósito do seu novo livro «Le goût de la vie commune».

 

Mal-grado a conotação negativa, faz do tédio uma condição sine qua non da vida a dois…

 

Desejar a excitação permanente é pueril. Existem boas razões para terminar uma relação, não o tédio. Voltar contra o outro uma monotonia que em si mesmo é do casal, é fazer um processo de intenções: não podemos desejar a estabilidade e incriminar o tédio. Não falo do spleen, mas simplesmente do estado em que não se passa nada, essa plataforma continental da idade adulta. Não tenho a receita para a vida a dois, mas no mínimo, é o acordo sobre a procura de escutar o outro. Ouvir é o objectivo. É também o meio. Pascal Bruckner fala dos benefícios da vida em comum, esquecendo-se que deixa ressentimentos por vezes indeléveis. É necessário fazer o possível para adiar e aguardar pela calma que permite compreender. Amar é guardar a infelicidade para mais tarde. 

(...)

 

(*) A perspectiva da autora não é necessariamente concidente com a minha.

(**) Tradução (traição) minha. Ler o original em liberation.fr.

 

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